Cartas do Mundo

Carta de Paris: Claudia Andujar traz luta Yanomami a Paris

Fotos na Fundação Cartier expõem grupo ameaçado pela cobiça do homem branco

03/02/2020 16:35

 

 
Como o chefe Kayapó Raoni, Davi Kopenawa Yanomami sabe que é importante falar a língua do branco para denunciar a lenta e programada extinção de seu povo.

Foi em português, depois de algumas frases em sua língua, que ele resumiu a luta Yanomami a dezenas de jornalistas franceses e brasileiros reunidos em entrevista coletiva na exposição de fotos de Claudia Andujar, em Paris, na semana passada.



As fotos de Claudia Andujar, que têm uma grande força estética, servem sobretudo como manifesto contra a extinção, neste momento dramático de tensão e ameaça existencial para todos os povos indígenas do Brasil



Ao inaugurar a belíssima exposição « La lutte Yanomami », na Fondation Cartier pour l’Art Contemporain, no Boulevard Raspail dois dias depois, a fotógrafa de 88 anos falou de sua emoção de trazer essas fotos para um circuito europeu e de sua experiência com o povo Yanomami, de quem registrou cerimônias religiosas e o cotidiano, em dezenas de anos de convívio.

As terras Yanomami são muito vastas e ricas em minerais e, por isso, despertam a cobiça de garimpeiros ilegais, que chegaram a 25 mil nesses últimos meses, segundo o curador da exposição Thyago Nogueira.



Antes de ser eleito, Jair Bolsonaro citou essas terras do Estado de Roraima, para defender a « exploração » das riquezas minerais.

Não é, portanto, do governo Bolsonaro que os Yanomami podem esperar proteção.

Davi Kopenawa, porta-voz do povo Yanomami nascido por volta de 1955, é também xamã e possui uma real compreensão do risco que corre seu povo. Em Paris, na semana passada, ele aproveitou para denunciar a ganância dos brancos. Além do curador da exposição, Thyago Nogueira, também estavam presentes Dario Kopenawa, filho de Davi e vice-presidente da associação Hutukara, o antropólogo Bruce Albert e o missionário italiano Carlo Zacquini.



« Quando o Cabral chegou ao Brasil os índios já estavam lá, eram os donos daquela terra », lembrou Davi, passando a resumir as mais recentes tentativas de invasão de suas terras e a longa amizade que liga seu povo a Claudia Andujar.

Davi Kopenawa é co-autor, com o antropólogo francês Bruce Albert, do livro « La Chute du ciel, Paroles d’un chaman Yanomami », também editado em português, inglês e italiano. O livro é uma biografia e conta seu combate pela demarcação das terras, ao lado de Claudia Andujar, Bruce Albert e do missionário católico italiano Carlo Zacquini, que vive em território Yanomami desde 1965. Foi Zacquini quem recebeu Claudia Andujar em 1971, na aldeia Yanomami do rio Catrimani. Desde então, passaram a lutar em defesa deste povo, através da ONG Comissão Pro-Yanomami, criada juntamente com Bruce Albert, em 1978.



No entanto, o trabalho do missionário católico não é de proselitismo. Ele privilegia a assistência sanitária e a defesa dos direitos dos índios, no respeito de sua cultura.

O resultado da luta pela demarcação das terras foi o reconhecimento legal de um território de 96.650 km2 de floresta tropical reservado para uso exclusivo deste povo e garantido por um decreto do presidente Fernando Collor de Mello.

Foi em 25 de maio de 1992 que se encerrou esse importante capítulo. A « Terra Indígena Yanomami » foi homologada, após décadas de contato que levaram à morte grande parte da população devido a epidemias, à abertura da BR-210 e invasões garimpeiras.



Riqueza do subsolo

Entre 1975 e 1976, os primeiros garimpeiros, cerca de 500, começaram a invadir as terras habitadas pelos Yanomami. As rotas dos garimpeiros passaram a dar o rumo das epidemias.

Segundo Alcida Ramos, em "O papel político das epidemias: o caso Yanomami", estima-se que de meados de 1987 a janeiro de 1990, o auge da corrida do ouro, cerca de mil Yanomami, ou seja, 14% de sua população em Roraima, tenham morrido principalmente por causa de doenças como a malária levada por cerca de 40 mil garimpeiros ilegais. O nome Kopenawa foi dado a Davi nessa época num sonho xamânico. Esse nome é associado ao espírito guerreiro do vespão.



Será preciso lembrar que os donos da terra foram pouco a pouco dizimados desde 1500 e hoje representam uma população ameaçada pelo avanço do homem branco que cobiça a riqueza da floresta mas sobretudo do subsolo ?

Um servidor de carreira da Funai, que pediu para não ser identificado, falando à imprensa no Brasil resumiu há poucos dias a preocupação dos indigenistas com a nomeação do pastor Ricardo Lopes Dias para trabalhar com grupos isolados de índios com o objetivo de convertê-los ao cristianismo, num total desrespeito às culturas autóctones.



“Travamos uma guerra contra esses caras tem uns 30 anos. Querem, de todas as formas, levar a bíblia para os indígenas. Se eles entrarem, acabou tudo”, lamenta.

Resta esperar que a exposição das fotos de Claudia Andujar – que depois de Paris vai percorrer a Itália, Suiça e Espanha – seja um libelo contra a extinção dos povos indígenas do Brasil.





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