Cartas do Mundo

Carta de Paris: Pingos nos ii

Sociólogo português se equivoca ao dizer que o sistema de saúde francês, um dos melhores da Europa, foi privatizado

24/04/2020 10:05

 

 
Sempre considerei o sociólogo português Boaventura Sousa Santos uma pessoa bem informada, um intelectual respeitável.

Mas ele também pode se enganar redondamente, como aconteceu numa entrevista em vídeo que deu recentemente a um programa do MST.

O sociólogo afirmou que a França e a Itália tiveram um grande número de mortos do Covid19 « por terem privatizado o sistema de saúde ».

De onde ele tirou essa informação totalmente equivocada ?

Não vou me pronunciar sobre o sistema de saúde italiano, mas sei que ele « não foi totalmente privatizado ».

Quanto ao sistema de saúde francês – que conheço como paciente, como esposa de paciente e como jornalista – posso afirmar que ele é público, universal e de grande qualidade. Talvez Boaventura tenha se expressado de forma apressada para significar que os hospitais públicos na França passaram a ser dirigidos nas duas últimas décadas com um sistema de gestão influenciado pela lógica das empresas privadas. Excelentes livros foram escritos para criticar essa gestão « moderna » de hospitais públicos.

Segundo dados da Comissão Européia e da OCDE, publicados no jornal « Les Echos » no ano passado, a França gasta 11,3% do PIB em saúde pública, sendo o país que mais investe neste setor, juntamente com a Alemanha.

Apenas a Suécia, a Holanda, a Áustria e a Dinamarca gastam mais em saúde por habitante que a França. Como o PIB da Alemanha é maior que o francês, a despesa per capita também resulta mais elevada.

Alternativa à americanização da medicina

O sistema de saúde francês não é perfeito. Mas é considerado um dos melhores do planeta por médicos do mundo inteiro.

O economista Jean de Kervasdoué, especialista em economia da saúde, considera a medicina francesa de excelente qualidade e afirma que este modelo seria « a única alternativa efetiva à americanização da medicina mundial ». Segundo ele, os cirurgiões, os clínicos, a organização dos serviços de emergência à francesa (SAMU) e a organização da psiquiatria são referência no mundo. Em 1885, o neurologista Jean-Martin Charcot teve como aluno o jovem médico austríaco Sigmund Freud, em sua cátedra do Hôpital Pitié-Salpêtrière, na clínica de doenças do sistema nervoso mundialmente célébre.

No relatório « Saúde no Mundo em 2000 – Por um sistema de saúde mais eficaz », a Organização Muncial de Saúde apontou o sistema francês como o mais eficaz (performant) em termos de organização e realização de cuidados de saúde.

As políticas de austeridade orçamentária, no entanto, estão minando esse sistema há alguns anos, impondo cortes como se os gastos em saúde pudessem ser tratados como mera despesa e não pelo que representam : um investimento na preservação da vida e no bem-estar de seres humanos.

Dentro de hospitais parisienses

Passei os últimos dois anos acompanhando meu marido em diversos hospitais públicos parisienses em que ele foi internado. Posso dar um testemunho de quem conhece por dentro « l’hôpital », como os franceses se referem ao sistema de saúde público.

Quem determina onde o paciente vai ser internado, em caso de emergência, é um corpo médico altamente qualificado (do SAMU em comunicação com os médicos dos hospitais) e não um « plano de saúde privado ». O passaporte de entrada é a Carte Vitale, uma carteira que todos os franceses possuem para hospitalizações, exames, tratamentos médicos e remédios gratuitos, obtidos com receita, em qualquer farmácia.

Em todos os hospitais, entra-se e sai-se sem pagar nada.

Contrariamente aos hospitais privados. Numa internação de emergência no Hospital Americano, onde meu marido teve de ficar 3 noites, enquanto aguardava uma vaga num dos hospitais públicos, a conta elevou-se a quase 6 mil euros. Sem nenhuma intervenção cirúrgica, apenas acompanhamento médico, exames e medicamentos para a forte dor, causada por uma fratura de um osso no ombro, após uma queda.

Em todos os cinco hospitais públicos de Paris onde ele esteve internado ou tratado nesses últimos dois anos, seja para operações, transplante inclusive, exames ou para tratamentos mais ou menos longos, o atendimento é de excelente nível, mas o pessoal – médicos, enfermeiros e quadros administrativos – tem que lutar com a realidade dos cortes orçamentários de que foi vítima o hospital público nas últimas décadas. O número de leitos foi reduzido e houve diminuição no quadro de médicos, enfermeiros e auxiliares de enfermagem.

É inegável que apesar de sua reconhecida qualidade e eficiência, o sistema de saúde público francês pagou um preço elevado à lógica que vem dominando o pensamento político-econômico neoliberal do mundo ocidental nos últimos 30 anos.

De Chirac a Macron

Desde Chirac, os presidentes que o sucederam (tanto Sarkozy quanto Hollande, que vinha da esquerda mas fez um governo muito pouco socialista) tiveram como meta diminuir as despesas dos hospitais e institutos de pesquisa públicos. E impuseram uma gestão dos hospitais se inspirando das empresas privadas.

Macron – que passou a se dizer « de direita e de esquerda », depois de se definir como « nem de direita nem de esquerda – continuou a lógica neoliberal de « enxugar » despesas públicas, inclusive as da área da saúde.

Nas últimas décadas, a Europa foi uma boa aluna da cartilha neoliberal.

Desde o início dos anos 2000, a França suprimiu mais de 100 mil leitos de hospitais. Esse número é oficial : 100 mil leitos foram suprimidos para « organizar, racionalizar » despesas de saúde. Além disso, houve contenção de salários. Mesmo assim, uma grande percentagem de médicos dos hospitais franceses não tem consultórios particulares pois é no hospital que se faz pesquisa e que se exerce a medicina que a maioria quer exercer.

Mesmo sob a tensão dos cortes orçamentários, o espírito cívico e a dedicação dos profissionais de saúde – que trabalham com um senso do dever a toda prova, considerando que todas as vidas merecem ser salvas – nos deixam sinceramente emocionados e reconhecidos ao sair do hospital.

Pois apesar das restrições impostas, o sistema de saúde francês é de fazer inveja a países que optaram pelo « modelo americano ».

Quando comento com amigos franceses que a classe média brasileira, assim como os ricos, tem que contar no orçamento a despesa com planos de saúde privados, eles ficam chocados. O Brasil paga o alto preço de ter escolhido o « modelo americano », que não deveria ser modelo para nenhum país que pense a saúde da população como um dever do Estado.

A crise do Covid19 expôs à maioria dos franceses uma evidência : é preciso salvar o sistema de saúde público do « enxugamento » neoliberal, dos planos de austeridade, e injetar mais recursos para que ele saia da pandemia mais forte e eficiente.

Mesmo nesse momento de urgência, onde cada hora conta, médicos e hospitais franceses trabalharam de forma coordenada entre cidades, transferindo os pacientes mais graves em aviões ou trens adaptados de regiões onde os leitos de CTI já haviam se esgotado para cidades onde havia leitos disponíveis. Os aviões e trens especiais foram pagos com os impostos de todos, salvando vidas de cidadãos comuns, franceses anônimos.

A pandemia do coronavírus deixou evidente que o neoliberalismo mata. Haja vista a catástrofe humanitária que o Brasil está vivendo.

Emmanuel Macron fez discursos inflamados para defender o modelo de saúde francês e garantir que é dever do Estado salvar vidas e investir na saúde « coûte que coûte », custe o que custar.

Passada a pandemia, Macron precisa provar que esses profissionais da saúde, aplaudidos diariamente às 20 horas pelos franceses nas janelas, merecem mais investimentos nos hospitais, além de melhores salários.

Médicos, enfermeiros e pessoal hospitalar não esqueceram que, antes da pandemia chegar à França, estavam em greve há vários meses por mais leitos e melhores salários e, ao sair em passeatas por Paris e por outras cidades francesas, foram recebidos, muitas vezes, com gás lacrimogênio.

Depois das belas palavras dos discursos, é preciso passar aos atos e salvar « l’hôpital ».

Leneide Duarte-Plon é co-autora, com Clarisse Meirele, de « Um homem torturado, nos passos de frei Tito de Alencar » (Editora Civilização Brasileira, 2014). Em 2016, pela mesma editora, a autora lançou « A tortura como arma de guerra-Da Argélia ao Brasil : Como os militares franceses exportaram os esquadrões da morte e o terrorismo de Estado ». Ambos foram finalistas do Prêmio Jabuti. O segundo foi também finalista do Prêmio Biblioteca Nacional.



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