Cartas do Mundo

Carta de Paris: Em Paris, Celso Amorim  faz o balanço do golpe 

Cresce o movimento internacional pela libertação de Lula

21/06/2018 10:43

 

Leneide Duarte-Plon

Graças à solidariedade que se propaga pelo mundo, a tournée parisiense do presidente do « Comitê Internacional de Solidariedade a Lula e à Democracia Brasileira », Celso Amorim, foi um sucesso. Numa maratona de palestras, o ex-chanceler do governo Lula e ex-ministro da Defesa do governo Dilma Rousseff relembrou, para públicos diferentes, a política externa « ativa e altiva » do Brasil sob o governo Lula. Em todos os encontros, o ex-chanceler foi precedido por uma fala da jurista Carol Proner, que explicou o processo de judiciarização da política no Brasil.

Em encontros públicos ou reservados, o ex-ministro fez em Paris, na semana passada, detalhadas análises para grupos de intelectuais, políticos, ex-ministros e militantes franceses e brasileiros reunidos em diferentes lugares. Num deles, Celso Amorim exclamou : « Lula na prisão é uma situação kafkiana, uma coisa jamais vista ». Ele pensa que não se pode fazer um paralelo com a situação de Mandela, pois Lula foi duas vezes presidente e continua gozando de grande apreço internacional.

Para entender o que foi o golpe jurídico-midiático de 2016, que lançou o país numa espécie de limbo mundial, é preciso conhecer os meandros da política internacional e a importância do Brasil para o projeto geopolítico da potência hegemônica, que sempre viu o país e a América Latina como seu quintal. « Os Estados Unidos não querem Lula na presidência mas também não querem os militares ».                                            
E nessa tarefa de revelar as motivações do golpe – que começou com o impeachment de Dilma Rousseff e prosseguiu com a prisão de Lula – Amorim mostrou-se um professor brilhante.

« A multipolaridade, princípio condutor da política externa do governo Lula, não interessa à potência hegemônica. Havia uma grande resistência à política brasileira para a África e para o Oriente Médio. Quanto à classe dominante do Brasil, ela não se interessa pela soberania nem por um papel dominante do Brasil », avalia.

Para ele, « a elite brasileira se vê branca de olhos azuis, mesmo que a metade da população seja de origem africana. Por esse motivo, a aproximação com países africanos era vista pela imprensa e pela elite dominante como uma perda de tempo ».

Na conferência de Amorim do « Institut de Relations Internationales et Stratégiques » (IRIS), um ex-embaixador francês chegou a perguntar no final do encontro : « O que podemos fazer na prática para ajudar a democracia no Brasil » ?

Degradação do processo político brasileiro

Responsável pela fase de maior brilho da política externa brasileira, graças a uma conjuntura econômica favorável, além do inegável carisma de Lula, Amorim fez um balanço muito positivo de seus encontros :

"Durante essa curta viagem a Paris, pude constatar a perplexidade e a indignação com que grande parte da intelectualidade e de personalidades públicas de várias tendências assiste à degradação do processo político brasileiro. Em conversas com ex-ministros e outras pessoas que já estiveram em posição de destaque e gozam de alto respeito, dentro e fora da França (contrariamente ao que pensa o chanceler do governo ilegítimo) notei a preocupação com a deterioração da democracia brasileira e seu efeito deletério na América Latina e para além dela », avaliou Celso Amorim.

Uma das figuras políticas francesas mais marcantes das últimas décadas, sobretudo por sua ação internacional, afirmou ao ex-chanceler: "O mundo passa por um momento de grande incertezas. O Brasil é um país que pode contribuir para um mundo mais pacífico e uma ordem internacional mais equilibrada, não sujeita a controles hegemônicos, mas para isso é necessário que a democracia volte a vigorar plenamente".

Segundo Celso Amorim, essa mesma personalidade política demonstrou compreender que « isso só será possivel com a liberdade do ex-presidente Lula e a garantia de que possa candidatar-se em eleições livres e sem restrições."

Na Assemblée Legislative, a Câmara de Deputados francesa, o encontro foi organizado por Djorde Kuzmanovic e Claudio Calfuquir do polo internacional da France Insoumise, movimento político criado pelo deputado Jean-Luc Mélenchon. Os deputados Bastien Lachaud e Eric Coquerel, da FI, entre outros, ouviram de Amorim um resumo das principais ações e políticas realizadas no âmbito internacional durante os dois governos petistas.

Nesse encontro, ficou decidido que uma delegação de deputados da France Insoumise vai fazer um pedido para encontrar Lula na prisão dia 17 de setembro, se não for libertado antes, data limite para inscrição de candidaturas na eleição presidencial brasileira.

Além disso, o partido vai continuar a denunciar o golpe de Estado institucional desencadeado por Temer, que eles denominaram de « usurpador corrupto ».

A Association France-Cuba se juntou ao « Comité francês de Solidariedade a Lula e à democracia brasileira » para organizar ações na França de informação sobre os acontecimentos no Brasil pós-golpe e sobre o verdadeiro assalto às riquezas do país, organizado pelos políticos que tomaram o poder em 2016, representantes de interesses totalmente antagônicos aos do povo brasileiro.  

Além disso, a France Insoumise se propõe a observar atentamente e denunciar todas as ingerências dos Estados Unidos na vida política brasileira. A prisão de Lula foi entendida como um artifício legal para mantê-lo longe do poder uma vez que, segundo as pesquisas de opinião, ele ganharia, provavelmente no primeiro turno, se pudesse ser candidato.

Mélenchon e Lula

Jean-Luc Mélenchon, o mais importante líder da esquerda francesa, é um dos mais entusiasmados defensores do presidente Lula na França. Preocupado com a campanha de difamação do ex-presidente Lula, ele escreveu em fevereiro um belo texto intitulado « Lula et nous », publicado em português pela Carta Maior.

No artigo, Mélenchon explicou o que está em jogo no maior país da América Latina :

« O Brasil não é apenas a grande potência do Cone Sul. Não tem somente a maior população da região. É um membro-chave dos BRICS, aliança político-econômica informal entre Rússia, China, Índia, e África do Sul. 40% do PIB mundial. Grupo que decidiu negociar entre si em moedas nacionais, sem passar pelo dólar. Uma ameaça mortal para a superpotência ».

« Na véspera de novas eleições presidenciais, a luta pelo poder nesse país ganha uma dimensão geopolítica essencial. Todas as pesquisas mostram a liderança de Lula, o fundador do Partido dos Trabalhadores, que governou antes de Dilma e abriu o ciclo de vitórias populares desse continente. Derrubá-lo é, portanto, um objetivo vital para a oligarquia e os EUA. Sobrevivente, felizmente, de um câncer, Lula passou a ser então atacado no front judicial, como Dilma. E Lula foi condenado em segunda instância na quarta, 24 de janeiro, pelo tribunal regional de Porto Alegre a 12 anos de prisão. A sentença aumentou a pena de nove anos pronunciada em primeira instância.

O ex-presidente do Brasil e novamente candidato é acusado de corrupção. Porém, tendo em conta a fraqueza e mesmo inexistência de provas apresentadas pela acusação durante o processo, está claro para todos os observadores que se trata de uma manobra para impedi-lo de se tornar presidente novamente. O próprio processo está marcado por diversas irregularidades. Juristas de vários países apontaram suas falhas. As ‘confissões’ de testemunhas ou partes envolvidas foram obtidas em troca de benefícios. A conivência entre os juízes de primeira e segunda instância era aberta. Alguns fatos que a sentença busca demonstrar são até incompatíveis com o próprio objeto da acusação a Lula. Esse ‘processo’ ilustra muito bem este novo método de ‘golpe de Estado institucional’. »

Infelizmente, muita gente no Brasil e no mundo ainda não entendeu que as eleições brasileiras não são um assunto interno. Mélenchon afirma claramente em seu artigo que « a luta pelo poder nesse país ganha uma dimensão geopolítica essencial ».

Como lembrou Celso Amorim, o governo Trump disse explicitamente que não excluía a opção militar para os problemas da Venezuela. O que prova que, mais que nunca, a América do Sul continua sendo vista como o quintal da potência hegemônica.  



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