Cartas do Mundo

Carta de Paris: Paris, centro de resistência a Bolsonaro

Caravana Lula Livre e Cartas a Lula dão visibilidade na Europa à prisão política do ex-presidente

24/06/2019 14:58

(Reprodução/Le Monfort)

Créditos da foto: (Reprodução/Le Monfort)

 

Crescem em Paris as diferentes frentes de luta para denunciar o neofascismo que se instala no Brasil insidiosamente, depois da eleição de Bolsonaro.

Um coletivo internacional de juristas, advogados e de magistrados – com alguns dos mais respeitados nomes do direito na França como William Bourdon e Henri Leclerc – assinou um manifesto no « Le Monde » cujo título era a conclusão mais que óbvia depois das revelações de Glenn Greenwald : « O Supremo Tribunal Federal tem o dever de libertar Lula ».

Esta semana, dois acontecimentos importantes marcam a campanha pela liberdade do ex-presidente Lula : na terça-feira, dia 25, no Théâtre Monfort, serão lidas em francês cartas escritas por pessoas das mais diversas origens ao preso político mais famoso do mundo.

Por iniciativa da historiadora Maud Chirio e com mise-en-scène de Thomas Quillardet, as cartas escritas a Lula contam um ano da história o Brasil. « Avril-Avril/Lettres à Lula » leva ao palco franceses e brasileiros lendo trechos das cartas escolhidas por um grupo de historiadores, que já trabalham com esses arquivos há um ano, juntamente com o Instituto Lula. Os vídeos são de autoria de Felipe Galvon e Celso Costa.

Chico Buarque, Cecília Boal, Juliana Carneiro da Cunha, Maria de Medeiros, Ariane Mnouchkine, Anna Mouglalis, Camila Pitanga, Audrey Pulvar, Renata Sorrah, Marcia Tiburi e Jean Wyllys, entre outros, vão subir ao palco para dar voz a pessoas que falam a Lula através de suas cartas.

Como o clima no Brasil é de perseguição e ameaças, muitos dos que trabalham com as cartas preferem se manter anônimos, como explica Maud Chirio :

_ Foi o grupo Linhas de Luta, que criou um site com o mesmo nome que já disponibilizou cartas traduzidas para o francês, inglês e espanhol. São historiadores, uma francesa, um argentino e brasileiros. Alguns deles quiseram ficar anônimos pois, infelizmente, a universidade é um lugar onde afirmar uma identidade política ficou complicado.

A incansável professora de Direito Carol Proner participa na Europa de diversas frentes. Na semana passada, ela falou num colóquio internacional na Sciences Po, em Paris, intitulado « Le Droit contre l’État de Droit » (O Direito contra o Estado de Direito). Sua conferência se intitulava « O law-fare como ferramenta do neofascismo ». No mesmo colóquio o juiz brasileiro Rubens Casara falou sobre « O estado pós-democrático e personalidade autoritária : a ‘democracia antiliberal’ no Brasil ».

Em sua conferência, Carol Proner explicou que o « lawfare » designa uma guerra jurídica com fins políticos, « a via judiciária é utilizada como uma arma para eliminar um inimigo. »

Os leitores do « Le Monde » começam a ter uma informação mais precisa sobre o que se passou no Brasil. Carol Proner e Julia Neuenschwander assinaram dia 18 de junho um artigo cujo título resumia a operação Lava-Jato : « A justiça brasileira foi instrumentalizada com fins políticos ».

No contexto da avalanche de informações das reportagens de Glenn Greenwald, que apenas começaram a avançar como um tsunami, o mesmo « Le Monde » deu na semana passada, em duas páginas (com chamada de capa), uma entrevista com Chico Buarque, na qual ele falava « da cultura do ódio que se espalha pelo Brasil » e de sua decisão de se afastar por um tempo do país.

Em outras reportagens, o jornal resumiu as iniciativas dos diferentes grupos franco-brasileiros que trabalham na denúncia do neofascismo.

O RED-Br (Réseau Européen pour la Démocratie au Brésil), criado este ano e presidido por Silvia Capanema, é formado por professores universitários, intelectuais e artistas. Ele já obteve uma primeira grande vitória : conseguiu que a prefeitura de Paris aprovasse, por unanimidade, a criação de uma rua ou praça em homenagem a Marielle Franco. A praça será inaugurada em setembro.

Caravana Lula Livre na Europa

Organizada pelo « Comité Lula Libre », a Caravana Lula Livre parte de Paris dia 25 de junho e percorre três capitais européias emblemáticas para denunciar o processo político do ex-presidente.

Em Paris, sede da Unesco, o grupo começa o trabalho de informação em órgãos internacionais de direitos Humanos. Em Genebra, a Caravana será recebida no Alto Comissariado de Direitos Humanos, da ONU, na Organização Internacional do Trabalho e no Conselho Mundial de Igrejas. Em Estrasburgo, no Conselho da Europa, e em Bruxelas, no Parlamento Europeu.

O jornalista Breno Altman, membro do Comitê Internacional Lula Livre, fará parte da Caravana. Ele veio a Paris para falar na Bourse du Travail, onde fez duas palestras resumindo a situação de desmonte da democracia brasileira, desde o impeachment da presidenta Dilma Rousseff.

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