Cartas do Mundo

Carta de Paris: França: a polêmica em torno das caricaturas de Maomé é sintoma de um mal-estar profundo

Não se deve fazer do Islã o pivô da política francesa, pensam intelectuais de esquerda

22/11/2020 09:27

Créditos da foto: "Capa do semanário francês Charlie Hebdo em 2 de setembro de 2020" (Reprodução)

 
A França ainda não terminou de passar a limpo sua história colonial.

Bem antes dos atentados que tiraram a vida de um professor de história e geografia, Samuel Paty, dia 16 de outubro, e de três pessoas dentro de uma igreja em Nice, dia 29 de outubro, o país vinha debatendo uma nova lei para evitar o « separatismo ».

A lei contra os « separatismos » mudou de nome transformando-se em lei para « reforçar a laicidade e os valores republicanos ». E vai acrescentar um novo delito : o de pôr em risco a vida de pessoas pela difusão nas redes sociais de informações relativas à vida privada, familiar ou profissional de alguém. Foi o caso do professor Samuel Paty.

O professor Paty dera uma aula sobre a liberdade de expressão utilizando para isso desenhos publicados por « Charlie Hebdo », as famosas caricaturas de Maomé. Muitas delas são chocantes e ferem os muçulmanos. O pai de uma aluna divulgou nas redes sociais o nome do professor mostrando sua indignação. A escola e autoridades educacionais se envolveram no debate, apoiando a iniciativa do professor e defendendo a liberdade de expressão.

O fanatismo de algumas pessoas armou o jovem assassino.

Islamofobia X islamo-gauchisme

Para o teólogo francês Adrien Candiard – especialista do Islã (islamologue) e autor do livro recém-lançado « Du fanatisme-Quand la religion est malade » - com a criminalização do racismo nos anos 1980, os franceses contrários à imigração fizeram um deslizamento semântico de « árabes » a « muçulmanos ».

« Ressuscitaram antigas divergências em torno da laicidade para fazer entrar debates novos em velhas categorias », disse ele em entrevista ao jornal « Libération ».

O debate recorrente sobre a laicidade voltou com toda força este ano com a lei contra o « separatismo e o Islã radical » que, segundo uma certa visão, ameaça a République.

Ora, não foram poucos os que viram nesta lei mais uma manifestação de islamofobia. Estes foram imediatamente acusados de « islamo-gauchisme », que segundo o ministro da Educação, Jean-Michel Blanquer, « contaminou grande parte dos professores universitários, além da esquerda radical ».



O debate se inflamou, com acusações de ambos os lados.

Há os que apontam a intolerância francesa com a religião muçulmana e os que defendem a necessidade de controlar cada vez mais o discurso de ódio que radicaliza jovens franceses oriundos da imigração magrebina. O jovem que matou o professor era, no entanto, de origem tchetchena.

Entre os primeiros, Jean-François Bayart, professor de sociologia política no Instituto de Estudos Avançado Internacionais e do Desenvolvimento (IHEID), de Genebra, assinou um artigo no « Le Monde » para dizer que a acusação de « islamo-gauchisme » repousa num desconhecimento da história e revela « a consolidação de um maccarthysmo republicano no Estado e na mídia ».

« Que o termo agrade ou não, existe uma islamofobia de Estado na França », dizia no artigo. Bayart pensa que o Estado não é neutro diante das religiões, que existe uma discriminação ilegal mas sistêmica em relação a uma parte da juventude de origem muçulmana.

« O Estado não cessou de valorizar nas últimas décadas o cristianismo e o judaísmo, desenvolvendo uma laicidade chamada de ‘positiva’ em relação aos descendentes de muçulmanos, quererendo subordinar politicamente o Islã para controlá-lo, sob pretexto de civilizá-lo ».

Um grupo de intelectuais de direita publicou uma tribuna também no « Le Monde » pedindo ao Ministro do Ensino Superior que « envolva as universidades no combate pela laicidade e pela República ». Este texto acusava as universidades de espalhar a ideologia anticolonialista, servindo ao comunitarismo e ao «islamo-gauchisme », um esquerdismo conivente com a ideologia do islamismo radical, segundo os signatários.

Intelectuais de esquerda, entre os quais Thomas Piketty, assinaram um texto no mesmo jornal no qual advertiam que o país não deve cair na armadilha montada pelos terroristas. A França deve evitar a repressão e a estigmatização cara à extrema-direita. O texto dizia :

« É urgente nos mobilizarmos juntos em torno dos princípios laicos e republicanos. Se não conseguirmos, o islamismo radical terá vencido, com a extrema direita, uma vitória decisiva fazendo da questão religiosa e mais precisamente do Islã, o pivô da política francesa, em detrimento das urgências sociais, ecológicas e democráticas. Pior ainda, ele terá instalado os germes duráveis da guerra civil ».

Amálgama entre muçulmano e terrorista

Mais da metade dos franceses declaram não ter nenhuma religião.

 A lei de 1905, que separou a Igreja do Estado e instaurou a laicidade reconhecida e reivindicada por políticos de todas as origens, promete garantir a todos os cidadãos a liberdade de crer e exercer qualquer religião. No entanto, nenhum símbolo religioso pode estar presente nas repartições públicas, como era o caso no Antigo Regime, antes da Revolução de 1789, quando o país era uma monarquia católica.

Há pouco mais de 50 anos a République tenta inventar um modus vivendi com os imigrantes de suas ex-colônias ou protetorados do Norte da África – Argélia, Marrocos e Tunísia – que ao se instalarem na ex-metrópole trouxeram seus costumes, sua história e sua religião. Os trabalhadores magrebinos foram convidados a trabalhar na antiga metrópole para atender à necessidade de mão de obra da indústria, principalmente a automobilística.

 O fim da Guerra da Argélia (1962) marca uma exacerbação do choque de mentalidades que atravessa a história recente francesa. Pessoas que têm uma visão do mundo na qual a religião ocupa um papel central passaram a conviver com uma França que é hoje um dos países mais laicos da Europa.

A extrema-direita francesa e parte da direita veem no Islã político, islamisme em francês, o perigoso inimigo interno, como pensa Marine Le Pen, ou a “quinta coluna”, como arriscam alguns, como o prefeito de Nice, Christian Estrosi.

O amálgama entre muçulmano e terrorista é uma tentação que leva políticos de direita a legislar para conter um perigo fantasmagórico. A grande maioria dos muçulmanos franceses condena os atentados terroristas e não quer ver sua religião estigmatizada pelos islamofóbicos, que defendem leis cada vez mais restritivas, como as que tratam da proibição do véu islâmico nas escolas e nas repartições públicas.

A França de direita reivindica sua laicidade com insistência, mostrando-se intransigente com qualquer deriva comunitária que desminta o pressuposto da igualdade entre todos os cidadãos diante da lei. Como se o ideal laico da esquerda não fosse também a invisibilidade das religiões no espaço público.

O assassinato do professor Samuel Paty e o atentado de Nice vieram exacerbar o clima de tensão.

Arma afiada e dissimulada contra o Islã

Hoje, a França é um país profundamente dividido.

De um lado, os políticos e intelectuais apontam uma certa histeria na afirmação insistente da laicidade republicana, uma espécie de arma afiada mas dissimulada contra o Islã. A direita e extrema-direita os trata de « islamo-gauchistes ».

Do outro lado, os que defendem intransigentemente a liberdade de expressão, de caricaturar todos os símbolos mais sagrados de todas as religiões pois na França não existe o delito de blasfêmia.

A lei francesa prevê o direito de criticar e mesmo insultar uma religião mas não se pode insultar um adepto de uma religião, como ensina o grande jurista Henri Leclerc, presidente honorário da Liga de Direitos Humanos, em longa entrevista ao jornal « Libération ».

Com essa nova lei, Emmanuel Macron invade o terreno de predileção de Marine Le Pen antecipando a batalha da eleição presidencial de 2022.

Cabe à esquerda exigir um debate realmente político « em torno das urgências sociais, ecológicas e democráticas » como sugere o texto assinado, entre outros, por Thomas Piketty.

Leneide Duarte-Plon é co-autora, com Clarisse Meireles, de « Um homem torturado, nos passos de frei Tito de Alencar » (Editora Civilização Brasileira, 2014). Em 2016, pela mesma editora, a autora lançou « A tortura como arma de guerra-Da Argélia ao Brasil : Como os militares franceses exportaram os esquadrões da morte e o terrorismo de Estado ». Ambos foram finalistas do Prêmio Jabuti. O segundo foi também finalista do Prêmio Biblioteca Nacional





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