Cartas do Mundo

Carta de Paris: Lula na Europa: homenagens a um estadista

Em Paris, ele discursou na Sciences Po, teve honras de chefe de Estado no Eliseu e recebeu o ''Prix du Courage Politique 2021''

24/11/2021 10:30

(Ricardo Stuckert/Instituto Lula)

Créditos da foto: (Ricardo Stuckert/Instituto Lula)

 
Foi mais que uma viagem.

Foi um verdadeiro revival, uma reedição do tempo em que Barack Obama o apontava dizendo: “Esse é o cara” (This is the guy).

De um tempo que, em visita oficial à Inglaterra, no Palácio de Buckingham, o descontraído presidente brasileiro fazia gargalhar a rainha Elisabeth.

Aplaudido de pé no evento « Juntos durante a crise para uma nova agenda progressista », que reuniu líderes da Europa e da América Latina no Parlamento Europeu, o presidente Lula entusiasmou os presentes por suas propostas em defesa da democracia e da cooperação mundial na preservação do meio ambiente e no combate às desigualdades e à fome.

« O mundo precisa de paz e não de guerras, o mundo precisa de livros e não de armas, o mundo precisa de amor e não de ódio », resumiu, encerrando seu discurso no Parlamento Europeu, em Bruxelas.

No Parlamento Europeu, o maior líder da esquerda latinoamericana deu uma entrevista coletiva à imprensa européia antes de partir para Paris, sempre acompanhado do ex-ministro Celso Amorim, das Relações Exteriores (governo Lula), e de Aloisio Mercadante, ministro da Casa Civil e da Educação (governo Dilma Rousseff).

Bruxelas, Berlim, Paris et Madri foram as capitais visitadas pelo ex-presidente brasileiro. Em Berlim, Lula reuniu-se, entre outros, com Olaf Scholz, o sucessor de Angela Merkel.

Doutor Lula

No Institut d’Études Politiques de Paris, a famosíssima Sciences Po, da qual é Doutor Honoris Causa desde 2011 (o primeiro latino-americano a receber esse título), o presidente Lula estava em casa. A Sciences Po é uma das escolas mais prestigiosas da França, na qual se formaram Jacques Chirac e Emmanuel Macron.

A conferência do Doutor honoris causa, como foi tratado pelo diretor da Sciences Po, Olivier Dabenne, tinha como título “Quelle place pour le Brésil dans le monde de demain ». Dabenne constatou que o Brasil está isolado internacionalmente e que o mundo precisa de um Brasil forte.

Descontraído, o ex-presidente fez um belo discurso dirigindo-se aos estudantes brasileiros e franceses que foram ouvi-lo, na presença de professores e personalidades brasileiras e francesas. Marcia Tiburi, escritora e ex-candidata do. PT ao governo do Rio de Janeiro, era uma das convidadas do evento.

O presidente Lula explicou porque não se refugiou em uma embaixada para evitar a prisão em 2018 : « Eu não queria ver nos jornais minha foto com a legenda ‘corrupto fugitivo ‘ » .

Preferiu enfrentar a batalha. « Foram 5 anos de luta pela verdade », afirmou.

A história deu razão ao ex-presidente, que lutou na Justiça para ver anulados os processos que tentaram manchar sua honra e seu governo.

(Ricardo Stuckert/Instituto Lula)

A parcialidade da Lava Jato foi revelada pelo jornal « Le Monde », que fez este ano a mais aprofundada reportagem de investigação sobre o tema. Na matéria, fica provado o envolvimento da embaixada americana, do FBI e da CIA na Lava Jato. Este extraordinário trabalho jornalístico foi assinado pelo ex-correspondente no Brasil, Nicolas Bourcier, e pelo cientista político e especialista da América Latina, Gaspard Estrada.

Entusiasmado, o presidente Lula anunciou seu casamento no ano que vem e disse que sua candidatura vai ser decidida somente em 2022 mas que ele está pronto para esse novo desafio. « É o povo brasileiro que vai democraticamente reconstruir o Brasil. »

Aos jovens que o ouviam na Sciences Po o ex-presidente lembrou que no seu governo a educação passou a ser vista como investimento e não gasto.

« O Brasil foi o último país das Américas a fazer sua independência, foi o último a abolir a escravidão e só foi ter uma universidade em 1920, quando o rei da Bélgica visitou o país e foi criada a Universidade do Rio de Janeiro para poderem lhe outorgar o título de Doutor Honoris Causa. Não se preocuparam com a educação no Brasil. Um dos ministros da educação chegou a dizer que quem ia resolver o problema da educação era o mercado”.

“O atual governo colocou o Brasil de costas para o mundo. Ele persegue cientistas, professores, artistas e cientistas sociais. O país está sendo destruído e o povo brasileiro está sofrendo. O povo humilde não quer comprar arma, o povo humilde quer comprar comida. »

« Precisamos de uma eleição democrática para reconstruir o Brasil. O isolamento do Brasil é nocivo não somente para o Brasil mas para a comunidade das nações. Hoje ninguém invesge no Brasil porque ninguém gosta de mentiras. Só há investimentos quando o governo tem credibilidade. »

Prêmio Coragem Política

O presidente Lula lamentou que o Brasil – que chegou a ser a 6a economia do mundo e saiu do mapa da fome reconhecido pela ONU em 2012 – esteja « envenenado por fake news e com a oposição excluída dos meios de comunicação ».

« Atualmente são 116 milhões de brasileiros em estado de insegurança alimentar. É esse o país da ponte para o futuro, do impeachment de Dilma Rousseff, do afastamento do PT. O Brasil tem mais de 150 pedidos de impeachment que não são julgados, tem orçamento exclusivo para os deputados votarem leis que interessam ao governo », afirmou.

A revista « Politique Internationale » outorgou ao presidente Lula o « Prix du courage politique 2021 ». O ex-presidente foi escolhido por um júri por ter tirado 30 milhões de brasileiros da pobreza e promovido inclusão social. Segundo a revista, « ele encarna agora a esperança de grande parte dos brasileiros, depois de ter sofrido implacável perseguição judiciária em processos políticos. »

O « Prix du courage politique » foi anteriormente atribuído ao presidente egípcio Anwar Sadat pela paz selada com Israel (posteriormente, Sadat ganhou o Nobel da Paz), a Frederik de Klerk pelo fim do apartheid na África do Sul (posteriormente ele dividiu o Nobel da Paz com Nelson Mandela) e ao papa João Paulo II.

Lula está, portanto, em ótima companhia.

Sua coragem e sua ação também foram elogiadas dias depois pelo ex-primeiro-ministro Zapatero, na Espanha, ao recebê-lo no Parlamento em Madri.

« Como um chefe de Estado em exercício »

Diferentemente da imprensa brasileira, que não deu manchete sobre o ex-presidente, confirmando o jornalismo partidário – o famoso PIG (Partido da Imprensa Golpista) como o batizou o jornalista Paulo Henrique Amorim – a imprensa francesa, de direita como de esquerda, deu grande destaque à passagem de Lula por Paris e por outros países europeus.

No « Le Monde » de 19 de novembro, a matéria principal da página Internacional começava dizendo :

« Como um chefe de Estado em exercício. Foi assim que Luiz Inácio Lula da Silva, conhecido como Lula, foi recebido 17 de novembro por Emmanuel Macron. O líder carismático da esquerda brasileira foi recepcionado com todas as honras no Eliseu : o presidente francês não hesitou em convocar para a ocasião a guarda republicana e a descer os sete degraus do palácio para receber calorosamente seu convidado de alto nível ».

Um dos jornalistas franceses que cobriram a visita lembrou que o presidente francês havia tido uma divergência séria com Jair Bolsonaro no G7 de Biarritz, em 2019, a propósito das queimadas da Amazônia. Macron chegou a receber em Biarritz o cacique Raoni, inimigo declarado de Bolsonaro, acusado por ele de destruição da floresta e de conluio com invasores das terras dos povos da floresta.

Emmanuel Macron e Lula têm ambos críticas ao acordo comercial UE-Mercosul, concluído em 2019 mas ainda não ratificado. Macron tem restrições ao acordo por não impor respeito aos engajamentos climáticos. Lula faz restrições por julgar que o acordo contribui à desindustrialização do Brasil

O ex-presidente acha que o Brasil pode exportar soja, milho ou mineral de ferro mas, como disse na Sciences Po, o fato de permitir o acesso de empresas européia aos mercados públicos sul-americanos pode entravar a reindustrialização do Mercosul.

Para sair do impasse Lula propõe que depois de 2022, com eleições em diferentes países, « é preciso que nos reunamos para, sem nenhuma idéia preconcebida, renegociar um acordo equitável ».

O porta-voz do governo Macron, Gabriel Attal, informou que no encontro do ex-presidente com o atual hóspede do Eliseu (como os franceses costumam chamar seu presidente) foi abordada a crise sanitária, seu impacto social, seu impacto sanitário. Além disso, Macron e Lula discutiram problemas ambientais, a questão climática, a luta contra a desflorestação e o saldo da COP26.

« A situação política nacional no Brasil não foi tratada na visita do presidente Lula não havendo, pois, ingerência no debate político de seu país”, frisou Attal.

No mesmo dia em que foi recebido pelo presidente Macron, Lula encontrou-se com o dirigente do partido La France Insoumise, Jean-Luc Mélenchon, que o visitara quando esteve preso em Curitiba. Mélenchon é candidato à presidência da República em abril de 2022.

O presidente Lula encontrou-se também com a prefeita de Paris e candidata a presidência pelo Partido Socialista, Anne Hidalgo. Os vereadores de Paris outorgaram a Lula, há dois anos, o título de Cidadão Honorário da cidade de Paris, que a prefeita Hidalgo lhe entregou em cerimônia no Hôtel de Ville, em março de 2020.

Leneide Duarte-Plon é co-autora, com Clarisse Meireles, de « Um homem torturado, nos passos de frei Tito de Alencar » (Editora Civilização Brasileira, 2014). Em 2016, pela mesma editora, lançou « A tortura como arma de guerra-Da Argélia ao Brasil : Como os militares franceses exportaram os esquadrões da morte e o terrorismo de Estado ». Ambos foram finalistas do Prêmio Jabuti. O segundo foi também finalista do Prêmio Biblioteca Nacional



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