Cartas do Mundo

Carta de Paris: O incesto, bem guardado segredo de família

«La familia grande» quebra a omertà de um caso na alta burguesia francesa

15/01/2021 10:57

(Reprodução/rtbf.be/bit.ly/3nKd6Ab)

Créditos da foto: (Reprodução/rtbf.be/bit.ly/3nKd6Ab)

 

Engana-se quem pensa que o incesto viceja sobretudo nas classes populares. Dez por cento dos franceses declaram ter sido vítimas de violência sexual no seio da família. De todo tipo de família. De todas as classes.

Mas a maioria sofre em silêncio. A omertà imposta pelo medo é devastadora e destrói a família, segundo psiquiatras e juristas.

Um livro escrito como uma libertação pela jurista Camille Kouchner e lançado dia 7 de janeiro mostra o quanto o incesto é universal e pode acontecer em todo tipo de família, em qualquer meio sócio-econômico. Inclusive nas altas esferas de poder.

Camille Kouchner revela um incesto que despertou grande debate por envolver, como cúmplices da omertà, muitas pessoas conhecidas e respeitadas no meio político, jurídico e midiático.

O texto nasceu da necessidade de se libertar do silêncio, da culpa de proteger seu padrasto, um manipulador, um homem poderoso e influente no ambiente político-midiático da França.

A vítima era o irmão gêmeo de Camille, que lhe contou desde a idade de 14 anos, os abusos sexuais do padrasto. Mas o irmão lhe cobrou silêncio absoluto, para proteger a mãe, fragilizada com o suicídio de sua mãe pouco tempo antes.

Trinta anos depois, o livro de Camille Kouchner foi escrito com a permissão de « Victor », pseudônimo que ela deu ao irmão, que leu o manuscrito antes da publicação.

« La familia grande » ganhou as primeiras páginas dos grandes jornais franceses em reportagens que impactaram o mundo intelectual e político, onde circulavam os amigos do padrasto da autora, o constitucionalista e cientista político Olivier Duhamel.

O livro, escrito numa língua elegante, de frases curtas, sem nenhum voyeurisme, descreve um microcosmo, pequeno paraíso da « gauche caviar », no qual acontece um incesto repetido, cometido pelo padrasto sobre um garoto de 14 anos, no final dos anos 1980.

Somente em 2008, Camille teve a permissão do irmão para contar à mãe, Évelyne Pisier, jurista e professora de direito, irmã da atriz Marie-France Pisier. A reação de Évelyne, que tomou a defesa do marido e culpou os filhos de quererem separá-los, provocou um distanciamento imediato e definitivo dos três filhos e causou o esfriamento em sua relação de grande cumplicidade com a irmã, Marie-France.

Marie-France Pisier foi encontrada morta em sua piscina, no sul da França, em 2011. Chocada com o incesto, Marie-France se afastara da irmã e do cunhado, primo-irmão de seu marido.

Evelyne Pisier morreu em 2017. Nenhum filho estava com ela.

Evelyne Pisier (Facelly/SIPA)

Metástase

O incesto é como um câncer que dá metástase em toda a família, comparou um psiquiatra, citado por uma jornalista do « Le Monde ».

O pai e os irmãos da autora aprovaram plenamente sua decisão de escrever o livro, trinta anos depois do crime.

O pai de Camille e de seus dois irmãos é o ex-ministro da Saúde e das Relações Exteriores, Bernard Kouchner, médico, co-fundador da associação Médecins sans Frontières e Médecins du Monde. Em 2008, ao ser informado pela filha do incesto cometido pelo padrasto sobre seu filho, Bernard Kouchner ameaçou ''quebrar a cara'' do marido de sua ex-mulher. Foi impedido pelos gêmeos, que tinham medo pela saúde frágil da mãe, cujos pais tinham se suicidado na década de 1980, com dois anos de intervalo.

Na década de 1960, Evelyne vivera dois anos em Cuba, onde teve uma relação de amor com Fidel Castro. Como Bernard Kouchner, ela visitou a ilha com militantes da juventude comunista.

Uma semana depois de lançado, « La familia grande » já teve uma tiragem de 250 mil exemplares. A editora Seuil tinha previsto uma tiragem de 70 mil exemplares.

A única entrevista na televisão concedida por Camille Kouchner foi dada na quarta-feira, 13 de janeiro, ao programa « La grande librairie », apresentado por François Busnel, que dedicou todo o debate ao livro e a duas outras obras em torno do incesto e da prevenção do abuso sexual de menores.

Na entrevista, descobrimos em Camille Kouchner uma grande dignidade e inteligência, que emanam do próprio livro, que deverá, sem dúvida, reforçar o trabalho dos juristas de proteção da criança e do adolescente.

O silêncio do culpado

Dois dias antes da publicação do livro, Olivier Duhamel anunciou sua demissão de todas as funções que exercia e se afastou dos dois programas da televisão e da rádio. Nenhum jornal ou revista teve resposta aos pedidos de entrevista dirigidos a ele.

O cientista político, constitucionalista, ex-professor da prestigiosa Sciences Po, articulista na rádio Europe1 e no canal de TV LCI, é apontado por seus atos incestuosos somente no meio do livro, que desenha um quadro idílico de verões felizes numa grande casa de praia no sul da França, em Sanary. A casa era frequentada por intelectuas e políticos que formavam « la familia grande », defensores de uma esquerda libertária nos costumes e na política.

Amigos próximos teriam tido conhecimento do fato em épocas diferentes mas a maioria manteve o silêncio cúmplice. O que circulou em alguns meios restritos não impediu que o constitucionalista continuasse sua carreira de homem ligado ao poder político e midiático do país.

Entre outros títulos de prestígio, Olivier Duhamel, era presidente da Fondation Nationale de Sciences Politiques, presidente do clube de influência políca e econômica « Siècle », além de fundador, em 1977, da revista « Pouvoirs », que ele dirigiu até este mês, data da publicação do livro.

(Olivier Duhamel (Stephane de Sajutin/AFP)

O incesto é definido pelo Código Penal francês por uma lei de 2016 como “estupros ou agressões sexuais quando cometidos contra uma pessoa de menoridade por : 1°. Um ascendente. 2°. Um irmão, uma irmã, um tio, uma tia, um sobrinho ou uma sobrinha. 3°. O cônjuge, concubino de uma das pessoas mencionadas no 1° e 2° ou o parceiro ligado por um pacto civil de solidariedade (PACS) a uma das pessoas mencionadas no 1° e no 2°, se ele tem sobre o menor uma autoridade de direito ou de fato ».

Uma das associações de vítimas de incesto, Association Internationale des Victimes de l’Inceste (AIVI), que militou pela inclusão do crime de incesto no Código Penal defende o reconhecimento de um sofrimento específico para as vítimas e pretende que a lei torne este crime imprescritível. Hoje o crime prescreve vinte anos após a maioridade. Outros pretendem que a lei possa ser ampliada e punir os autores de incesto sobre maiores de 18 anos.

Leneide Duarte-Plon é co-autora, com Clarisse Meireles, de « Um homem torturado, nos passos de frei Tito de Alencar » (Editora Civilização Brasileira, 2014). Em 2016, pela mesma editora, a autora lançou « A tortura como arma de guerra-Da Argélia ao Brasil : Como os militares franceses exportaram os esquadrões da morte e o terrorismo de Estado ». Ambos foram finalistas do Prêmio Jabuti. O segundo foi também finalista do Prêmio Biblioteca Nacional

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