Cartas do Mundo

Carta de Paris: A volta da esquerda plural às prefeituras e polêmica no novo ministério Macron

Ecologistas conquistam o poder, sozinhos ou aliados a partidos de esquerda. Mais prefeitas dirigem grandes cidades

09/07/2020 14:13

Anne Hidalgo e Martine Aubry (François Lo Presti/AFP)

Créditos da foto: Anne Hidalgo e Martine Aubry (François Lo Presti/AFP)

 
Por terem entendido que urgência social é tão importante quanto urgência climática, os eleitores franceses entregaram as chaves das grandes cidades à esquerda. Separadamente ou unidos, ecologistas e socialistas fizeram uma reconquista de cidades importantes como Marselha, Bordeaux, Estrasburgo e Lyon e mantiveram o poder em outras como Lille e Paris, numa eleição municipal totalmente atípica.

Duas boas notícias, pois, resultaram do segundo turno de 28 de junho : a primeira é que quando se unem, partidos de esquerda e partidos ecologistas podem conquistar o poder em feudos de direita, como Marseille e Bordeaux.

A segunda é que as prefeituras de grandes cidades vão ser dirigidas por mulheres. Duas socialistas se reelegeram : Martine Aubry, em Lille, e Anne Hidalgo, em Paris. São mulheres que dirigem agora Estrasburgo, a ecologista Jeanne Barseghian, Nantes, a socialista Johanna Rolland, e Marselha, a ecologista Michèle Rubirola, médica de 63 anos. O partido Europe-Écologie Les Verts também elegeu o prefeito de Lyon, Grégory Doucet e, em Montpellier, o socialista Michaël Delafosse reforça o time dos prefeitos de esquerda.

Em Marselha, onde a taxa de abstenção no segundo turno foi de 65%, Michèle Rubirola, formou a aliança vencedora “Primavera Marselhesa”, aliando ecologistas como ela a outros segmentos da esquerda. Sua candidatura conseguiu desalojar a direita, que dirigia a cidade mediterrânea há 25 anos, depois de ter sido governada pelo socialista Gaston Defferre por trinta anos.

O prefeito de direita de Nice, Christian Estrosi, do partido Les Républicains, conservou a prefeitura. Em Toulouse, Jean-Luc Moudenc foi eleito pelo mesmo partido. Les Républicains, partido da direita gaullista, que sucedeu à UMP e presidiu a França com Sarkozy e Chirac, perdeu o governo da metade das cidades, em relação à eleição de 2014.

A ecologia é de esquerda

Apesar de não pertencer ao partido ecologista, a prefeita de Paris, Anne Hidalgo, vem atraindo desde seu primeiro mandato a antipatia de muitos parisienses pela atenção particular ao meio ambiente, à melhoria do ar de Paris e à diminuição de vias de automóveis. Depois da Covid-19, ela iniciou uma ampliação da vias cicláveis, o que irrita muitos automobilistas.

Com os novos prefeitos ecologistas, as cidades francesas serão mais verdes e começarão, espera-se, uma efetiva transição ecológica. Os novos prefeitos do partido Europe-Écologie Les Verts confirmam um crescimento importante dessa formação, já verificado nas eleições para o Parlamento europeu no ano passado.

Mas as eleições deixaram um gosto amargo : uma taxa de abstencão nacional inédita é um sinal de alerta para a democracia.

Apenas 41,06% dos eleitores foram votar. Esse percentual representa uma queda espetacular de participação, nunca vista na quinta República. O coronavírus, responsável pelo adiamento do segundo turno previsto para final de março, explica em parte esse recorde histórico. No entanto, a ausência de eleitores nas urnas revela também um desapreço pela política, sobretudo nas classes menos favorecidas e entre os mais jovens.

Quanto ao Rassemblement National, ex-Front National, partido de Marine Le Pen, seu resultado foi muito aquém do sonhado : elegeu apenas um prefeito de uma cidade de mais de 100 mil habitantes, Perpignan.

Ministério de combate

Com a perspectiva de muitas demissões pós-pandemia, um desemprego de massa para o segundo semestre e novos movimentos sociais que vão pressionar o governo no sentido de engavetar a reforma da aposentadoria, combatida pela maioria dos franceses, o presidente Macron reformou seu ministério para enfrentar a segunda metade de seu mandato.

Uma regra de ouro instituída desde o governo Hollande foi mantida : 50% dos ministros são mulheres, respeitando a paridade que, no entanto, não foi ainda atingida nem na Assembléia Legislativa nem no Senado.

Macron, que se dizia « de direita e de esquerda » quando fez campanha depois de se afirmar « nem de direita nem de esquerda », resolveu dar uma guinada à direita. Muitos comentaristas assinalaram que seu novo ministério faz pensar em Nicolas Sarkozy.

Dois dos ministérios mais importantes do governo, Justiça e Interior, foram dados a dois homens polêmicos. A nomeação de Éric Dupond-Moretti, um dos mais respeitados advogados penalistas franceses, que em diversas ocasiões criticou a atuação de juízes, não agradou à maioria dos magistrados. Também não agradou a grupos feministas que lembraram frases machistas de Moretti em relação ao movimento Metoo.

Quanto a Gérald Darmanin, ele tem uma acusação de estupro ainda não esclarecida. E o novo ministro já mostrou que vai gerar muito descontentamento ao se declarar totalmente solidário aos policiais. A polícia francesa é acusada frequentemente de abusos e violências contra populações discriminadas, como africanos e descendentes de árabes, vítimas de um racismo sub-reptício, tipicamente francês. Nos últimos anos diversas pessoas perderam a vida devido a violências de policiais.

Indignadas com as duas nomeações, diversas feministas protestaram diante do ministério do Interior e escreveram artigos dizendo que essas nomeações são « uma afronta à luta das mulheres ». Segundo elas, o ministro da Justiça « veicula a cultura do estupro » com diversas de suas frases pronunciadas em diferentes contextos.

Elas lembraram que apenas 1% dos estupradores são condenados na França, 76% das denúncias de estupro não são julgadas e 82% das vítimas de estupro foram mal recepcionadas nas delegacias ao fazer uma queixa.

Macron ganhou mais um segmento da sociedade francesa contra ele.

Não precisava. Ele já é considerado um dos presidentes mais impopulares da quinta República. Há quem preveja que ele terá dificuldade até mesmo de se recandidatar.

Mas a política, como la donna, è mobile.

Até 2022, muitas coisas podem acontecer.

Leneide Duarte-Plon é co-autora, com Clarisse Meireles, de « Um homem torturado, nos passos de frei Tito de Alencar » (Editora Civilização Brasileira, 2014). Em 2016, pela mesma editora, a autora lançou « A tortura como arma de guerra-Da Argélia ao Brasil : Como os militares franceses exportaram os esquadrões da morte e o terrorismo de Estado ». Ambos foram finalistas do Prêmio Jabuti. O segundo foi também finalista do Prêmio Biblioteca Nacional



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