Cartas do Mundo

Carta de Paris: Israel-Palestina: 73 anos de conflito

''Não há calma possível num gueto agonizante'', dizia o editorial do Le Monde comentando o cessar-fogo depois de onze dias de bombardeio de Gaza por Israel

13/06/2021 10:51

(AFP)

Créditos da foto: (AFP)

 
Depois de onze dias de violência entre israelenses e palestinos, o cessar fogo decretado dia 21 de maio veio marcar mais uma pausa no mais antigo conflito do mundo.

Em seu editorial de 23 de maio deste ano, o jornal Le Monde ressaltou a impossibilidade de pensar que o cessar fogo traz a paz para israelenses e palestinos, que vivem uma guerra que já dura 73 anos. O editorial dizia :

« Sem a suspensão rápida e integral do embargo – egípcio e israelense – que estrangula os 2 milhões de habitantes de Gaza, o ‘retorno à calma’ do qual se felicitam as chancelarias do mundo é uma sinistra ilusão. Não há calma possível num gueto agonizante ».

O editorial do Le Monde continua : « Gaza é parte integrante do corpo palestino, ainda que seja separada da Cisjordânia. A expressão ‘apartheid de fato’ escolhida e usada por duas importantes ONGs de defesa dos direitos humanos – a israelense B’Tselem e a americana Human Rights Watch – para descrever o Sistema de dominação dos palestinos adotado por Israel parece, infelizmente, cada vez mais adaptado à situação ».

Efetivamente, o « retorno à calma » foi ilusório. Na Esplanada das Mesquitas em Jerusalém, jovens palestinos continuam a ser controlados e presos pela polícia israelense, que os trata como suspeitos, mesmo se eles estão apenas tirando dinheiro de um caixa eletrônico, como um dos jovens entrevistados pelo Le Monde que conta que a tensão em Jerusalém continua palpável. As expulsões de palestinos de suas casas na parte Leste da cidade não foram interrompidas. Fazem parte do plano de « judeização » da cidade.

Vinte anos de cobertura

Há vinte anos, ao me mudar para Paris, comecei a cobrir com frequência o que está consagrado na imprensa como « o conflito Israel-Palestina ».

Nesses vinte anos, fiz inúmeras entrevistas com escritores, jornalistas, diplomatas e filósofos israelenses e franceses. Quase todos de origem judaica, como o filósofo Edgar Morin, o historiador Shlomo Sand, o escritor e editor Éric Hazan, o escritor e jornalista Michel Warschawski, o historiador e jornalista Dominique Vidal, o cineasta Eyal Sivan e o embaixador Séphane Hessel. Além deles, entrevistei Leila Shahid, representante da Palestina na França e depois na União Européia e o dominicano e matemático Régis Morelon, que viveu no Oriente Médio, onde dirigiu o Instituto Dominicano de Estudos Orientais (Ideo), no Cairo.

Por se definirem como intelectuais de esquerda defensores de uma paz justa para os dois povos, todos eles fazem ou faziam – Stéphane Hessel morreu em 2013 – análises críticas da política de apartheid de Israel e do colonialismo que vem anexando terras palestinas da Cisjordânia e de Jerusalém Leste através de uma colonização acelerada e oficial, desde a ocupação que se seguiu à vitória da Guerra dos Seis Dias, em 1967.

Nesses vinte anos acompanhei em Paris dois colóquios organizados pela historiadora do judaísmo e senadora Esther Benbassa. O primeiro foi na Sorbonne (Judeus e muçulmanos-Uma história compartilhada, um diálogo a construir) e o outro no Senado (« Pode-se criticar Israel ? »). Os participantes eram de esquerda e todos defendiam dois Estados em Israel-Palestina.

Depois da primeira Guerra de Gaza, em 2009, quando Israel destruiu parte da infra-estrutura do território, que abriga 2 milhões de palestinos, Esther Benbassa escreveu um pequeno e precioso livro, essencial para quem quer entender a difícil posiçäo de um judeu francês de esquerda, como ela. O livro se intitula « Être juif après Gaza ».

Depois desta, vieram mais três guerras com bombardeios e destruição em Gaza : em 2012, em 2014 e a mais recente, em maio deste ano.

Nesses vinte anos, acumulei uma consistente biblioteca sobre Israel-Palestina, de autores consagrados como os historiadores Ilan Pappé e Shlomo Sand, de políticos como Avraham Burg, de escritores como Eric Hazan e de jornalistas israelenses como Gideon Levy, Charles Enderlin e Michel Warschawski, entre outros.

Em 2004, traduzi para o português dois livros sobre o mais antigo conflito do planeta, que perturba e divide judeus de direita e de esquerda no mundo inteiro.

O primeiro foi « Viagem à Palestina », publicado pela Ediouro, (« Voyage en Palestine »), com textos de escritores que fizeram uma viagem a Ramallah, em 2002, para encontrar o poeta palestino Mahmoud Darwish, impedido por Israel de sair do território palestino para participar de um encontro do Parlamento Internacional dos Escritores (PIE). Mesmo sem ser um prisioneiro, Darwish não pôde sair de Ramallah que vivia um momento de grande tensão. Como potência ocupante, Israel determina quem pode entrar e quem pode sair da Cisjordânia.

Por solidariedade, vários escritores do PIE foram ao seu encontro, entre eles, dois Prêmios Nobel de Literatura.

Os escritores eram o português José Saramago, prêmio Nobel de 1998, o americano Russel Banks, o chinês Bei Dao, o sul-africano Breyten Breytenbach, o francês Christian Salmon, o espanhol Juan Goytisolo, o italiano Vincenzo Consolo e o nigeriano Wole Soyinka, prêmio Nobel de 1986. Ao recepcionar seus colegas, o poeta palestino declarou:

« Não há nada mais evidente que a verdade palestina e a legitimidade palestina: esta terra é nossa e esta pequena parte é uma parte da nossa terra natal, uma terra natal e não mítica. Esta ocupação é uma ocupação estrangeira que não escapa à acepção universal da palavra ocupação, sejam quais forem os títulos de direito divino que ela cita : Deus não é propriedade pessoal de ninguém ».

O filósofo francês Étienne Balibar tem uma avaliação semelhante quando escreve : « A causa palestina é daquelas que permitem avaliar a dignidade e a responsabilidade de um discurso político ». Étienne Balibar escreveu, entre outros livros, a obra coletiva « Lire le Capital », com Louis Althusser, Jacques Rancière, Roger Establet e Pierre Macherey. Balibar é professor emérito da Universidade de Paris-Nanterre e ensina filosofia nos Estados Unidos.

Hélène Cixous e Jacques Derrida não foram a Ramallah mas enviaram textos de solidariedade a Darwish, publicados no livro « Viagem à Palestina ». O discurso de Saramago foi tão atacado pela direita sionista israelense que o escritor não autorizou sua publicação no volume junto com os outros textos. Depois da viagem à Palestina, os livros de Saramago passaram a ser boicotados em Israel e ele passou a ser rotulado de anti-semita.

O périplo dos escritores foi acompanhado por dois cineastas Samir Abdallah e José Reynes que fizeram um excelente documentário chamado « Écrivains des frontières », que vi no lançamento seguido de debate com os realizadores.

O outro livro que traduzi, « Anti-semitismo, a intolerável chantagem » que tem como subtítulo « Israel-Palestina, um ‘affaire’ francês ?”, foi publicado no Brasil pela editora Anima e tem textos de intelectuais judeus franceses como o filósofo Étienne Balibar, o médico Rony Brauman, ex-presidente da ONG « Médecins sans frontières », Sylvain Cypel, jornalista do « Le Monde », Eric Hazan, médico, diretor da editora La Fabrique, Marc Saint-Upéry, editor, Denis Sieffer, diretor da revista « Politis », Michel Warschawski, escritor e fundador do Centro de Informação Alternativa de Jerusalém. E, last but not least, a escritora e filósofa Judith Butler, que se define como « judia progressista », única não-francesa do volume. Ela vê a acusação de anti-semitismo a quem critica Israel como um instrumento de censura que visa a abafar qualquer solidariedade com os palestinos.

Nos textos, os escritores se apresentam como militantes de esquerda exasperados com a equação anti-sionismo = anti-semitismo. Uma equação delirante e monstruosa, segundo Denis Sieffert.

Esse livro, como muitos outros, mereceria um debate exclusivo.

São incontáveis os documentários, os livros e as entrevistas que me levaram a formar uma opinião sobre o « problema palestino ». A partir do pensamento desses e de outros intelectuais de esquerda e militantes anti-colonialistas entendi o que está em jogo no Oriente Médio e como a mídia ocidental manipula a opinião pública. Quando se trata de explicar o conflito Israel-Palestina, nunca uma rádio ou TV francesa convidará um desses autores citados. A opinião deles fica circunscrita a jornais e revistas de esquerda.

Nos Estados Unidos, o debate é menos censurado. A capa do New York Times de 28 de maio deste ano com fotos das 67 crianças de Gaza assassinadas pelas bombas israelenses nesta última Guerra de maio seria impensável num grande jornal francês. O título da capa no alto da página dizia : “They were just children” (Eram apenas crianças). Nas páginas internas, as histórias das 67 vítimas inocentes do crime de Netanyahou e do povo israelense, que em sua grande maioria aprova todas as guerras de Israel, como diz Avraham Burg. “A guerra é a melhor forma de unir os israelenses”. Segundo ele, o que mantém a coesão de Israel é a guerra.

Esses intelectuais de esquerda que escreveram sobre a história de Israel-Palestina mostram que não pode haver neutralidade diante deste conflito. Ou defendemos a soberania, a segurança e a auto-determinação dos dois povos vivendo em dois Estados ou em um Estado binacional, ou defendemos o sistema colonialista de apartheid que Israel impõe em território palestino ocupado.

Capa da edição de 28 de maio do New York Times (clique para ampliar) (Reprodução)

« O problema de Israel não é tanto o peso dos partidos religiosos e de sua ideologia no aparelho do Estado mas a ausência de movimento verdadeiramente laico e democrático », escreve Michel Warschawski.

Se Israel tivesse permitido, já existiria um Estado Palestino no território definido pela ONU no Plano de Partilha da Palestina, em 1947. Os intelectuais citados são unânimes em dizer que Israel nunca quis um Estado Palestino. Fez negociações oportunistas e ganhou tempo até chegar à situação atual de impasse absoluto, que Warschawski vê como « uma corrida para sua própria destruição », como ele deixa claro no livro « À tombeau ouvert-La crise de la société israélienne », de 2003.

No ano passado esperava-se o anúncio, que acabou não vindo, da anexação da Cisjordânia. Sobre essa anexação anunciada mas não consumada, fiz duas entrevistas para a Carta Maior : uma com Michel Warschawski, fundador do « Centro de Informação Alternativa de Jerusalém », e outra com Dominique Vidal, ex-diretor do « Le Monde Doplomatique », especialista do Oriente Médio.

A anexação da Cisjordânia é o objetivo final dos fundamentalistas religiosos e da extrema-direita sionista. Eles sonham com o « grande Israel », que englobará a Cisjordânia e Jerusalém Leste, que sofre há alguns anos um processo de limpeza étnica para expulsar todos os palestinos e substituir a população por colonos.

As expulsões do bairro de Sheik Jarrah, em Jerusalém Leste, foi um dos pivôs da explosão de violência que continuou nos arredores da Esplanada das Mesquitas, no dia 10 de maio, chamado o « dia de Jerusalém » por comemorar o dia de 1967 (uma data móvel no calendário judaico), quando o exército israelense fincou a bandeira israelense em Jerusalém Leste, a parte árabe da cidade.

Um conflito longo e complexo

A história desse conflito é longa, complexa e desperta no mundo inteiro posições extremas. Na França, o que se vê majoritariamente é uma comunidade judaica que se alinha automaticamente com as posições de Israel, em qualquer situação. Os franceses judeus de esquerda têm pouco espaço na mídia. Mesmo nos debates mais sérios na TV e nas rádios eles estão ausentes.

O embaixador Stéphane Hessel, um dos redatores da Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948 – que entrevistei em 2011 (ele morreu em 2013) – chegou a ter um debate anulado na École Normale Supérieur (templo da intelligentsia francesa) por pressão de intelectuais judeus pró-Israel. O mesmo aconteceu com um debate em torno de um livro do historiador israelense Shlomo Sand, previsto em Nice e anulado por pressões do lobby francês pró-Israel.

« A verdadeira religiosidade dos judeus hoje consiste na sacralização de Israel e no fervor que o país lhes inspira », escreve Esther Benbassa no livro « Être juif après Gaza ». « Essa sacralização pressupõe que Israel está, a priori, ao abrigo de todo erro, de toda falta, de todo desvio moral ou político ».

Avraham Burg, ex-ministro, ex-presidente da Knesset, presidente interino de Israel por um mês, ex-conselheiro de Shimon Pérès, é mais radical : « Enquanto o laço entre a nacionalidade israelense e as leis de Nurenberg (editadas no nazismo) não for rompido, Hitler continuará indiretamente a definir quem é judeu.

Ele explica :

« Quem define quem é judeu é a lei do retorno que diz que é judeu todo indivíduo nascido de mãe judia ou convertido ao judaísmo e que não pratica uma outra religião. « Ora, é a definição do judeu pelo nazismo, pelas leis de Nuremberg, de 15 de setembro de 1935. E além disso, há um monopólio dos rabinos sobre a identidade civil. Enquanto o laço entre a cidadania israelense e as leis de Nuremberg não for rompido, Hitler continuará definindo indiretamente quem é judeu. Hitler terá vencido ».

 « Definir uma cidadania moderna segundo critérios religiosos ou genéticos é altamente problemático, particularmente para os judeus ». lembra Burg.

Participei em Paris de uma coletiva de imprensa dele quando lançou em francês seu excelente livro « Vaincre Hitler » (Vencer Hitler).

(Ibraheem Abu Mustafa/Reuters)

O livro deveria se intitular “Hitler a vaincu” (Hitler venceu). Mesmo tendo mudado o título, Burg manteve o conteúdo extremamente crítico das opções feitas por seu país, que ele qualifica de « gueto sionista ». “O paradoxo é que Israel que deveria ser um refúgio para os judeus tornou-se o lugar mais perigoso para eles », diz.

Em uma entrevista ao jornal « Libération » quando o livro foi publicado em Paris, em 2008, Burg disse que « os israelenses continuam a pensar que os palestinos, como os nazistas antes, só pensam em matar judeus. Eu gostaria de dizer a eles que existe uma diferença entre um palestino lutando para ter seu próprio Estado e os nazistas que matavam judeus em nome de uma ideologia racista ».

Mais recentemente, ele criticou a lei de 2018 que estabelece que Israel é o Estado-nação do povo judeu.

« Um Estado judaico e democrático é uma pura contradição, que não explodiu ainda por causa da guerra. Mas logo que houver a paz ele explode. Se Israel é um Estado automaticamente judaico, quando tivermos uma maioria árabe por causa da demografia, teremos de aplicar o caráter judaico pela força. Devemos definir o que será este Estado ».

Avraham Burg revela coerência em afirmações como esta :

« Se o Dalai-lama e o rabino racista Kahane caírem na água e eu só puder salvar um deles, salvo o Dalai-Lama porque ele é meu irmão, temos o mesmo sistema de valores. »

Casado com uma francesa, Burg se mudou para Paris onde mora há vários anos.

Um pouco de história

O « conflito » começou logo depois da declaração de independência do Estado de Israel, em maio de 1948.

O historiador israelense Ilan Pappé, autor do livro « Le nettoyage ethnique de la Palestine » (Ed. Fayard) resume :

« No fim de 1947, a Palestina tinha dois milhões de habitantes : um terço de judeus, dois terços de árabes. A resolução 181, da ONU, definiu a partilha da Palestina em dois Estados : um deve ser habitado quase exclusivamente por árabes. No outro, os judeus seriam ligeiramente majoritários.

Um ano mais tarde, foi um Estado com uma forte maioria judaica, Israel, que ocupou 78% da Palestina mandatária (do antigo mandato britânico). Mais de 500 vilarejos foram destruídos, diversas cidades perderam quase toda a população árabe (que foi expulsa). E 800 mil árabes palestinos originários dos territórios que passaram a fazer parte de Israel passaram a viver em campos de refugiados fora das fronteiras israelenses.

Segundo a historiografia israelense tradicional (official), esta situação seria a resultante imprevisível, involontária, das situações imprevisíveis de um conflito armado: a « primeira guerra árabe-israelense ».

Mas Ilan Pappé dá uma explicação diferente ao “imprevisível” e “involuntário ». A partir de arquivos, de diários pessoais, de testemunhas diretas, ele reconstitui em detalhes o que se passou realmente no final de 1947 e em 1948, cidade por cidade, aldeia por aldeia. O que ele relata é um trabalho, sistemático, de expulsão e de destruição: uma « limpeza étnica » da Palestina.

Em apenas alguns meses, embalados por sua superioridade militar, pelo acordo secreto que assinaram com o rei da Jordânia, pela passividade cúmplice dos soldados britânicos e pela inação da ONU, os dirigentes do movimento sionista organizaram a « transferência » da população pela violência e intimidação, de uma população árabe-palestina pacífica, sem defesa, abandonada por todos.

A tentativa de resolução do problema dos refugiados palestinos que enchem os campos de refugiados no Líbano e na Jordânia é uma das pedras angulares de qualquer tentativa de paz na região.

(Ibraheem Abu Mustafa/Reuters)

Um israelense acima de qualquer suspeita, Avraham Burg, diz :

« Os israelenses são insensíveis aos traumatismos dos palestinos. Os dirigentes israelenses nunca aceitaram nossa responsabilidade na situação dos refugiados palestinos. Devemos reconhecer o grande traumatismo deles de 1948, o exílio, e eles devem reconhecer nosso traumatismo, o holocausto. »

Ilan Pappé escreve em seu livro (A limpeza étnica da Palestina) que « continuar a luta contra a negação do crime é um imperativo moral ». Ele diz que o livro é seu « J’Accuse », o texto que Émile Zola escreveu, em 1898, para defender o capitão Dreyfus, judeu acusado de traição à pátria num processo com conotação anti-semita.

« Eu acuso, mas pertenço também à sociedade que é condenada neste livro », escreve Ilan Pappé na página 15.

A limpeza étnica de que os palestinos foram vítimas tem um nome, Nakba, que significa catástrofe em árabe.

Povo sem Estado

O conflito Israel-Palestina, que já dura sete décadas, opõe um povo sem Estado (os palestinos) a « um gueto super-armado » (Rony Brauman, pag.122 do livro « Anti-semitismo, a intolerável chantagem »).

O conflito é fruto de uma história de limpeza étnica de que foram vítimas os habitantes da Palestina. A região fazia parte do Império Otomano, antes de passar ao mandato britânico depois da Primeira Guerra Mundial.

Em 1916, o Acordo Sykes-Picot, assinado secretamente entre a Inglaterra e a França, enquanto a Primeira Guerra Mundial incendiava a Europa, dividiu o Oriente Médio segundo o interesse das duas grandes potências ocidentais, redesenhando o mapa da região com o desmonte do Império Otomano.

Esse acordo foi avalizado pelo império russo e pelo reino da Itália. Esse acordo secreto só foi revelado ao grande público em 23 de novembro de 1917 num artigo dos jornais Izvestia e do Pravda (um mês depois da Revolução Comunista) e depois por uma reportagem do Manchester Guardian.

Esse acordo “determinou a história contemporânea da região”, segundo Régis Morelon, dominicano francês e matemático.

Um ano depois do acordo Sykes-Picot, em 2 de dezembro de 1917, o ministro das Relações Exteriores da Inglaterra, Lord Balfour, escreveu uma carta a Lord Rothschild, representante da comunidade judaica no país, informando que o governo de Sua Majestade via “favoravelmente o estabelecimento na Palestina de um lar nacional para o povo judeu e fará tudo para facilitar a realização desse projeto”.

Essa parte do documento, conhecido como “Declaração Balfour”, foi cumprida. A segunda parte que dizia : “fica claro que nada será feito que prejudique os direitos civis e religiosos das comunidades não judaicas existentes”, até hoje não foi resolvida.

Em entrevista que me deu no centenário da Declaração Balfour, em 2017, publicada na Carta Capital, o dominicano Régis Morelon comentou a carta de Lord Balfour : « Foi um escândalo que tenham roubado a terra dos palestinos pela vontade de alguém que estava na Inglaterra. Havia um dominicano na Palestina, Antonin Jaussen, amigo dos beduínos que se pronunciou totalmente contra a criação do “lar judaico” em terras dos palestinos. Ele era arqueólogo, foi nômade entre 1905 e 1910, depois esteve na Escola Bíblica de Jerusalém. Jaussen era malvisto pelos ingleses e viu-se obrigado a deixar a Palestina. Fundou a Casa Dominicana do Cairo, que se tornou depois a sede do Instituto Dominicano de Estudos Orientais (Ideo).

Morelon continua : « Quando houve o acordo secreto Sykes-Picot, em 1916, entre França e Inglaterra, esta se outorgou a Palestina para justamente realizar o sonho sionista. O acordo Sykes-Picot foi uma catástrofe, é dele que decorre todo o desequilíbrio do Oriente Médio de hoje. O que é interessante é que tudo não parecia ainda muito claro para os judeus que estavam na Palestina e por isso eles realizaram atentados terroristas contra árabes e ingleses durante o mandato britânico (1920-1948). Porque para os sionistas o processo de criação de Israel não avançava suficientemente depressa. Existe um excelente livro, muito documentado, do historiador Henry Laurens, La Question de Palestine, em cinco tomos, que nos esclarece perfeitamente a história da região. As grandes potências se opuseram às elites locais para fazer a partilha do petróleo da região ».

 Ocupação de 1967

A ocupação colonial que o povo palestino vive hoje, e que se acentua a cada dia, data de 1967 quando, depois da vitória na Guerra dos Seis Dias, Israel ocupou Jerusalém Leste e parte da Cisjordânia.

Na guerra dos Seis Dias, Israel enfrentou o Egito, a Jordânia e a Síria.

Em 30 de julho de 1980, a Knesset proclamou Jerusalém capital « una e indivisível » de Israel .

Em 1988, Yasser Arafat proclamou o Estado Palestino e Jerusalém-Leste como capital desse Estado Palestino. Hoje, segundo Leila Shahid, não se pode mais falar de Jerusalém Leste como capital do Estado Palestino. Essa realidade se tornou totalmente inviável.

Em 14 de maio de 2018, data dos 70 anos da criação de Israel, Trump transferiu a Embaixada Americana de Tel Aviv a Jerusalém.

« As bases físicas, econômicas e humanas de um Estado palestino estão em vias de desaparecimento. O processo sistemático de colonização é um rolo compressor que não corresponde em nada à imagem que se tem do exterior », dizia ao jornal L’Humanité em 2008 o escritor Régis Debray.

Bomba atômica

O confronto entre israelenses e palestinos é totalmente assimétrico como assinalam especialistas : de um lado, Israel, o exército mais poderoso do Oriente Médio, armado e financiado pelos Estados Unidos. Além de tudo, Israel tem a bomba atômica.

Do outro lado, um povo que não tem nem Estado nem Forças Armadas, não tem soberania sobre seu território, não controla seu espaço aéreo, nem suas fronteiras terrestres ou marítimas.

Por falar na bomba atômica, em seu livro « À tombeau ouvert-La crise de la société israélienne » (Em toda velocidade-A crise da sociedade israelense), Michel Warschawski conta que o jornalista americano Seymor Hersh, ganhador de um prêmio Pulitzer, chama o programa nuclear israelense de « Opção Sansão ». « Desde a criação do Estado de Israel, alguns de seus dirigentes, entre eles David Ben Gourion e Ernst David Bergmann – cientista pouco conhecido e pai da bomba atômica israelense – estavam determinados a se proteger de qualquer outro inimigo que ameaçasse com novo holocausto. Assim como na Bíblia Sansão derrubou as colunas do Templo e provocou sua própria morte ao mesmo tempo que a de seus inimigos, Israel está pronto a destruir-se juntamente com os que querem sua destruição. A próxima guerra no Oriente Médio pode ser uma guerra nuclear. »

Hersh escreveu isto em 1991.

A demografia

Mas Israel não tem supremacia populacional em todo o território da antiga Palestina, apesar de suas leis garantirem a supremacia judaica e uma lei de 2018 declarar que “Israel é o Estado-nação do povo judeu”, o que, segundo comentaristas, institucionaliza o regime de apartheid que cria duas categorias de cidadãos : os judeus, com todos os direitos, e os outros.

Se somarmos a Cisjordânia e Gaza a população palestina é de 5 milhões e cem mil habitantes (3 milhões e 100 mil na Cisjordânia e Jerusalém Leste e 2 milhões na Faixa de Gaxa).

A população total de Israel é de 9 milhões e 300 mil habitantes (dados de fevereiro de 2021). Desse total, 6 milhões e 800 mil são judeus e cerca de 20% são palestinos, com cidadania israelense. O governo os denomina de « árabes israelenses ». Esses palestinos israelenses somados aos de Gaza e da Cisjordânia representam cerca de 7 milhões 530 mill pessoas, quase um milhão a mais que os israelenses judeus.

 Esses números explicam a obsessão da extrema-direita israelense pela demografia e pela necessidade de incentivar a imiigração de judeus. Os ultra-ortodoxos judeus têm famílias numerosas para tentar resolver o que para eles é um grave problema que se desenha no futuro.

Por ser um conflito intermitente, há quem o qualifique como uma guerra de « baixa intensidade », mantida a fogo brando entre um bombardeio israelense e outro, entre uma Intifada e outra.

Enquanto isso, os palestinos de Gaza e da Cisjordânia afundam na pobreza e numa vida sem horizonte. Em Gaza, tudo o que entra ou que sai é controlado por Israel, que mantém o território palestino governado pelo Hamas sob embargo total desde 2007, quando o Hamas ganhou a eleição.

Israel controla a entrada a conta-gotas de medicamentos, de alimentos, de produtos em geral, além de manter a população prisioneira no território milenar do qual os judeus se retiraram em 2005, por decisão de Ariel Sharon. Gaza é por tudo isso considerada uma « prisão a céu aberto ».

A divisão dos palestinos entre o Hamas e o Fatah é cirurgicamente administrada pelos israelenses que não querem ver o povo palestino unido na luta contra a colonização.

10 de maio – Dia de Jerusalém

A violência explodiu em Jerusalém no dia 10 de maio, quando os judeus comemoravam a anexação em 1967 da parte oriental da cidade. Os palestinos foram impedidos de se dirigir em massa à mesquita Al Aqsa no último dia do Ramadã para os muçulmanos e a juventude palestina fez uma resistência inesperada.

Inaugurava-se novo capítulo do conflito que vinha sendo cozinhado a fogo brando. O correspondente do Le Monde narrou o que se passou :

« Primeiramente, foi cortado o alto-falante da mesquita Al-Aqsa, em Jerusalém, o terceiro lugar mais sagrado do Islã. Barreiras foram colocadas na porta de Damasco para limitar o acesso à mesquita e foi dada ordem de atirar nos fiéis, além da ordem de bloquear os ônibus que vinham do Norte de Israel, para impedir os palestinos de celebrar, na Esplanada das Mesquitas, a Noite do Destino, a mais santa do Ramadã.

Quando os judeus supremacistas decidiram subir à Esplanada das Mesquitas e foram impedidos pela polícia, começou o enfrentamento entre palestinos, que se abrigavam na mesquita Al-Acqsa, e os policiais, que jogavam bombas dentro da mesquita. Não se poderia imaginar um cenário mais explosivo para todo o mundo muçulmano, que reagiu imediatamente com protestos.

 A TV francesa mostrou há alguns anos um documentário realizado na comunidade mais ortodoxa dos judeus israelenses no qual um homem dizia que o objetivo de seu povo é destruir a mesquita Al-Acqsa pois ali é o lugar onde eles vão « reconstruir o templo de Salomão ».

O lugar é nitroglicerina pura.

Netanyahou foi se entregando cada vez mais a essa comunidade radical e racista, que tem representantes poderosos na Knesset, o parlamento israelense.

« Faz décadas que Israel vem implantando um projeto de expropriação de casas na parte árabe de Jerusalém », comentou Charles Enderlin em entrevista à TV francesa. Para ele, a invisibilidade do problema palestino por anos foi uma vitória de Netanyahou.

Enderlin confirmou o que o Le Monde informara: « Tudo começou com a invasão pela polícia da Esplanada das Mesquitas, na hora da prece. Jogaram bombas dentro da mesquita Al-Acqsa. Os foguetes do Hamas foram a consequência disso. O partido supremacista Potência Judaica promete a expulsão dos árabes, os messiânicos israelenses sempre foram contra a criação de um Estado Palestino. »



Mas o mais importante é o jogo duplo de Israel, segundo Enderlin. Apesar de ter o controle absoluto da Faixa de Gaza, a começar pela fronteira terrestre e marítima, Israel deixa passar o dinheiro do Catar para o Hamas, que estoca e constrói foguetes, dando o argumento perfeito para Israel aparecer como vítima e justificar os bombardeios de Gaza, além da repressão na Cisjordânia, para « defender sua segurança ».

Depois de atacar os palestinos na mesquita e em Jerusalém Leste, Netanyahou e os militares foram para as TVs dizer ao mundo : « Israel tem o direito de se defender ».

Em 2011, entrevistei o embaixador Stéphane Hessel, de 93 anos, herói da Resistência, filho do casal que inspirou o romance "Jules et Jim" de Henri-Pierre Roché, no qual se baseou o filme de François Truffaut. O pai e a mãe de Hessel eram alemães, ele veio para a França aos 8 anos e foi naturalizado francês. O pai descendia de judeus convertidos ao protestantismo.

O engajamento do embaixador pela causa palestina foi motivo de uma polêmica, quando uma conferência sua na École Normale Supérieure, um dos templos da intelectualidade francesa, foi cancelada. Num manifesto publicado no jornal "Libération", o filósofo Alain Badiou apontou como origem do cancelamento pressões do Conselho Representativo das Instituições Judaicas da França (CRIF) e de intelectuais como os filósofos Bernard-Henri Lévy e Alain Finkielkraut, ambos defensores incondicionais de Israel.

O embaixador militou em todas as causas "subversivas" da França: a defesa dos sem-teto, dos imigrantes ilegais e da Palestina.
 
Hessel vibrou quando a diplomacia brasileira reconheceu o Estado Palestino, gesto logo imitado por outros países sul-americanos. E em 2011, me disse que Lula seria um excelente secretário-geral da ONU.

Membro da Resistência durante a Segunda Guerra Mundial, foi preso e torturado pela Gestapo, tendo sido enviado para os campos de concentração de Buchenwald e de Dora-Mittelbau.

Com o fim da guerra, participou da equipe de redatores da Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948) e participou do Tribunal Russel para a Palestina, que concluiu que na Guerra de Israel contra Gaza em 2014 houve incitação ao genocídio e crimes contra a humanidade.

Fronteiras movediças

Para avaliar a evolução da ocupação, basta comparar o que eram as fronteiras dos dois Estados criados pela ONU no Plano de Partilha da Palestina, em novembro de 1947 e ver a que foram reduzidas a Cisjordânia e Jerusalém Leste, a parte árabe da cidade. Parecem um queijo suiço, cheio de grandes buracos representados pelas colônias que não cessam de brotar da terra. São todas ilegais pelo Direito Internacional e, apesar disso, financiadas pelo Estado de Israel, que ignora as sucessivas resoluções da ONU.

« Israel se vê como um Estado acima das leis. Assistimos a uma limpeza étnica mais ou menos soft porque é a realidade sem ser nomeada. E essa limpeza étnica é ao mesmo tempo contínua e invisível », disse o escritor Régis Debray, em 2008, ao jornal L’Humanité, depois de uma viagem por diversas cidades de Israel-Palestina, que resultou no livro « Un candide en Terre Sainte ».

No mesmo jornal, a representante da Palestina na União Européia, Leila Shahid, afirmava que as Nações Unidas, por sua incapacidade de assumir seu papel, assim como a comunidade internacional, são totalmente cúmplices da ocupação.

Em maio deste ano, a deputada americana Alexandra Ocasio-Cortez também acusou Biden de ter escolhido o campo da colonização e seu país de cumplicidade com a ocupação israelense ao vetar todos os pedidos do Conselho de Segurança da ONU pelo cessar-fogo imediato.

Sem causar surpresa, Marine Le Pen e a direita republicana francesa declararam apoio a Israel.

Nenhuma surpresa quando sabemos que o Brasil de Bolsonaro é um aliado incondicional de Israel e de Netanyahou e do que ele representa.

Em entrevista de duas páginas ao Le Monde, publicada dia 22 de maio, a propósito de seu último livro (Le vivable et l’invivable, PUF) traduzido para o francês, co-escrito com Frédéric Worms, a filósofa Judith Butler falou a propósito de certas vidas que são invivíveis.

Não pude deixar de pensar nas vidas palestinas do gueto de Gaza ao ler uma de suas respostas :

« Quando uma pessoa é tratada como uma coisa morta, uma coisa morta mas no entanto viva, pode-se pensar que é melhor estar morto em vez de continuar a viver assim. É interessante constatar que, em certas condições extremas de sujeição, a morte não aparece sempre como uma saída. Os indivíduos esmagados podem encontrar ou não uma saída, mas continuar a viver pode se tornar uma forma de resistência, uma maneira de desafiar o « estado de morte » que lhes foi imposto. Ou então continuar a viver pode se tornar uma dupla condenação (peine). »

BALANÇO DA QUARTA GUERRA DE GAZA (Fonte : Le Monde)

11 dias de bombardeio israelense com bombas de fragmentação que destroem no subsolo toda infra-estrutura fizeram mais estragos que 7 semanas na guerra anterior (2014). Foram 248 mortos entre as quais 67 crianças - 1910 feridos

Em Israel foram 12 mortos e 355 feridos

Balanço de danos materiais segundo a ONU:

24 centros de saúde foram bombardeados por Israel em Gaza, 50 escolas, 3 estações de dessalinização de água que servem a 400 mil pessoas foram totalmente destruídas.

O Centro da Cruz Vermelha foi destruído.

O único laboratório de depistagem de Covid-19, a Clínica Al-Rimal, no centro de Gaza, foi também destruído.

Leneide Duarte-Plon é co-autora, com Clarisse Meireles, de « Um homem torturado, nos passos de frei Tito de Alencar » (Editora Civilização Brasileira, 2014). Em 2016, pela mesma editora, a autora lançou « A tortura como arma de guerra-Da Argélia ao Brasil : Como os militares franceses exportaram os esquadrões da morte e o terrorismo de Estado ». Ambos foram finalistas do Prêmio Jabuti. O segundo foi também finalista do Prêmio Biblioteca Nacional

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