Cartas do Mundo

Carta de Paris: Franceses resistem ao rolo compressor neoliberal

Com um glorioso passado de mobilizações populares, a França parou desde 5 de dezembro contra a reforma das aposentadorias

12/01/2020 11:51

Trabalhadores franceses em greve em Paris, em 17/12/2019 (Jean-Michel Belot/Reuters)

Créditos da foto: Trabalhadores franceses em greve em Paris, em 17/12/2019 (Jean-Michel Belot/Reuters)

 
Uma coisa é certa.

É infinitamente mais fácil governar um povo despolitizado, dócil e anestesiado como o brasileiro, que não reagiu um dia sequer à investida do governo contra a Previdência Social. O governo anti-povo do capitão Jair Messias aprovou facilmente a lei que retirou direitos e transformou o pacto social da aposentadoria em um salve-se quem puder, abrindo caminho para o modelo de capitalização, tão caro ao ministro da Economia. Esse modelo levou os aposentados chilenos às maiores taxas de suicídio e pobreza já vistas no país.

Em Paris, uma greve duradoura iniciada dia 5 de dezembro contra a reforma do sistema de aposentadorias (Réforme des retraites) do governo Macron transformou-se numa queda de braço entre os sindicatos de trabalhadores de diversas categorias, mobilizados diariamente contra o modelo de aposentadora por pontos, louvado em prosa e verso pelo governo, que tenta passar uma pílula amarga usando uma conhecida tática : dividir o movimento sindical e apresentar as categorias que mais resistem como privilegiados que lutam para manter seus privilégios.

Os mais aguerridos na resistência vêm sendo os trabalhadores da SNCF (Société Nationale des Chemins de Fer), empresa pública responsável pela maior rede ferroviária da Europa, aliados aos trabalhadores da RATP (Régie Autonomie des Transports Parisiens), empresa pública do metrô e dos ônibus de Paris. A greve nas duas empresas paralisa desde o dia 5 de dezembro grande parte do transporte na capital e perturba o transporte ferroviário que liga cidades francesas entre elas e a outras cidades europeias. As festas de Natal e Ano Novo não arrefeceram a determinação dos trabalhadores.

Todo dia comprovamos com entusiasmo que a França não é o Brasil. Os franceses têm uma longa história de movimentos sociais, de lutas e de resistência. Agora, eles vêm mostrando que têm reservas de energia para resistir mesmo depois de quase quarenta dias de greve que reúne professores, trabalhadores da saúde, advogados e trabalhadores de diferentes profissões.

Neste dia 9 de janeiro mais uma manifestação gigante parou diversas cidades francesas. O governo, o patronato e os representantes sindicais, o famoso triunvirato chamado de « partenaires sociaux » voltaram dia 10, sexta-feira, à mesa de negociação para discutir e tentar avançar nas concessões que o governo já fez.

O tal « regime universal » defendido por Macron como um fator de justiça já foi devidamente desqualificado por especialistas e diversas categorias (militares, policiais, pilotos de linha, aeromoças e comissários de bordo, entre outros) conseguiram que o governo revisse as propostas iniciais extremamente prejudiciais aos futuros aposentados. Os empregados da SNCF e da RATP continuam rejeitando em bloco a recusa do governo em manter os regimes especiais que levam em conta a penibilidade do trabalho.

Outros como os advogados que têm um financiamento à parte de suas aposentadorias não aceitam de forma alguma entrar no regime universal imaginado inicialmente pelo governo. Diante da ministra da Justiça eles fizeram nesta sexta-feira, dia 10 de janeiro, uma demonstração eloquente de sua recusa da reforma : jogaram as togas pretas no chão fazendo uma montanha de togas, produzindo forte imagem da determinação em resistir ao rolo compressor da reforma Macron.

No meio dessa polêmica e dos debates diários na TV, rádio e nos jornais, uma notícia veio esquentar o noticiário : o interesse de Macron em destruir o melhor sistema de proteção social da Europa esconderia interesses de levar sub-repticiamente à aposentadora por capitalização : a empresa BlackRock, primeiro gestionário de ativos do mundo é uma das interessadas que já esfregam as mãos com uma futura abertura para a via da capitalização. Seu diretor francês foi elevado ao grau de oficial da Légion d’honneur dia 1° de janeiro deste ano, levantando protestos de políticos anti-Macron, à direita como à esquerda.

O alvo desse regime de capitalização seriam os executivos de altos salários que teriam interesse em sair do sistema coletivo de « sécurité sociale », segundo Michaël Zemmour, professor-pesquisador da Universidade Paris-I ouvido pelo jornal Le Monde.

Fundo de financiamento da greve

Se depender de intelectuais como os filósofos Étienne Balibar e Geneviève Fraisse, de militantes de esquerda como o romancista Didier Daeninckx, a atriz Corinne Masiero ou o desenhista Tardi, que lançaram uma petição em apoio aos grevistas, estes não vão voltar ao trabalho por pressões materiais dos descontos nos salários. Até o dia 8 de janeiro já tinham sido arrecadados pelos sindicatos dos diversos setores em greve mais de 2,1 milhões de euros (doados por mais de 30 mil pessoas) para os grevistas que « defendem um dos nossos bens comuns, um sistema de aposentadorias que, longe de ter sido oferecido pelos patrões é o fruto das lutas de nossos ancestrais », como dizia o manifesto de apoio aos grevistas.

« Existe o dióxido de carbono mas a luta de classes permanece », lembrava esta semana, em uma entrevista ao jornal Libération, o filósofo Régis Debray, que lança este mês o livro « O século verde ».

Ele afirma que « a dominaçãp é também uma poluição do meio ambiente humano. Por acaso esquecemos que além das abelhas e dos pássaros a luta de classes, a revolução e a história são o leitmotiv dos que denunciam a deliquescência moral e política da sociedade ? »

O antigo companheiro de Guevara pensa que a luta em defesa do meio ambiente não deve ser dissociada da luta pela igualdade e justiça social « para preservar a ética dos direitos e dos deveres humanos ».

A luta (a greve) continua.



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