Cartas do Mundo

Carta de Paris: Democracia ameaçada

O atual hóspede da Casa Branca se arrisca a um jogo perigoso

10/11/2020 10:03

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« Um suspiro de alívio coletivo percorreu as chancelarias da Europa, Ásia, América Latina, Canadá, África e das ilhas mais recuadas da Oceânia ».

Com essa frase, o jornalista franco-israelense Dov Alfon, novo diretor do jornal « Libération », começou seu editorial de 9 de novembro intitulado « Decência ». « Biden não pode ignorar que 46,4% dos americanos votaram por ‘America first’, um slogan protecionista que não vai desaparecer por um passe de mágica ».

Resumindo as dificuldades que esperam o 46° presidente americano, Dov Alfon termina dizendo que o que veremos a partir de agora é algo ausente de Washington nos últimos quatro anos : um mínimo de decência. « É pouco em relação ao que está em jogo quanto à geopolítica, às desigualdades mundiais e ao estado do planeta : mas é um início. »

O jornal « Le Monde », em seu editorial de 5 de novembro alertava para o risco que representava o fato de o atual presidente ter reivindicado sua vitória em pleno processo de contagem de votos. « Esse tipo de manobra é comum nos regimes autoritários. Não é digno dos Estados Unidos da América », concluía o editorial.

Segundo Caroline Fredrickson, professora de direito da universidade Georgetown e presidente emérita da American Constitution Society, a atual administração pode querer se manter à distância da equipe do vencedor – que deve preparar a transição, como de hábito – para destruir documentos e provas comprometedoras que poderiam ser usadas em futuras ações judiciais contra Trump, depois que ele perder a imunidade presidencial.

« A corrupção desta administração não tem limites », assegura Fredrickson.

Mas ninguém pode acusar Donald Trump de não ter preparado o roteiro que segue à risca desde o dia 3 de novembro.

Com a pandemia, o número de votos enviados pelos correios aumentou (Getty Images)

Ele vinha anunciando há várias semanas a seu eleitorado que sua eventual derrota só poderia tratar-se de uma fraude. Nos comícios, repetiu à exaustão suas « suspeitas ».

Chegou ao ponto de não responder positivamente a jornalistas se reconheceria uma eventual derrota e passaria democraticamente o poder a seu sucessor.

O personagem é tão previsível em sua megalomania que Bernie Sanders traçou, em outubro, o passo a passo das ações do bilionário numa hipotética derrota. Desde o dia 3 de novembro à noite, Trump faz exatamente o que previu Sanders, a começar pela declaração de fraude maciça e a busca de um segundo turno na Justiça.

Nada disso surpreende.

Donald Trump nunca mostrou grande apreço pela democracia, nunca falou de direitos humanos, nunca defendeu a igualdadem entre todos os cidadãos.

Ao contrário. Durante a campanha de 2016 ele ousou defender a tortura para lutar « contra o terorismo islamista ». E aumentou consideravelmente o orçamento militar, defendendo o uso de mini-bombas atômicas de menor poder destrutivo, como a que mandou jogar numa zona árida do Afeganistão, em 2017, matando centenas de combatentes do Estado Islâmico.

Distúrbios variados

Quatro anos atrás, preparando seu leitor para uma eventual vitória de Donald Trump contra Hillary Clinton, Pierre Carrey explicava, no jornal « Libération, em novembro de 2016, que ele não seria o primeiro perturbado mental a ocupar o posto.

Citando um estudo do Duke University Medical Center, da Carolina do Norte, publicado em 2006 pelo Journal of Nervous and Mental Disease, o texto informa que três pesquisadores passaram no pente fino a biografia de todos os presidentes americanos entre a Declaração da Independência, em 1776, e o fim do mandato de Richard Nixon, em 1974.

O resultado é edificante: 46% dos chefes de Estado “preenchem critérios que sugerem problemas psicológicos ». Como a definição é larga, o estudo precisa que ela incluía ansiedade (8%), depressão (24%) e a dependência ao álcool (8%). Comportamentos bipolares foram encontrados em 8% dos presidentes: John Adams, Theodore Roosevelt e Lyndon Johnson.

Estes distúrbios de comportamento dos presidentes americanos nunca foram conhecidos dos americanos. Lyndon Johnson (1963-1069), por exemplo, tinha uma fascinação por seu pênis, a quem chamava de Jumbo. Ele não se furtava em mostrar seu órgão a jornalistas, quando urinava ao ar livre diante deles. Esse é apenas um dos exemplos dados para suas excentricidades, que incluíam uma ducha que mandou instalar na Casa Branca com um jato entre as coxas.

Manifestação pró-Trump pede interrupção de contagem de votos em Harrisburg, na Pensilvânia (Spencer Platt/Getty Images via AFP)

John Kennedy (1961-1963) era movido a medicamentos por causa de uma dor crônica de coluna, além de problemas de próstata e distúrbios do sono. Segundo o estudo da Duke University, o coquetel de medicamentos, detalhados pelos estudiosos, podem explicar sua « hiperssexualidade » (precisava de três relações sexuais por dia). Quanto a Woodrow Wilson (1913-1921), sua personalidade era tão excêntrica que levou Sigmund Freud a escrever um livro sobre ele, co-escrito com o embaixador americano William Bullitt.

Roth, Baez

Um dos intelectuais americanos mais desesperados com a eleição de Trump em 2016 era o grande escritor Philip Roth, morto em 2018. Em 2017, ele dizia em entrevista ao jornal « Libération » :

« Vivemos um verdadeiro pesadelo. Trump sofre de cinismo agudo, é um mentiroso compulsivo, um ignorante, um fanfarrão, um ser abjeto animado por um espírito de revanche. Não há nenhum limite para os perigos aos quais este homem pode levar o país e o mundo.”

Roth invocava todas as lacunas intelectuais do presidente que “ignora o que é o governo, a história, a ciência, a filosofia, a arte e é incapaz de se expressar. Não sabe o que é uma sutileza ou uma nuance. Tem um vocabulário de 77 palavras ».

Para o escritor, sua eleição pode ser explicada num país « que tem 15 mil pessoas que leem livros, pessoas que passam o tempo livre a ler. E serão apenas a metade daqui a dez anos. Daqui a vinte, apenas dois mil e para terminar, serão apenas uma centena de leitores, escondidos em catacumbas. »

A cantora Joan Baez vê em Trump a consequência do movimento de ultra-direita do Partido Republicado, o Tea Party. Quando passou por Paris em sua turnê de despedida, em junho de 2018, ela deu uma longa entrevista ao « Le Monde » nac qual qualifica Trump como um « cretino, mentiroso, um doente perigoso ».

“Com Trump entraram na Casa Branca a grosseria, o ódio às mulheres, aos negros, aos mexicanos. Do outro lado, vemos a covardia, a resignação. Sabemos que o que ele conta é mentira, é loucura, mas nada fazemos. Ele criou uma nova norma: a cultura da mentira. Os progressistas são até hoje incapazes de responder a isso.»

Leneide Duarte-Plon é co-autora, com Clarisse Meireles, de « Um homem torturado, nos passos de frei Tito de Alencar » (Editora Civilização Brasileira, 2014). Em 2016, pela mesma editora, a autora lançou « A tortura como arma de guerra-Da Argélia ao Brasil : Como os militares franceses exportaram os esquadrões da morte e o terrorismo de Estado ». Ambos foram finalistas do Prêmio Jabuti. O segundo foi também finalista do Prêmio Biblioteca Nacional.





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