Cartas do Mundo

Carta de Paris: Europa dividida e frágil: o sonho americano

Steve Bannon tenta influir nas eleições ao Parlamento Europeu

22/05/2019 11:56

(Antonello Nusca)

Créditos da foto: (Antonello Nusca)

 

O americano Steve Bannon, ideólogo da extrema-direita mundial, está em Paris às vésperas da eleição de 26 de maio para o Parlamento Europeu. Mas sua amiga Marine Le Pen jura que soube pela imprensa.

Que eles são amigos nenhum dos dois nega. Ao contrário. Mas, para ela, é melhor se manter distante do homem que elegeu Trump, forjou o Brexit e influenciou na eleição de Jair Bolsonaro no Brasil.

Os eleitores de Marine Le Pen achariam inaceitável a ingerência americana na eleição de deputados franceses ao Parlamento Europeu. Daí sua mentira, que só engana quem é muito ingênuo.

Na véspera da entrevista da ex-candidata à presidência na qual negava ter conhecimento da presença de Bannon em Paris, dois emissários do ex-Front National, atual Rassemblement National, foram recebidos por Bannon num dos hotéis 5 estrelas de Paris, onde ele se hospeda.

O homem é poderoso e perigoso. E seu objetivo, ambicioso: aniquilar a esquerda mundial. No Brasil, recentemente ajudou a eleger um demente e estamos assistindo aos estragos que ele vem causando à democracia, ao povo brasileiro e ao já fragilizado equilíbrio ecológico.

Os Estados Unidos acreditam piamente que têm um «destino manifesto de levar a democracia ao mundo» fazendo e desfazendo governos nos mais diversos países. Agora, estamos vivendo as manobras da potência hegemônica para mudar o regime na Venezuela e no Irã.

Com Bush, Saddam Hussein foi a principal vítima dessa política imperialista.

«Bolton e Pompeo querem uma mudança de regime em Teherã. Quem sabe não estão tentando empurrar o Irã a um ato que justifique uma intervenção armada?», perguntava o analista político Alain Frachon no Le Monde de 17 de maio, num artido intitulado «Trump dans le Golfe : danger».

Na mesma edição do jornal de referência francês, o editorial afirmava que a Casa Branca subestimou a resistência do presidente Maduro, mas Trump continua determinado a fazê-lo deixar o poder de uma maneira ou de outra. «E vai fazer tudo para atingir seus objetivos», diz o editorial apontando o impasse em que se encontram os EUA.

A intervenção na Europa é mais sutil

Nas atuais eleições europeias, Bannon tem um propósito claro : unir todos os nacionalistas europeus, isto é, a extrema-direita, para destruir a Europa por dentro.

«Este é o propósito de Trump. A ele não interessa uma Europa forte, unida e independente», disse em entrevista à televisão o ministro da Economia francês, Bruno Le Maire.

Outros analistas repetem a mesma análise, relembrando que o Brexit, defendido pelos eurocéticos britânicos, é parte do sonho americano de ver a Europa esfacelada e frágil.

 O projeto de uma defesa europeia independente, de Macron e de De Gaulle, é tudo o que Trump quer impedir.

Por isso, Bannon apoia os eurocéticos da extrema-direita européia. Para Trump, que segue de perto sua ação, um bloco europeu forte e independente do guarda-chuva da Otan seria um pesadelo. A uma Europa dividida e fragilizada é mais fácil impor regras. Fraca, ela recorrerá sempre aos americanos em caso de conflito com a Rússia ou com a China.

Vários analistas europeus apontam outro alvo de Bannon menos evidente: o papa Francisco. O americano quer minar o poder e a autoridade moral do papa, visto pela direita extrema europeia e pelos fundamentalistas cristãos americanos como um perigoso esquerdista.

Prestes a instalar seu instituto de formação de quadros ultra-liberais num antigo convento italiano do século XII, a abadia de Trisulti, Steve Bannon sonha em se contrapor em todos os continentes à esquerda mundial e mesmo a Francisco, que representa um Vaticano que poucas vezes foi tão fiel à mensagem de Jesus Cristo.

«Dia 26 de maio a Europa vai saber se esta direita populista, soberanista, nacionalista e xenófoba – que vai de Salvini a Le Pen, de Orban a Farage – terá conseguido o sucesso que alguns esperam e que outros temem. Se for o caso de sucesso, será em parte devido a Steve Bannon ?», perguntava em artigo recente a revista francesaL’Obs, que apresenta o americano como um ideólogo da supremacia branca.

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