Cartas do Mundo

Carta de Paris: Frei Tito começou a morrer nas salas de tortura

A cantora Mônica Passos, milita em Paris inspirada pela Teologia da Libertação, que também movia os dominicanos torturados na ditadura

10/08/2018 11:35

 

 
Dia 10 de agosto de 1974, o frade dominicano Tito de Alencar se suicidou aos 28 anos.

Nesta sexta-feira, faz 44 anos que um camponês viu um corpo pendendo de uma árvore. Era um local próximo de uma propriedade rural, onde Tito trabalhava naquele verão, não muito distante do convento de Sainte-Marie de la Tourette.

Mas o dominicano começou a morrer em 1969, na Operação Bandeirantes, em São Paulo, nos interrogatórios sob tortura, dirigidos pelo delegado Sérgio Fleury e seus asseclas. Por ter tentado o suicídio na sua cela, Tito escapou das garras dos torturadores. Viveu um exílio atormentado na França, de janeiro de 1971 até o dia de sua morte.

Naquele agosto de 1974, o jovem poeta e místico, que pensou um dia em se tornar eremita, percebeu que não conseguia viver sozinho, em meditação e oração. Trouxera do Brasil seus carrascos, que lhe invadiam os sonhos e lhe infernizavam os momentos de vigília.

O militante político e revolucionário não tinha mais forças para lutar. Comparados a Judas pelo jornal carioca « O Globo » – aliado de primeira hora dos generais e dos torturadores – os dominicanos sabiam que não haviam traído nem Jesus nem Marighella. Mas nos pesadelos de frei Tito, seus carrascos teimavam em repetir a mesma acusação mentirosa.

Quando Clarisse Meireles e eu estávamos escrevendo o livro « Um homem torturado - Nos passos de frei Tito de Alencar » - que foi um dos finalistas do Prêmio Jabuti de 2015 - fomos entrevistar o psiquiatra Jean-Claude Rolland, que tratou de Tito  por um ano até sua morte. O Dr. Rolland morava numa casa no meio de um vinhedo, a uns 30 quilömetros de Lyon. Antes de irmos vê-lo, o psisiquiatra nos enviou um belo texto, entre outros que escreveu sobre Tito de Alencar.

Ele escreve que « Tito se suicidou pendurando-se de um álamo perto de um lixão, junto à zona industrial de uma cidade periférica na qual encontrara um trabalho. Essas circunstâncias indicam a qualidade de ‘ lixo humano ‘ ao qual ele sentia-se reduzido pela experiência da tortura. »

Esse texto do Dr. Rolland terminava dizendo : « A incoerência do pensamento que embasa a prática da tortura é uma perturbação, uma doença da alma. É mais fácil pensar que ela é uma perversão do que reconhecer que ela é uma loucura que requer uma exploração científica e um tratamento ».

Depois, quando fomos à sua casa para uma longa entrevista, ele acrescentou :

« Penso que a loucura está no torturador. É preciso ver a tortura como uma loucura. Alguns militares que torturaram na Argélia ficaram loucos. Só se pode fazer isso exercendo uma distorção mental muito grande. O capitão Albernaz, um dos torturadores de Tito, lhe disse : ‘Quando venho para a Operação Bandeirantes, deixo meu coração em casa’. Isso mostra que são realmente seres divididos, como se houvesse uma cisão profunda. » 

Inspirado em Tito, que marcou sua vida, o ex-psiquiatra, hoje um respeitado psicanalista, começou a pesquisar sobre o banimento.

« Édipo foi banido de seu país. Antígona foi banida. Na civilização grega, ser banido era o horror absoluto, era pior que um assassinato. Era melhor morrer que ser banido. Ora, Tito era um banido da ditadura. Se não tivesse sido incluído na lista dos setenta presos trocados pelo embaixador suíço, não teria sido banido, continuaria na prisão e, quem sabe, talvez não tivesse tido o mesmo destino », afirma o Dr. Rolland.

Teatro do oprimido e engajamento dentro e fora dos palcos

Um mês atrás, dia 11 de julho, fui assistir ao espetáculo « Lula Libre », em Paris, organizado pelo « Comité International pour la solidarité avec Lula et la défense de la démocracie ».

No show fiz uma descoberta : a cantora engajada e ex-atriz brasileira Mônica Passos, instalada há 38 anos em Paris, para onde veio muito jovem. Acabou ficando e hoje é considerada por alguns críticos como « a diva da World Music brasileira ». Me perguntei por que nunca ouvira falar de Mônica, que me proporcionou momentos de grande emoção e prazer, através de sua voz maravilhosa e da poesia das canções que cantou.

Personagem saída de um filme de Fellini, a cantora entrou no palco envolta na bandeira do MST, gestos largos, vestida de vermelho com um diadema de flores vermelhas nos cabelos. Na bela e poderosa voz de Mônica, o repertório era uma ode à América Latina, às revoluções emancipadoras, às causas da luta contra o nazifascismo, ao ideal de fraternidade.

O show começou com « Sonhar » (com letra de Chico Buarque, do musical O homem de la Mancha). Depois vieram Bella Ciao, Gracias a la vida, passando por Avec le temps, de Léo Ferré, Milagre dos Peixes e Grândola vila morena. Até La Marseillaise foi entoada. E como não poderia faltar, ela cantou « Caimanera », a versão revolucionária da conhecida « Guantanamera », cuja letra de Carlos Puebla é ainda mais bonita, segundo Mônica.

A cantora era acompanhada de músicos extraordinários : Marc Madoré, no baixo, Jorge Bezerra, na percussão e Jean-Baptiste Marino na guitarra flamenca.

Para mim, foi uma grande revelação. No Cabaret Sauvage, depois de ouvir textos lidos por Franck Guilbert, tive o primeiro contato com a voz de Mônica e seu engajamento que ela faz questão de dividir com o público.

Encontrei dias depois, num café de Montparnasse uma mulher solar, passionária que dá a impressão de se jogar no que faz com um entusiasmo adolescente. E que é totalmente movida pela paixão da política e das revoluções de emancipação dos oprimidos, como a revolução bolivariana.

Descobri nos textos sobre outros espetáculos que os críticos franceses não poupam elogios à brasileira, de energia transbordante, cuja voz tem uma gama de recursos inimagináveis : ela é capaz de imitar instrumentos e cantos de pássaros. Mônica também trabalhou como atriz no « Teatro do Oprimido », no tempo do exílio de Augusto Boal, por quem guarda uma grande admiração.

No « Le Monde », a crítica Véronique Mortaigne resumiu : « Brasileira, exuberante, galhofeira, Mônica Passos brinca com as possibilidades de sua voz, forte e de uma elegância artística natural. Atriz exigente, a cantora encanta as melodias mais severas, libera Milton Nascimento de sua timidez, ‘quebra o gelo’ na primeira oitava atingida e derruba todos os clichês brasileiros. Ela é um dos mais originais ‘artistas do mundo’ instalados em Paris ».

O outro lado de Mônica Passos é sua energia militante, que extrapola o palco em que se apresenta como cantora.

Mas o que Mônica Passos tem a ver com frei Tito de Alencar ?

A paixão pela Teologia da Libertação, pela história do engajamento da Igreja católica ao lado dos oprimidos e por sua « opção preferencial pelos pobres ». Mônica é católica como Tito, e como ele pensa que a fé tem que salvar não apenas a alma mas a vida e a dignidade de todos, aqui e agora.

Como Tito, Mônica é movida pela generosidade. Ela dispensou o cachê na noite de apresentação do espetáculo « Lula Livre » e participou de outras formas da organização do show que encheu o Cabaret Sauvage de brasileiros e franceses, cantando com a cantora a necessidade de « sonhar mais um sonho impossível ».

Atualmente, juntamente com um coletivo de brasileiros e franceses que militam pela democracia, a infatigável Mônica organiza os « Saraus do Lula », série de palestras temáticas com debates e espetáculos de música com dia e hora para acontecer em Paris por três meses, a partir de setembro.

Os saraus prometem ser um espaço de discussão e informação do que é o Brasil em toda sua riqueza cultural e diversidade. Os encontros visam a defender a soberania nacional, os direitos dos índios, das minorias e dos trabalhadores, depois do tsunami que arrasou o país em 2016.

Eles servirão também para informar sobre o golpe, que vem acumulando frutos nefastos. O aumento da mortalidade infantil, o desemprego, o cerceamento da liberdade nas universidades e a violência nas grandes cidades são apenas alguns dos mais visíveis.

Se depender de Mônica e do coletivo com o qual ela milita, os franceses que forem aos saraus vão saber o que está se passando no Brasil, cuja imprensa influencia até mesmo a narrativa de uma certa mídia francesa.






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