Cartas do Mundo

Carta de Paris: Em Paris, Marcia Tiburi se expressa sem censura

Escritora aponta processo de destruição da Constituição pelos que governam contra os interesses do povo

07/04/2019 12:58

 

 
Em 2015, quando foi lançado o livro «Como conversar com um fascista», muitas pessoas acharam que havia exagero na expressão.

A autora, Marcia Tiburi, estava certa. Ela anteviu a ascensão do fascismo tropical antes da maioria dos analistas e intelectuais poderem admitir a grande transformação da cultura política brasileira e a expressão no cotidiano do ódio instilado nos últimos anos.

De passagem por Paris, Marcia Tiburi participou de dois encontros públicos. Falando pausadamente, ela resumiu o Brasil:

«O governo atual do Brasil é de canalhas, mafiosos que organizaram um processo de destruição da Constituição e querem governar como príncipes sem dar satisfação ao povo. O Brasil revelou-se racista, misógino, homofóbico e escravocrata. E, atualmente, é um país fascista».

Marcia Tiburi é hoje uma exilada política.

Mas não escolheu essa condição. Foi empurrada para fora das fronteiras brasileiras pelos neofascistas que ameaçaram-na de morte inúmeras vezes no ano passado e passaram a invadir debates e lançamentos de livros para intimidá-la.

Fui ouvi-la duas vezes em Paris. A primeira, na Mairie du 10earrondissement, num encontro público em defesa de uma rua com o nome de Marielle Franco. Marcia falou após intervenções das historiadoras Maud Chirio e Silvia Capanema. Além delas, tomou a palavra a deputada estadual pelo Rio de Janeiro, Mônica Francisco, aplaudida de pé. Para mim foi uma grata surpresa conhecer Mônica Francisco, política engajada na defesa dos direitos humanos.

Hoje em dia é preciso muita determinação para continuar essa luta.

A coragem e a determinação de Marielle Franco serão reconhecidas. O Conselho de Paris aprovou por unanimidade uma homenagem que consistirá em dar seu nome a uma rua ou praça da capital francesa.

Na homenagem a Marielle, a escritora resumiu sua amizade e grande proximidade com a vereadora do Rio, «uma mulher altiva, que não baixava a cabeça diante dos que queriam intimidá-la».

«Era uma mulher linda, corajosa, completa. Isso era insuportável para os fascistas. O assassinato de Marielle é a prova da violência fascista no seu ápice. Quem mandou matá-la ? Ela foi morta pela barbárie que denunciava. A barbárie personificada pelos homens brancos que sobrevivem de palavras e gestos de misoginia, dos homens brancos capitalistas que se sustentam sobre a exploração dos corpos alheios. Esses homens que, tendo aprendido a tática da humilhação de seres humanos, não suportam a beleza, a grandeza e a inteligência de uma pessoa como Marielle».

Para Marcia Tiburi, o assassinato da vereadora é a tentativa de exterminar um sonho político. Esse assassinato foi «contra um projeto de país que envolve todos os humilhados, explorados, todos esses corpos aos quais o espaço político e os direitos são negados», resume.

Feminista militante, como Marielle, Marcia Tiburi afirma que a demonização de Dilma Rousseff se deu por sua condição de mulher, honesta e ex-guerrilheira.

«Não há espontaneidade no fascismo tropical. Ele foi implantado pela manipulação do discurso de ódio», diz.

Proteção a escritores ameaçados em seus países

Na mira dos fascistas, Marcia Tiburi passou a ter medo de sair de casa e vivia como uma prisioneira. Resolveu continuar na defesa da democracia fora do Brasil e, para isso, aceitou o convite de uma organização americana que protege escritores ameaçados em seus países.

Alguns dias depois do encontro por Marielle, a escritora deu uma entrevista coletiva, na Fundação Jean Jaurès, onde afirmou que a Lava a Jato é um dos braços do processo de destruição da Constituição do Brasil.

Nesse encontro, ela estava acompanhada do marido, o jurista Rubens Casara, que faz em Paris um pós-doutorado. Casara explicou em sua fala o processo de degradação do sistema judiciário brasileiro. Ele assegura que o Brasil é «um laboratório político de uma autoritarismo extremo e ultra-neoliberal».

Com uma análise geopolítica, Tiburi situou o golpe de 2016 no contexto continental e mundial, no qual a potência hegemônica tem em Trump um governante atípico, como o Brasil tem Jair Messias Bolsonaro, que ela chama de «Hitler dos trópicos».

«O Brasil é um país colonizado destinado a continuar sendo colônia. Não à toa, a destruição da democracia brasileira começou após a descoberta do pré-sal e agora, com manobras militares entre os Estados Unidos e Brasil, sabe-se que o objetivo é se apossar das reservas de petróleo da Venezuela, as maiores do mundo», disse Tiburi.

Filiada inicialmente ao PSOL, a escritora resolveu deixar o partido quando alguns de seus membros apoiaram a Operação Lava a Jato. Filiou-se ao PT, pelo qual foi candidata ao governo do Estado do Rio.

Tiburi foi alvo de fake news tanto da direita como da esquerda «porque no Brasil existe uma esquerda branca e machista que precisa ser superada».

A prisão do presidente Lula, que completou um ano dia 7 de abril faz parte, segundo a escritora, de um projeto de destruição do Brasil que aniquilou o método tradicional da democracia que implica em que as pessoas possam se candidatar e que o povo faça uma escolha.

«O povo não escolheu livremente porque se o povo fosse livre teria escolhido Lula para presidente», finaliza.



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