Cartas do Mundo

Carta de Paris: Lula em Paris

Hollande, Sarkozy, Piketty e Mélenchon tiveram encontros com o político mais popular da América Latina, com legado elogiado até pelo Papa

05/03/2020 11:01

Lula discursa ao receber prêmio em Paris (Reprodução/Twitter Instituto Lula)

Créditos da foto: Lula discursa ao receber prêmio em Paris (Reprodução/Twitter Instituto Lula)

 
A maratona pública do ex-presidente Lula – que veio a Paris para a cerimônia de recepção do título de cidadão honorário da cidade – foi fechada com chave de ouro no Festival Lula Livre, no Théâtre du Soleil, terça-feira, 3 de março. O encontro reuniu artistas, políticos franceses e militantes franceses e brasileiros, que continuam engajados na defesa da inocência de Lula e da democracia no Brasil.

“Nós precisamos apostar que é possível recuperar o humanismo e a solidariedade. Não devemos aceitar sermos apenas um algoritmo”, disse Lula em seu discurso no qual expressou sua preocupação com a desigualdade crescente no mundo. Muitos franceses se disseram impressionados com sua maneira franca e direta de tratar temas geopolíticos complexos.

Em três discursos públicos em Paris, Lula explicou os ataques à soberania brasileira com o envolvimento do Departamento de Estado americano na Lava Jato e a total parcialidade do juiz Sérgio Moro, demonstrada amplamente pelas reportagens do site Intercept. Ele lembrou que a descoberta do pré-sal despertou a cobiça dos Estados Unidos, que no século XXI vêm fazendo guerras e fomentando golpes de Estado para se apropriar do petróleo em diversas regiões do mundo.

O festival Lula Livre foi organizado pelos coletivos internacionais que fizeram a defesa da inocência e liberdade do ex-presidente. O evento também marcou o lançamento do livro “La Vérité Vaincra”, edição francesa do livro de Lula, “A Verdade Vencerá”, com prefácio de Dilma Rousseff. A atriz Marina Foïs leu uma das milhares de cartas que Lula recebeu na prisão, ColetivA Ocupação realizou um protesto político e Agnès Jaoui e Helena Noguerra cantaram « Samba em Prelúdio », de Vinicius de Moraes.

No discurso de abertura, a historiadora francesa Maud Chirio frisou que o Festival Lula Livre deverá entrar para a história da resistência brasileira. E relembrou outra soirée parisiense histórica, o Meeting de solidarite%u001 avec le peuple bre%u001silien en lutte (Comi%u001cio de solidariedade com a luta do povo brasileiro). Foi em Paris, em janeiro de 1970, quando o filósofo Jean-Paul Sartre na tribuna da Salle de la Mutualité denunciou, diante de centenas de pessoas, as torturas do regime ditatorial do Brasil, que poucos meses antes executara Carlos Marighella e mantinha na prisão sob tortura os frades dominicanos próximos da Ação Libertadora Nacional. Naquele ato de 1970 foi oficializado o Front Brésilien d’Information (FBI), que teve grande importância para os exilados da ditadura.

Lula veio a Paris acompanhado por Fernando Haddad, Dilma Rousseff e por sua namorada, a socióloga Rosângela Silva. Dilma Rousseff e Haddad fizeram discursos muito aplaudidos em dois dos três encontros públicos com o ex-presidente.

Em seu pequeno discurso no Théâtre du Soleil, Fernando Haddad analisou o impeachment como um golpe parlamentar, explicou os meandros da prisão política do presidente Lula, seu impedimento de participar da eleição presidencial e, finalmente, a grave situação do Brasil entregue a um governo neofascista.

« Deve haver cotovelos de molho a esta hora, de gente que é residente em Paris mas não é cidadão honorário », brincou Haddad.

Os brasileiros entenderam em quem ele pensava.

Com Mandela e o Dalai Lama

Ao receber o título de cidadão honorário de Paris, Lula passou a fazer parte de uma lista restrita de homenageados de prestígio como Nelson Mandela e o Dalai Lama. Desde sua criação em 2001, o título foi concedido a apenas 17 pessoas que se destacaram na defesa dos direitos humanos.

 Segundo brasileiro a receber a honraria – antes dele somente o cacique Raoni fora agraciado – o presidente Lula atraiu dezenas de jornalistas e centenas de admiradores ao salão nobre do Hôtel de Ville, sede da prefeitura de Paris onde recebeu o titulo da prefeita Anne Hidalgo, na segunda-feira, 2 de março. A homenagem fora justificada por um texto que frisava o engajamento do ex-presidente « na redução das desigualdades econômicas e sociais no Brasil e na luta contra a discriminação racial ».

Lula foi distinguido com o título em 3 de outubro de 2019, por decisão do Conselho de Paris, a Câmara dos Vereadores da cidade, quando estava na prisão em Curitiba. Como Nelson Mandela, Taslima Nasreen e Shirin Ebadi, o ex-presidente brasileiro era considerado um perseguido político, que não teve direito a um processo justo.

Em seu discurso no Hôtel de Ville, a prefeita de Paris, Anne Hidalgo lembrou que, em encontros com a ex-presidente Dilma Rousseff, fora informada dos interesses que se escondiam por trás do seu impeachment e da prisão política do ex-presidente Lula, para impedi-lo de ser eleito num pleito em que era favorito. Hidalgo lembrou o poeta Victor Hugo que escreveu : « C’est par la fraternité qu’on sauve la liberté » (É pela fraternidade que salvamos a liberdade).

Antes de começar seu discurso de agradecimento, o presidente Lula explicou por que optou por se render à Polícia Federal, em vez de procurar asilo numa embaixada estrangeira. E confirmou, mais uma vez, sua determinação em provar sua inocência, dizendo que não aceitou trocar sua dignidade pela liberdade condicional proposta. « Um inocente não aceita fazer de sua casa uma prisão ».

Aplaudidíssimo, o discurso foi muitas vezes interrompido por militantes que cantavam « Olê, olê, olá, Lula, Lula ».

A tournée parisiense do ex-presidente deve ter causado muita inveja, comentava-se no salão.

Em encontros privados, Lula foi recebido pelos ex-presidentes François Hollande e Nicolas Sarkozy, pelo líder do partido de extrema-esquerda « La France Insoumise », Jean-Luc Mélenchon, e pelo economista Thomas Piketty, autor do best-seller mundial « Le Capital au XXIe siècle ». Com eles, Lula debateu a crescente desigualdade no mundo e o combate à fome. Sarkozy se disse preocupado com as ameaças à democracia no Brasil e com o avanço da extrema-direita.

Nenhum encontro com Emmanuel Macron foi solicitado pela comitiva do presidente Lula nem proposto pelo Palácio do Eliseu.

 

Defesa da política

Após a solenidade no Hôtel de Ville, Lula, Haddad e Dilma Rousseff foram diretamente para o comício pela candidatura de Anne Hidalgo à reeleição, no Théâtre du Gymnase. Falando em português, Fernando Haddad, que conhece a prefeita desde o tempo em que foi prefeito de São Paulo e foi apresentado por Lula como o melhor ministro da educação que o Brasil já teve, elogiou a gestão socialista e ecologista de Hidalgo e fez questão de terminar em francês : « Eu não sou, ainda, presidente do Brasil mas sou presidente do fan-club de Anne Hidalgo ».

Discursando depois de Dilma e Haddad, Lula empolgou a sala formada majoritariamente por eleitores parisienses, que o interromperam para aplausos muitas vezes. Ele informou que no Brasil, os aposentados já foram penalizados com uma lei de reforma da Previdência. E explicou que a reforma trabalhista, aprovada depois do golpe, retirou direitos adquiridos pelos trabalhadores durante as lutas do século XX.

« No mundo todo, os mais ricos continuam pagando relativamente menos impostos que os mais pobres », ressaltou sob aplausos. Lula disse não entender por que os mortos pelo coronavírus comovem e preocupam tanto enquanto os mortos de fome e as pessoas que dormem sem terem se alimentado não chegam a preocupar muita gente.

Lula explicou o processo que levou a extrema-direita ao poder, com a disseminação de fake news e uma campanha de ódio para diabolizar o PT e os políticos em geral. O ex-presidente defendeu a política como uma atividade nobre e essencial para mediar conflitos, defender o interesse geral e lutar pelos mais frágeis, pelos que não têm voz. E fez uma verdadeira profissão de fé no Estado forte, único meio de governar pelo bem comum e pela igualdade social.



« Alguém já viu empresário pensando em outra coisa senão em seu próprio lucro ? », perguntou.

O ex-presidente criticou as reformas neoliberais que atacam o bolso dos aposentados e dos mais frágeis no mundo inteiro. Atacou duramente a precariedade no trabalho criada no Brasil, onde o trabalhador sem carteira e sem nenhum direito é convidado a se considerar um auto-empreendedor.

Ao criticar as leis do neoliberalismo mundial, Lula podia também estar pensando na reforma das aposentadorias, que levou milhares de franceses às ruas durante mais de dois meses. A reforma acabou passando por decreto.

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva se encontrou com o economista Thomas Piketty em Paris, na França - Ricardo Stuckert/Reprodução

Agradecendo o apoio dos três brasileiros ilustres, Anne Hidalgo defendeu sua gestão à frente de Paris, a inclusão social, sua política ecológica para a cidade e citou o filósofo italiano Norberto Bobbio : « A igualdade é a estrela polar da esquerda ».

A presença dos três políticos brasileiros no seu comício valeu a Hidalgo muitas críticas de rivais de outros partidos que a acusaram de oportunismo por usar a viagem de Lula e seu prestígio, na campanha pela reeleição.

De Paris, Lula seguiu para Genebra, onde será recebido no Conselho Mundial de Igrejas e para Berlim, onde terá encontros com políticos e sindicalistas.

Paris, centro da resistência democrática

Desde 2016, a capital francesa se transformou na vanguarda da resistência ao golpe, que destruiu a frágil democracia do Brasil e estuprou a Constituição de 1988, afastando a presidente sem crime de responsabilidade.



A cidade é hoje um centro dinâmico de defesa da democracia brasileira com uma diversificada agenda de conferências e debates com intelectuais brasileiros e franceses. Um dos mais ativos grupos de defesa democrática é o RED-Brasil (Rede Européia pela Democracia no Brasil).

Por iniciativa da RED-Br, a prefeitura inaugurou no ano passado o Jardin Marielle Franco, ao lado da Gare de l’Est, na presença de autoridades da cidade, de intelectuais e jornalistas, além do pai, da mãe e da filha de Marielle. Poucos dias depois a Associação « Autres Brésils » realizou o festival de documentários « Brésil en Mouvements », com uma programação excepcional que incluía sessões de filmes e debates.

Como na época de Hemingway, Paris continua uma festa.

A democracia e os brasileiros agradecem.

Leneide Duarte-Plon é co-autora, com Clarisse Meireles de Um homem torturado, nos passos de frei Tito de Alencar (Editora Civilização Brasileira, 2014). Em 2016, pela mesma editora, a autora lançou « A tortura como arma de guerra-Da Argélia ao Brasil : Como os militares franceses exportaram os esquadrões da morte e o terrorismo de Estado ». Ambos foram finalistas do Prêmio Jabuti.

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