Cartas do Mundo

Carta de Paris: Fratura social francesa e condenação da pedofilia

 

20/01/2020 17:17

 

 

O incêndio no restaurante La Rotonde, em Paris, na madrugada do dia 18 de janeiro não foi um acidente. Foi um ato político.

As autoridades francesas pensam que o fogo que destruiu parte do interior do restaurante tradicional de Montparnasse foi desencadeado para marcar posição contra o governo. Um colete amarelo teria sido deixado diante do restaurante para assinar o ato.

Como se sabe, o restaurante foi muito frequentado pelo casal Macron quando ele era ministro da Economia e foi o local escolhido pelo candidato para festejar sua classificação para o segundo turno da eleição presidencial de 2017.

Desde então, todas as manifestações que passaram pelo Boulevard du Montparnasse encontraram um muro protetor de CRS (batalhão de choque da polícia francesa). Os black blocks nunca puderam tocar fogo ou quebrar vidraças do La Rotonde, como aconteceu com o restaurante Le Fouquet’s, um símbolo da era Sarkozy, destruído pelo fogo durante uma das manifestações dos coletes amarelos, em março de 2019.

A França vive há 47 dias a greve mais longa da sua história mas o governo vem se mostrando pouco sensível à rejeição por grande parte dos franceses da reforma das aposentadorias que será submetida ao voto do Parlamento esta semana.



Existe uma verdadeira fratura na sociedade francesa : de um lado, um governo surdo que recebe patrões (o Medef) e sindicatos para parecer que negocia quando, na realidade, se obstina em manter a mesma reforma por pontos que deve apresentar à Assembléia Legislativa nesta sexta-feira, dia 24. Por outro lado, para conter as contestações, o governo tenta impor a ordem nas manifestações por uma violência policial chocante para uma democracia européia. O advogado Arié Alimi qualifica o modelo atual francês de «démocratie autoritaire».

Essa reforma tão contestada vai ser prejudicial para a maioria dos franceses, segundo economistas de esquerda. E, num horizonte próximo, vai abrir caminho para a aposentadoria por capitalização, sistema sonhado pelos banqueiros.

Macron foi vaiado num teatro neste fim de semana por um grupo de manifestantes e teve de sair protegido por policiais despachados em grande número para protegê-lo.

Mas não era do clima social deletério que eu queria tratar.

Era de pedofilia. E disso Emmanuel Macron não pode ser acusado.

Menos condescendência com a pedofilia

Até os anos 1980, muitos intelectuais franceses foram condescendentes com a pedofilia, quando não francamente adeptos do sexo com crianças. Michel Foucault foi citado em reportagem do «Le Monde» como defendendo a prática de relações sexuais entre um adulto e um adolescente menor. Segundo o jornal, num programa da rádio France Culture, de 1978, o filósofo defendeu a idéia que proibir a pedofilia poderia progressivamente levar à interdição da homossexualidade.

Segundo a historiadora Anne-Claude Ambroise-Rendu, entrevistada pelo jornal «Libération», Flaubert conta em suas cartas que faz sexo com jovens meninos durante suas viagens à África do Norte. Depois dele, André Gide fazia esse mesmo tipo de viagem. Segundo ela, o conceito de pedofilia não existia naquela época e por isso não chocava, sobretudo porque os corpos dos meninos eram corpos de países colonizados pela França : Tunísia, Marrocos e Argélia.



O debate sobre a pedofilia foi desencadeado pelo julgamento de um ex-padre Bernard Preynat, julgado por agressão sexual em dezenas de meninos escoteiros, de quem ele cuidava em acampamentos. Depois de acobertá-lo durante décadas, a Igreja católica destituiu-o de sua função. Mas isso não impede que o cardeal Barbarin, de Lyon, seja apontado por um silêncio cúmplice. Segundo Preynat, o cardeal sabia dos fatos numerosos de agressão sexual de meninos mas preferiu guardar silêncio.

Ouvido pela justiça, Barbarin foi evasivo não querendo dar a impressão de ter acobertado um pedocriminoso, como preferem alguns especialistas que julgam o termo pedófilo etimologicamente iadequado para definir quem abusa sexualmente de crianças. A maioria dos católicos de Lyon querem o afastamento de Barbarin.

O problema é complexo pois a pedofilia de padres é um crime que ocorre com certa frequência. Para muitos, seria evitado ou pelo menos atenuado com o fim da obrigatoriedade do celibato mas a Igreja católica parece não estar preparada para mudar.

Manipulador e predador sexual

Louvado por uma obra que trata de fatos que hoje a maioria de intelectuais considera inaceitáveis e chocantes, o escritor Gabriel Matzneff é outro pedocriminoso que terá de se explicar na Justiça francesa. Prêmio Renaudont de 2013, ele é acusado por Vanessa Springora de tê-la seduzido na década de 1980, quando ela não tinha ainda 14 anos e ele era um escritor de quase 50 anos, famoso e celebrado.

«Le consentement», o livro que ela lançou em janeiro, foi recebido com críticas elogiosíssimas por sua «beleza grave, implacável precisão e total domínio do estilo e da língua», como escreveu Nathalie Crom na revista «Télérama».

Pois tanto em seus romances quanto em seu diário, o escritor não esconde sua predileção por meninos e meninas menores de 15 anos. No livro Springora conta como foi usada por esse escritor por quem se apaixonou, antes de descobrir que se tratava de um manipulador e predador sexual. Não contente em manipulá-la, G.M. como ela o chama em seu livro, utiliza-a como personagem de ficção.

«Sob o pretexto da revolução sexual, nos meios artísticos e intelectuais da França dos anos 1970 e 1980, a pedofilia era não somente tolerada mas até valorizada», disse Vanessa Springora numa entrevista. O tema da pedofilia foi debatido, entre outros, no programa de TV «La grande librairie», comandado pelo jornalista François Busnel. Nele, Springora deu uma longa entrevista sobre o livro e outros autores falaram sobre o tema.



A psiquiatra e psicanalista, Marie-Rose Moro, disse: «Quando se trata crianças vítimas de incesto e de pedofilia, vê-se a dificuldade que nossa sociedade ainda tem de hierarquizar esses dois problemas e tratá-los pelo interesse da vítima, a criança».

A historiadora Ambroise-Rendu vai no mesmo sentido quando afirma : «Gabriel Matzneff pôde dizer o que disse e escrever o que escreveu pois admite-se como uma coisa óbvia que os corpos das crianças e das mulheres estão à disposição dos homens. Antes da segunda metade do século XX, a empatia com a vítima era uma exceção».

A feminista e escritora americana Eve Ensler, autora dos «Diálogos da vagina», veio este mês a Paris, para lançar seu livro «Pardon», no qual conta os estupros repetidos por parte de seu pai, que morreu sem nunca lhe pedir perdão.

«Para os homens de sua geração, pedir desculpas era visto como uma derrota. Se os agressores não pediram desculpas na época do #MeToo é porque a falta de desculpas é um dos pilares do poder patriarcal».

Livros de vítimas de pedofilia e de incesto são necessários para avançar no debate e na mudança de mentalidade.

No século XXI já não se admite que esses crimes fiquem impunes.

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