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Carta de Paris: Generais de pantouflas alertam para risco de ''guerra civil''

 

29/04/2021 13:30

(C. Platiau/Reuters)

Créditos da foto: (C. Platiau/Reuters)

 
As Forças Armadas francesas são, por princípio republicano, subordinadas aos governos civis. Não têm por hábito pregar e muito menos tentar golpes de Estado.

Isto é tradição do Sul do Equador.

Mas exatamente no dia que marcava os 60 anos da tentativa de golpe de generais colonialistas que, em 21 de abril de 1961, tentaram a partir de Argel derrubar De Gaulle – inconformados com a independência da Argélia – vinte generais franceses assinaram um artigo que fez lembrar o episódio do golpe abortado da OAS (Organisation Armée Secrète).

Seria preocupante se não fosse patético e anacrônico.

O texto foi publicado no semanário « Valeurs Actuelles », porta-voz da extrema-direita francesa, próximo de Marine Le Pen e de seu partido, o Rassemblement National (ex-Front National).

Os generais neofascistas escreveram a tribuna para alertar contra o « islamismo » que supostamente ameaça a França. No texto, eles acusam os antiracistas de esquerda de « veicularem um discurso de ódio e de guerra racial ».

Ora, o discurso anti-árabe, dissimulado de discurso anti-islamismo radical é justamente o cimento do raso discurso com o qual se implantou o partido de Marine Le Pen, fundado por seu pai Jean-Marie Le Pen. Além da imigração e da segurança, o Rassemblement National faz da denúncia do Islã radical a base seu programa político.

Não é por outro motivo que os saudosos da Argélia francesa e pregadores da « preferência nacional » e da « identitade francesa » - que no imaginário deles é branca e católica – se reconhecem no RN. Alguns dos militares que assinaram o texto no « Valeurs actuelles » são próximos do Rassemblement National.

Marine Le Pen publicou um texto dois dias depois no mesmo semanário para apoiar os generais e a batalha que ela vê diante dela como « a batalha da França ».

Democracia sólida

O problema é que a França tem uma democracia sólida e o governo civil não se impressiona com apelos de generais de pijama, que em francês são chamados de « generais de pantufla ».

 A ministra da Defesa (ministre des Armées), Florence Parly, reagiu primeiramente por tweet e depois em um discurso. Ela assinala que os generais são militares da reserva e só representam a eles mesmos. Num texto publicado no jornal « Libération » a ministra lembrou que os princípios de neutralidade e de lealdade são os fundamentos do status do militar.

Florence Parly ironizou dizendo que tendo todo o tempo livre, esses militares da reserva deveriam aproveitá-lo para ler o código da defesa e estudar o estatuto dos militares do qual parecem se orgulhar. A ministra lembrou a Marine Le Pen que « o militar não é um militante ».

« Quando militares da reserva dizem querer se colocar à disposição de mulheres e homens políticos negam a condição de militar. Pior ainda, transgridem essa condição para servir a interesses eleitorais desprezíveis ».

A ministra acrescenta que « tentar politizar as Forças Armadas é enfraquecer a França ».

Para Jean-Luc Mélenchon, candidato a presidente em 2022 e líder do partido La Frane Insoumise, em vez de responder a Marine Le Pen, a ministra deveria punir dentro da lei os militares que ultrapassam os limites de sua função.

É exatamente o que quer o chefe do Estado Maior das Forças Armadas, general François Lecointre. Além dos vinte generais da reserva que assinavam o texto, havia centenas de militares, entre eles dezoito da ativa. Estes serão levados a um conselho militar, garantiu o general Lecointre. Ele disse que é possível que alguns sejam afastados ou colocados na reserva compulsoriamente.

Para o general Lecointre, os militares sabiam que assumiam uma posição política, coisa inaceitável sobretudo quando ameaçam provocar « uma explosão e a intervenção de seus colegas da ativa ». Ele qualificou essa ameaça de « repugnante ».

Os generais próximos da reserva mas que podem ainda ser mobilizados também serão levados ao conselho militar e podem ser afastados ou colocados compulsoriamente na reserva.

O episódio serviu para mostrar que alguns generais de pijama têm posições próximas da extrema-direita.

Segundo o primeiro-ministro Jean Castex, Marine Le Pen tenta se desvencilhar da história de seu partido mas suas posições de extrema-direita voltam a emergir.

« Chassez le naturel, il revient au galop », disse o ministro citando um famoso ditado que significa que quando se recalca uma posição natural, ela acaba por retornar rapidamente.

Apesar da tentativa de se mostrar menos radical e mais consensual, « Marine Le Pen continua sendo, como seu pai, uma ameaça para a democracia », afirmou ao jornal « Libération » um membro do governo que não quis se identificar.

Leneide Duarte-Plon é co-autora, com Clarisse Meireles, de « Um homem torturado, nos passos de frei Tito de Alencar » (Editora Civilização Brasileira, 2014). Em 2016, pela mesma editora, a autora lançou « A tortura como arma de guerra-Da Argélia ao Brasil : Como os militares franceses exportaram os esquadrões da morte e o terrorismo de Estado ». Ambos foram finalistas do Prêmio Jabuti. O segundo foi também finalista do Prêmio Biblioteca Nacional



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