Cartas do Mundo

Carta de Paris: Neoliberalismo é incompatível com defesa da natureza

Demissão do ministro Nicolas Hulot prova que não dá para conciliar capitalismo e engajamento pelo meio ambiente

02/09/2018 11:43

 

 

«O capitalismo, único responsável pela exploração destruidora da natureza».

Esse artigo do filósofo Alain Badiou em página inteira do «Le Monde» de 28 de julho, em pleno verão europeu, dá pistas para se compreender a demissão na terça-feira 28 de agosto, do mais popular ministro de Emmanuel Macron, o respeitadíssimo ecologista Nicolas Hulot, ministro preferido dos franceses.

O filósofo foi profético sem falar nem de Hulot nem da política ambiental do governo Macron. Comunista, Badiou propõe que «não exista propriedade privada do que deve ser comum, a saber a produção de tudo o que é necessário à vida humana. Não mais famílias de herdeiros, não mais patrimônios concentrados. Não mais Estado separado, protetor das oligarquias. Não mais hierarquia dos diferentes tipos de trabalho. Não mais nações nem identidades fechadas e hostis. Uma organização coletiva de tudo o que tem um destino coletivo. Isso tem um belo nome: comunismo»

O ministro Hulot nunca se reivindicou comunista mas cansou-se de enfrentar, como Don Quixote, os poderosos lobbies do capitalismo globalizado, que envenena e destrói o planeta em nome de um desenvolvimentismo e extrativismo sem limites.

A nomeação de Hulot para o Ministério da Transição Ecológica e Solidária (belo nome para um ministério que está em oposição, por princípio, aos lobbies mais poderosos do planeta) foi a caução de seriedade no campo da ecologia do governo Macron.

Depois de pouco menos de um ano e meio no governo e algumas batalhas perdidas, o ministro Hulot anunciou sua demissão num dos programas de entrevistas matinais mais ouvidos do país, pegando de surpresa o presidente Macron, em viagem à Dinamarca, e seu primeiro-ministro Édouard Philippe. Nem a mulher de Hulot sabia que ele iria anunciar sua demissão, disse ele depois.

Cortejado pelos presidentes

Todos os presidentes, desde Jacques Chirac passando por Sarkozy e Hollande, haviam tentado cooptar o ecologista mais respeitado pelos franceses, atualmente com 63 anos, para demonstar apreço ao meio ambiente. Ele sempre recusou o posto de ministro.

Em 2007, pensou em se candidatar presidente, antes de desistir da ideia que voltou à tona em 2012, quando tentou a indicação pelo partido verde francês (Europe Écologie Les Verts). Perdeu a indicação para a juíza Eva Joly, que teve uma votação pífia.

Logo depois de eleito em 2012, François Hollande nomeou Nicolas Hulot «enviado especial da presidência para a proteção do planeta». Título pomposo que servia para preparar a posição da França na Conferência Internacional sobre o Clima-COP21, que se realizou em Paris em dezembro de 2015.

Para mostrar o quanto a defesa do meio ambiente e a proteção dos recursos do planeta interessam ao capitalismo, Donald Trump se retirou do acordo da COP21, que seu país tinha assinado em Paris. Bastante coerente com sua posição de negação do aquecimento global. O pior cego é aquele que não quer ver, diz o ditado.

A sedução de Emmanuel Macron foi eficaz e Nicolas Hulot – talvez  porque o aquecimento global e o desaparecimento de milhares de espécies não esperam belas promessas – aceitou o convite do presidente, que se dizia «nem de esquerda nem de direita», imaginando um programa de ação rápida e eficaz.

Sabemos todos que interesses Macron representa, exatamente os do capitalismo globalizado que vê nos ecologistas um impedimento a todo tipo de predação.

Ícone da ecologia

Nicolas Hulot na França é um ícone. Respeitado por todos por seu engajamento sincero e sua total dedicação à defesa da natureza e do meio ambiente, o ecologista ficou nacionalmente conhecido por um programa de TV chamado «Ushuaia», para o qual percorreu o mundo por mais de 15 anos provando a urgência de salvar o planeta de uma morte anunciada.

A famosa frase de Jacques Chirac, na «Cúpula da Terra», em Johannesburg, em 2002, «nossa casa está pegando fogo e nós estamos olhando para outro lado» é de autoria de Hulot, que Chirac encontrava uma vez por semana no Eliseu como conselheiro informal. O presidente dizia dele que «é a única pessoa que sabe do que está falando» para louvar o conhecimento de Hulot sobre o planeta e a catástrofe anunciada.

Nas nove páginas dedicadas a análises e aos bastidores da saída de Hulot, o jornal «Le Monde» lembrou no editorial a frase do ex-ministro que vai na direção do pensamento de Alain Badiou: «Como enfrentar seriamente as desordens do planeta se os governos se empenham em reanimar um modelo econômico que é a causa delas?»

No seu artigo, Cyril Dion – co-diretor do filme «Demain», com Mélanie Laurent, e autor do recém-lançado «Petit manuel de résistance contemporaine» - lembra o poder dos mais diversos lobbies e aponta as causas da urgência da luta: a mutação necessária para frear o aquecimento do planeta, pôr fim à destruição das florestas, ao massacre dos animais, à extinção das espécies, à exploração de grande número de seres humanos através do mundo e ao crescimento indecente das desigualdades é incompatível com o modelo neoliberal, consumista, fundado em um crescimento material infinito».

Considerado um «angustiado, pessimista ativo, obcecado pela consciência do risco que ameaça o planeta e da urgência em salvá-lo», Nicolas Hulot se convenceu que com o atual modelo de exploração da natureza seu papel de ministro não fazia mais sentido.

Sua popularidade subiu mais ainda. A de Macron despencou.

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