Cartas do Mundo

Carta de Paris: A liberdade de informar e o direito de ser informado

O direito de saber é um direito fundamental dos cidadãos, diz o jornalista francês Edwy Plenel

04/08/2019 11:27

Edwy Plenel no início dos anos 90 (Antonio Ribeiro/Getty images)

Créditos da foto: Edwy Plenel no início dos anos 90 (Antonio Ribeiro/Getty images)

 
Em reportagem com viés nitidamente ideológico (anticomunista), publicada em julho no jornal «Libération» (intitulada Como a China se infiltra no Ocidente), a jornalista Laurence Defranoux tentava demonstrar os métodos pouco democráticos do regime de Pequim.

Ela cita diversos exemplos de métodos dignos de um totalitarismo, entre eles, a expulsão do chefe da sucursal do «Financial Times» em Hongkong, Victor Mallet, por ter convidado um militante independentista a um debate.

A mesma reportagem informa em um momento: «Numa nota secreta interna do Partido Comunista Chinês, a liberdade da imprensa é classificada entre os «sete perigos ocidentais», juntamente com os direitos humanos e a independência da Justiça».

Coincidência. O governo Bolsonaro elegeu os mesmos «perigos» que o Partido Comunista Chinês. Os extremos acabam se parecendo como duas gotas de água. O que incomoda o homem do Planalto não é exatamente a liberdade de imprensa, os direitos humanos e a independência da Justiça?

Um idiota poderia chegar à conclusão que o líder brasileiro da extrema-direita é… comunista. Não foi algo parecido quando um tosco do governo disse que o nazismo era de esquerda, simplesmente porque a extrema-direita nazista se apropriou de diversos símbolos e cores das lutas de esquerda e ainda usou a palavra socialista no nome do partido? Para os toscos que governam o Brasil, o Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães (Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei) era de esquerda. Uma evidência, para os dementes do planalto central.

Uma farsa grotesca

Desmoralizados depois das revelações do «The Intercept», Moro e seus cúmplices reagiram como ratos acuados.

Quem acreditou na nova farsa cheia de contradições com as datas e com os fatos? Em que país democrático o importante seria a forma como a informação foi obtida e não o conteúdo da informação, que revela crime grave?

Em qualquer país civilizado a Justiça investiga as revelações e não as possíveis fontes dos jornalistas. Nesses países, como a França, o segredo das fontes é protegido por lei.

Sobre a constitucionalidade do trabalho do «The Intercept», a jurista Carol Proner, uma das coordenadoras da associação Juristas pela Democracia diz, em texto publicado em sua página facebook:

«Não se trata apenas de liberdade de imprensa a dar cobertura constitucional ao trabalho do «The Intercept», mas também de liberdade de expressão, do direito à verdade e do direito (de acesso) à informação, quatro capas jurídicas imbricadas que garantem absoluta legalidade e o dever de proteção estatal ao trabalho dos jornalistas liderados por Glenn Greenwald. É por tudo isso que o trabalho da equipe precisa ser defendido. O que eles fazem é mais que jornalismo. Realizam um inestimável trabalho de reconstituição da verdade histórica em tempos bloqueados pelo arbítrio judicial e pelo saudosista das sombras do passado».

Sabemos que num país que não fosse um bananal o desvio legal e ético cometido pelos procuradores e pelo ex-juiz já teria sido punido devidamente com a anulação dos processos viciados e o afastamento dos criminosos de suas funções.

Para terminar, dou a palavra ao maior jornalista francês, na minha opinião, Edwy Plenel, ex-diretor do «Le Monde», fundador do jornal online «Mediapart», um modelo de jornalismo de investigação independente que não tem publicidade e se sustenta unicamente por seus mais de 150 mil assinantes. O slogan de Mediapart é, justamente por isso, «Somente nossos leitores podem nos comprar».

 «Ao criar Mediapart em 2008, quisemos nesse momento de crise econômica da imprensa e de crise política das democracias defender o valor do jornalismo. Valor da informação, valor de um métier, de uma profissão, valor da democracia, em suma. Todo o ecossistema de Mediapart, tanto a maneira com que foi concebido totalmente digital com uma dimensão participativa e seu modelo comercial de assinaturas, nossa única receita, tudo isso repousa sobre a idéia que estamos, nós os jornalistas, a serviço de um direito fundamental dos cidadãos que é o direito de saber. E que é defendendo esse direito e mostrando que nós estamos a seu serviço através de nossas informações que se pode recriar a confiança do público e convencê-lo a aderir, contribuindo para a nossa independência».

Para perenizar o modelo de Mediapart e impedir que no futuro um milionário o compre e faça dele um veículo para defender unicamente seus interesses, o jornal vai criar este ano uma estrutura com fins não- lucrativos e, portanto, estrutura não-capitalista, informou Edwy Plenel, em entrevista coletiva em Paris, no mês de julho.

A «Société pour la protection de l’indépendance de Mediapart» nunca poderá ser cedida e garantirá a total liberdade e independência no futuro ao jornal online mais importante da França e único no mundo com esse modelo.

Com as revelações de Mediapart, devidamente confirmadas pela Justiça francesa, dois ministros foram devidamente defenestrados: um do governo Hollande, Jérôme Cahuzac, e este ano, François de Rugis, ministro da Ecologia de Macron.

Nos dois casos, ninguém ousou questionar as fontes das revelações de Mediapart.

Na França, o importante para a Justiça é investigar a denúncia dos jornalistas e não tentar desqualificar suas fontes.

Normal. A França é uma democracia.

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