Cartas do Mundo

Carta de Paris: Bresser Pereira e Marcos Azambuja - convergência de análises

O Brasil só vai voltar a crescer e a imagem do país só vai melhorar quando Lula for solto, diz ex-embaixador, que negava a existência da fome no país

17/08/2018 17:37

 

 
Decididamente, o Brasil não é para principiantes. 

Nunca imaginei citar como defensor de Lula nesse contexto pré-eleitoral o ex-embaixador do Brasil em Paris, Marcos Azambuja, com quem tive uma única entrevista em tête-à-tête aqui, ainda no governo de Fernando Henrique Cardoso.

Sendo ele um elitista, nunca pensei que o ex-embaixador faria declarações favoráveis ao ex-presidente Lula, um candidato que vem do povo e fez um governo voltado prioritariamente para o povo.

Marcos Azambuja – hoje um provecto senhor de 83 anos trabalhando em conselhos-diretores de empresas – passou parte de nossa conversa no salão-escritório da embaixada em Paris tentando me convencer de que não havia fome no Brasil.

Seus argumentos extravagantes não me convenceram, obviamente, e aquele digno representantes das elites brasileiras que sempre frequentou os salões dos poderosos passou a representar para mim o típico diplomata de punhos de renda, totalmente insensível à ideia de igualdade e justiça social.

Mas antes de continuar a falar da estupefação que me tomou ao ler uma entrevista recente do embaixador, quero assinalar que o Brasil vive momentos tão graves e o abismo é tão profundo que homens como Azambuja e o ex-ministro Luis Carlos Bresser Pereira se tornaram arautos da democracia, pregando o necessário desvio do atual caminho que está levando o Brasil a uma catástrofe social e econômica.

Em sua passagem por Paris, em novembro passado, Bresser Pereira fez uma palestra em elegante francês, na École des Hautes Études en Sciences Sociales, no Boulevard Raspail.

Ele classificou o que se passa no Brasil como « uma inversão da luta de classes na qual vemos os financistas e capitalistas investindo contra os trabalhadores ». Na ocasião, o ex-ministro via um grande risco de que as eleições de 2018 não se realizassem.

Fundador do PSDB, ex-ministro dos governos José Sarney e Fernando Henrique Cardoso, Bresser Pereira pensa hoje que a legenda tucana “é o verdadeiro sucessor da UDN no Brasil, e portanto é um partido golpista ».

Naquele mês de novembro de 2017 ele via o processo do apartamento de Lula como algo « ridículo » e os quase 40% de intenções de votos em Lula reforçavam o ridículo de uma futura condenação. Que, como vimos pouco tempo depois, acabou acontecendo.

« O impeachment foi um golpe de Estado parlamentar, a democracia foi totalmente desestabilizada e temos um presidente totalmente corrompido », disse sem meias palavras o ex-ministro da Economia para quem Lula é um personagem excepcional.

Ele analisou o governo Dilma com algumas reservas :

« Governar o Brasil é um desafio muito maior para a esquerda que para a direita. Dilma fez muitos erros do ponto de vista político e econômico, ela não tem a habilidade de Lula ».

Alguém resolveu arriscar uma pergunta difícil : « A quem interessa a eleição de Lula ? »

« Aos brasileiros. Lula é um homem capaz de pacificar o povo, depois que essa gangue tomou o Planalto », repondeu Bresser sem hesitação.

Para o ministro, no Brasil, a sociedade perdeu a coesão social.

« Vivemos uma polarização do ódio », disse Bresser Pereira. Segundo ele, a classe média tradicional fez uma forte deriva para a direita, por se sentir esquecida pelas políticas de governo. E citou algumas medidas dos governos petistas que beneficiaram os mais pobres e foram extremamente mal vistas pela classe média.

O engajamento de Bresser Pereira na reconstrução do Brasil levou-o a lançar, em março do ano passado, o Projeto Brasil Nação cujo manifesto foi assinado por intelectuais como Celso Amorim, Raduan Nassar, Kleber Mendonça Filho e Chico Buarque de Holanda, entre muitos outros.   

Embaixador surpreende

No perfil do embaixador Azambuja, conhecido por seu otimismo militante, a jornalista Maria Cristina Fernandes escreve no jornal Valor Econômico o que pude constatar pessoalmente naquela conversa na embaixada :

« A profissão lhe trouxe o trato permanente com interlocutores que sempre lhe pintavam o quadro de um Brasil autoritário, pobre, injusto e desigual. O exercício permanente da contemporização o mantém confortável na posição de quem prefere manter o leme contra a maré ».

O que me surpreendeu no texto sobre uma pessoa que sempre vi como um bem instalado privilegiado, insensível aos brasileiros que têm carências básicas, foram suas opiniões sobre o ex-presidente Lula. 

Vale a pena transcrever o texto da repórter :

"Não conheço quase ninguém, falando novamente de Brasil, que julgue viver pior hoje do que vivia 30 anos atrás." Mas e se o relógio do tempo voltar cinco anos, a percepção não é de perda? A resposta a essa pergunta vem com a afirmação mais surpreendente de toda a conversa: "O Brasil só vai voltar a crescer e a imagem do país só vai melhorar quando Lula for solto".

 A jornalista frisa que ele não participou da formulação da política externa do governo Lula, sobre a qual faz evidentemente reservas. Nunca militou na esquerda e nunca votou em Lula nunca. E acrescenta que ele não pretende fazê-lo.

O texto assinala :

« Ao longo dos últimos meses, ex-presidentes e ex-primeiro-ministros de quatro países europeus, entre os quais José Luiz Zapatero (Espanha), François Hollande (França), Massimo D'Alema (Itália) e Elio Di Rupo (Bélgica), subscreveram um documento pela libertação de Lula. Até o papa Francisco fez um gesto de boa vontade ao enviar uma bênção ao ex-presidente ».

A jornalista escreve que Azambuja não vê como o Brasil possa retomar sua rota sem uma conciliação e não há como fazê-la com o ex-presidente preso.

 « Lula era visto internacionalmente como o rosto do Brasil, cordial, risonho, afável. Seu governo produziu a ideia euforizante de que o país, finalmente, estaria chegando lá. Aquele era o ‘guy’, como dizia Obama. Com sua prisão, o Brasil saiu de moda ».

E acrescenta : 

« Lula é uma das personalidades mais interessantes que surgiram no mundo em desenvolvimento nos últimos tempos. »

Decididamente, Lula está perto de se tornar uma unanimidade nacional.

Só falta agora o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso entrar no time e passar a defender a libertação do prisioneiro de Sérgio Moro. 



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