Cartas do Mundo

Carta de Paris: No Parlamento Europeu, direita volver

Na França, os ecologistas surgem como a terceira força política, depois dos partidos de Le Pen e Macron

03/06/2019 16:59

 

 

O filósofo francês Michel Serres – morto no dia 1° de junho, aos 88 anos – cunhou o termo «tanatocracia» para definir o poder mortal nas mãos dos humanos que podem tudo destruir, como nos informam os récentes relatórios científicos que alertam para a extinção de espécies e até mesmo da vida no planeta Terra.

Ao ler uma entrevista do filósofo, associei imediatamente o conceito de tanatocracia ao que o Brasil vive hoje: todas as ações e leis do novo governo vão no sentido da destruição da vida humana e da natureza. Seja na liberação de armas de fogo, na reforma da Previdência ou no desmatamento e na invasão de terras indígenas.

«Tanatocracia» me parece o termo ideal para definir um governo que faz da pulsão de morte a principal motivação de suas ações.

No velho continente, nas eleições de 26 de maio para o Parlamento Europeu o que se viu foi um nítido recuo da esquerda. Os sociais-democratas só brilharam em Portugal, Espanha, Holanda e Suécia. Os centristas liberais venceram na Dinamarca, Estônia e República Tcheca. Os conservadores se afirmaram em 11 países e na Grã Bretanha, França e Itália, os partidos de extrema-direita foram os mais votados.

Os políticos de extrema-direita se elegem ao Parlamento Europeu criticando a Europa na sua configuração atual. Mas a Europa que querem construir é o oposto de um continente democrático e progressista. O sonho de Nigel Farage, Marine Le Pen e Matteo Salvini é uma Europa com fronteiras rígidas para conter imigrantes, na maioria das vezes fabricados pelo antigo colonialismo europeu e pelas recentes guerras no Oriente Médio e na África.

Jovens levam os ecologistas ao terceiro lugar
Na França, a boa notícia que veio contrabalançar a vitória do partido de Marine Le Pen (Rassemblement National), ultrapassando de pouco o de Emmanuel Macron (La République en Marche), foi o surgimento do Partido Verde (Europe Écologie-Les Verts) como a terceira força política francesa no Parlamento Europeu, com um resultado que ultrapassou todas previsões. Foi a única força política de esquerda que teve mais de 10% dos votos (13,5).

As marchas pelo clima e contra o aquecimento global, que reuniram milhares de jovens pelas ruas de diversas cidades europeias este ano tiveram um impacto positivo levando às urnas uma faixa etária que em geral não se interessa em votar nas eleições europeias : os jovens entre 18-25 anos.

O que mostra que o problema ecológico vai passar a dominar o debate nos próximos anos. Esperemos que continue a crescer e que a comunidade internacional desperte para um ativismo cada vez maior a fim de impedir a destruição da maior biodiversidade do planeta, a Amazônia.

O líder do partido ecologista na França, Yannick Jadot, passou a pesar no debate nacional. Seu partido é a terceira força política francesa, mas os verdes alemães tiveram melhor resultado: são a segunda força política alemã no Parlamento europeu.

Em compensação, os deputados eurocéticos e eurofóbicos somados passam de 151 a 171, num total de 751 representantes dos países da União.

Na Itália, a Liga, partido de extrema-direita do ministro do Interior Matteo Salvini, cantou vitória. Seu score quase dobrou em relação ao resultado das eleições legislativas e o partido neofascista se afirmou como o primeiro partido da península. Salvini não evitou um lamentável «mélange de genres»: comemorou a vitória beijando um crucifixo e dizendo que foi Deus quem colocou a Liga no pódio como primeiro colocado.

Como não lembrar outros ridículos governantes do Sul do Equador que não hesitam em chamar Deus e Jesus Cristo como avalistas de seus atos políticos?

Tsunami
Os outros partidos da esquerda francesa – assim como o da direita republicana do Partido de Sarkozy (Les Républicains-LR) – foram esmagados pelo tsunami que representa o binômio Marine Le Pen-Emmanuel Macron, que repetiram o resultado do primeiro turno da eleição presidencial com a revanche de Le Pen, desta vez em primeiro lugar por pequena diferença. Humilhado pelo resultado pífio do partido que já governou a França, Laurent Wauquiez, presidente do LR, renunciou ao cargo abrindo uma crise.

La France Insoumise, liderado por Jean-Luc Mélenchon, o Partido Socialista, associado ao movimento Place Publique, o Générations, do ex-socialista e ex-candidato a presidente, Benoît Hamon e o Partido Comunista ficaram com resultados abaixo de 10% dos votos.

As esquerdas francesas não têm escolha : ou se unem numa grande frente popular pela democracia com justiça social e contra o capitalismo selvagem que pode inviabilizar a vida sobre a Terra ou serão esmagadas por Marine Le Pen e Emmanuel Macron.

Os partidos deles conseguem atrair antigos eleitores tanto dos partidos tradicionais da esquerda, como o Partido Comunista, quanto do centro e da direita republicana. Surpreendentemente, 38% das pessoas que participaram do movimento dos «gilets jaunes» escolheram o Rassemblement National de Marine Le Pen.

A batalha da eleição municipal (dos prefeitos de todas as cidades francesas) será no ano que vem. Se não conseguir superar a competição de egos, a esquerda pode ser novamente esmagada pelas duas grandes forças da paisagem política, ambas liberais. A de Marine Le Pen tem um passado ligado ao que há de mais execrável na história da França: a extrema-direita que defende o regime de Vichy e tem nostalgia do passado colonial do país.

A escritora e psicanalista Julia Kristeva terminava seu artigo publicado no «Le Monde» na véspera da eleição para o Parlamento Europeu ensejando que «diante do controle da política pela finança e pela hiperconexão, e contra a declinologia ambiente e a autodestruição ecológica, o espaço cultural europeu poderia ser uma resposta audaciosa. Talvez a única que leva a sério a complexidade da condição humana no seu conjunto, as lições de sua memória e os riscos de suas liberdades».

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