Cartas do Mundo

Carta de Paris: Violência contra mulheres: real e simbólica

Num mundo patriarcal, elas têm dificuldade em se afirmar como artistas

06/09/2019 10:39

Mulheres protestam para denunciar o 100º feminicídio, em Paris, no dia 1º de setembro (AFP/Zakaria Abdelkafi)

Créditos da foto: Mulheres protestam para denunciar o 100º feminicídio, em Paris, no dia 1º de setembro (AFP/Zakaria Abdelkafi)

 
Por que o feminicídio ? Por que o patriarcado, que gera o machismo, se volta tão violentamente contra as mulheres ? Por que na maioria dos países os homens matam suas mulheres e companheiras, muitas vezes depois de anos de humilhação e violência ? Por que num país como a França 100 homens já tinham assassinado suas mulheres ou namoradas até o dia 3 de setembro deste ano ? Por que em muitos países, como o Egito, o código penal dá ao marido o poder de bater em sua mulher, desde que « com boas intenções », e mais da metade das mulheres casadas dizem ter sofrido violência conjugal ?

Me enche de esperança ver mulheres no mundo inteiro dizerem « basta » e se organizarem contra a violência sexista milenar, muitas vezes justificada nos tribunais como « crime passional ». Por que justificar um assassinato como um ato de amor-paixão ? E como essa justificativa podia levar tribunais brasileiros a relevar o crime ou diminuir penas ?

Me enche de esperança ver mulheres no mundo inteiro se organizarem em coletivos para denunciar crimes contra suas irmãs, amigas, vizinhas ou filhas. E enche-nos de esperança ver milhares de homens se associando a essa luta necessária e urgente.

O governo francês instalou esta semana uma comissão chamada « Grenelle des violences conjugales » para organizar um grande programa de combate à violência conjugal, que prevê assistência às mulheres para prevenir o irreparável.

A deputada e feminista Clémentine Autin, da France Insoumise, denunciou o grande estardalhaço de comunicação feito pelo governo Macron sem que o Estado se mostre determinado a gastar entre 500 milhões a 1 bilhão de euros para melhorar o atendimento a mulheres ameaçadas e investir na prevenção.

As associações de proteção às mulheres começam a se multiplicar para assegurar a gestão de locais seguros para as que estão mais ameaçadas poderem ser recebidas com seus filhos pequenos.

Elfriede Jelinek vê apenas migalhas

« Não vejo realmente melhora na condição feminina. O movimento « meetoo » deu um sinal forte, foi importante e não se volta atrás. Nisso sou otimista. Mas o desprezo pelas mulheres e por suas obras não mudará nunca. Podem até jogar migalhas de biscoito, de vez em quando, como para os cachorros, para que ela tenha algo a mastigar e fique tranquila ».

Quem pensa isso é a escritora austríaca Elfriede Jelinek falando ao Le Monde. Logo ela, que ganhou do mundo dos homens muito mais do que migalhas de biscoito : foi agraciada com o prêmio Nobel de Literatura de 2004.

Outra mulher a receber um Nobel de Literatura, a americana Toni Morrison, falecida este ano, é mais emblemática : foi a primeira mulher negra a ganhar este prêmio, em 1993.

Esse desprezo pelas mulheres e suas obras é uma constante.

Ele é responsável por assassinatos simbólicos, mais sutis e que passam despercebidos. Nas artes, na literatura, na política, as mulheres sempre tiveram mais dificuldade de se afirmar. Tendo o mesmo talento e produzindo obras tão importantes quanto as de seus pares do sexo masculino, quantas não foram relegadas ao ostracismo simplesmente por serem mulheres num mundo feito por e para os homens ? Muitas delas tiveram a chance de conviver com homens talentosos que simplesmente brilharam e as deixaram na sombra, dentro da lógica do funcionamento do mundo.

Foi o caso de Berthe Morisot e de Dora Maar.

Figura central do impressionismo, Berthe Morisot foi a única mulher do grupo de artistas geniais que fundaram esse movimento artístico na França. Conviveu com todos os grandes artistas de sua época, que a respeitaram e reconheceram seu talento. Mas sua obra é muito menos conhecida que a de Édouard Manet, seu cunhado, irmão de seu marido. Os maravilhosos portraits de mulheres, de crianças, as marinas e os jardins de Berthe Morisot não têm nada a invejar a seus contemporâneos como Manet, Monet, Renoir, Degas ou Bonnard.

De Berthe, a maioria das pessoas que conhecem bem a obra de Manet viram alguns retratos em grupo ou individuais. Sua obra de artista é menos conhecida que seus retratos pintados por Manet.

« O que pode pintar uma mulher que é uma grande artista numa sociedade que não quer que as mulheres sejam artistas ? » Esta interrogação iniciava a reportagem de Libération sobre a magnífica exposição dedicada à artista no Musée d’Orsay, que termina no fim de setembro.

O grande problema de Berthe Morisot foi ser uma mulher num mundo feito por e para os homens. Uma frase revela o quanto ela tinha consciência disso : « Não creio que um homem tenha jamais tratado uma mulher de igual a igual e é tudo o que quero porque sei que valho tanto quanto eles ».

Berthe Morisot fundou com Claude Monet, Auguste Renoir, Alfred Sisley, Camille Pissarro e Edgar Degas o grupo de vanguarda « Artistas Anônimos Associados » que depois se tornou « Sociedade anônima dos artistas pintores, escultores e gravadores ». Na primeira exposição dos artistas impressionistas, em 1874, Berthe Morisot era a única mulher.

Quanto a Dora Maar, o Centre Georges Pompidou resolveu este ano fazer justiça à grande fotógrafa e artista de talento excepcional que passou à história da arte como a musa de Picasso, retratada em mais de uma centena de telas do amante, mestre absoluto da arte do século XX. Muita gente a conhece apenas como autora das fotos que revelam o avanço progressivo do monumental e genial « Guernica », de Picasso.

Na exposição descobri uma grande artista. Seus belos quadros abstratos são a prova de seu imenso talento.

Mas Dora Maar errou duas vezes : por ser mulher num universo quase exclusivamente masculino e por estar próxima demais de outro artista cuja luz ofuscou sua obra.



Conteúdo Relacionado