Cartas do Mundo

Carta de Paris: Americanização da política francesa?

Escândalo sexual leva à renúncia do candidato macronista à prefeitura de Paris

18/02/2020 09:52

 

 
Nos EUA, escândalos sexuais acontecem com relativa frequência no meio político. Presidentes e candidatos a cargos eletivos se vêem frequentemente na mira do puritanismo americano, que não respeita a barreira entre vida pública e vida privada, verdadeiro dogma na França.

Bill Clinton é o caso mais conhecido de invasão da vida privada. Muitos outros políticos tiveram suas carreiras interrompidas para sempre, diferentemente do ex-presidente que escapou por pouco das consequêncicas de um envolvimento extraconjugal que foi manchete por várias semanas no mundo inteiro.

O presidente foi salvo do impeachment graças ao voto do Senado.

A França começou a se americanizar ? Esta pergunta foi feita com frequência por analistas políticos ao comentar o tsunami da semana passada em Paris.

Um vídeo de um pênis em ereção em pleno ato de masturbação nunca deveria ter sido enviado pelo candidato macronista à prefeitura de Paris à sua namorada virtual (pelo menos naquele momento), Alexandra de Taddeo. Ex-ministro e porta-voz do governo Macron, Benjamin Griveaux é suficientemente informado para saber que ninguém tem o controle de suas informações pessoais uma vez que estas caem nas mãos de uma pessoa que pode, a qualquer momento, jogá-las na teia perigosa e insondável da internet.

Griveaux provavelmente nunca mais se arriscará a compartilhar momentos tão íntimos.

As redes sociais e a internet estão impondo um novo paradigma à vida política francesa. Jornalistas sempre respeitaram a vida privada de políticos. Desrespeitar esse dogma era impensável até pouco tempo. Chirac e Giscard d’Estaing tinham amantes, os jornalistas conheciam certas histórias mas nada era publidado. Estes segredos de Polichinelo puderam ser comentados muito tempo depois, sempre discretamente.

Questão de deontologia do jornalismo. Respeito à vida privada.

Mas a internet é um mundo incontrolável onde hackers e pessoas mal intencionadas podem jogar informações capazes de destruir carreiras políticas ou ameaçar gravemente empresas.

Um artista russo, personagem complexo exilado em Paris, Piotr Pavlenski, está em detenção provisória, desde que seu texto criticando a hipocrisia de Griveaux, que se apresentava como defensor de valores da família, acompanhou a difusão do vídeo. Sua namorada, a quem o vídeo se destinava numa época em que ela tinha uma relação com Griveaux, também está sendo investigada. Os dois devem responder na Justiça pela divulgação do vídeo.

No dia seguinte à postagem na internet, sexta-feira passada, Benjamin Griveaux retirou sua candidatura pelo partido La République en Marche (LREM), fundado por Emmanuel Macron.

Dignamente e como era de se esperar, toda a classe política francesa – da extrema-esquerda à extrema-direita – condenou firmemente o desrespeito à vida privada que esse ato inqualificável representa. Muitos qualificaram o ato de divulgar o vídeo como delação e linchamento simbólico. Mesmo os outros candidatos à prefeitura da cidade-luz, que eventualmente podem se beneficiar com a ausência de Griveaux, não mediram palavras para condenar um ato indigno que ameaça os fundamentos da democracia ao desrespeitar os limites da vida privada de políticos.

« O direito à vida privada é um direito fundamental. Violá-lo representa uma grave ameaça à democracia », disse Henri Leclerc, eminente jurista e ex-presidente da Liga Francesa de Defesa dos Direitos Humanos.

O jornalista e escritor Serge July – que fundou em 1973, com Jean-Paul Sartre, o jornal Libération – preferiu ir à raiz do problema e condenar o ato de Griveaux.

« Hoje, todos sabemos que com as redes sociais não há mais barreiras para a invasão da vida privada. É uma idiotice enviar vídeos íntimos através da internet. Griveaux é um idiota ».

Leneide Duarte-Plon é co-autora, com Clarisse Meireles, do livro "Um homem torturado, nos passos de frei Tito de Alencar" (Editora Civilização Brasileira, 2014). Em 2016, ela publicou pela mesma editora « A tortura como arma de guerra-Da Argélia ao Brasil : Como os militares franceses exportaram os esquadrões da morte e o terrorismo de Estado »





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