Cartas do Mundo

Carta de Paris: Por que tanta passividade?

Boaventura de Sousa Santos, o correspondente do Le Monde e Márcia Tiburi questionam e explicam a resignação do povo brasileiro

11/05/2021 11:08

(Amanda Perobelli/Reuters)

Créditos da foto: (Amanda Perobelli/Reuters)

 
Alguns brasileiros, mas também estrangeiros que conhecem bem o Brasil e nele trabalham ou trabalharam – como o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos – constatam, estarrecidos, o fatalismo, a apatia, o conformismo, a passividade, a resignação do povo brasileiro, capaz de suportar tantas mortes, tanta violência, tanta agressão sem sair às ruas para dizer : « Basta ! ».

No excelente artigo « As razões do fatalismo brasileiro face à Covid-19 », o correspondente do jornal “Le Monde”, Bruno Meyerfeld, faz uma espécie de psicanálise do Brasil para tentar entender o que vê como uma aceitação passiva de uma realidade que seria inaceitável em outras democracias. O artigo foi publicado na edição de 2/3 de maio.

(Reprodução/Le Monde)

De um ano para cá, nenhuma manifestação de massa veio ameaçar a continuidade do mandato do presidente de extrema-direita, assinala o jornalista. Meyerfeld resume a catastrófica gestão da crise pelo presidente Bolsonaro e conclui :

« Diferentemente dos chilenos, dos argelinos, dos libaneses, dos irakianos ou dos habitantes de Hong-Kong, os brasileiros não enfrentaram a Covid-19 nas ruas, manifestando seu protesto, contentaram-se com pequenos desfiles em automóveis ou concertos de panelas ».

De onde vem a passividade dos brasileiros diante do governo Bolsonaro, um pesadelo coletivo que já dura dois anos, agravado por um ano de pandemia que já fez mais de 423 mil mortos ?

« A pergunta é recorrente », escreve Meyerfeld. “Como ele consegue se manter no poder? »

O jornalista informa o número de mortos na maior hecatombe humanitária que o país já viveu e diz que é natural que as pessoas se digam que em qualquer democracia seria difícil um líder com semelhante balanço negativo se manter no poder :

« Jair Bolsonaro negou sucessivamente a pandemia, impediu toda e qualquer medida de confinamento (lock down), recusou-se a comprar vacinas e fez o que pôde para retardar os planos de imunização ».

E, depois de tudo isso, continua a ter uma sólido apoio entre 25% a 30% da população, constata o jornalista.

Chacina de pobres e pretos

O artigo foi publicado dias antes da chacina do Jacarezinho.

Temos de somar este novo dado da violência nossa de cada dia, que levaria o povo de qualquer democracia às ruas. A morte de George Floyd fez milhares de americanos ocuparem as ruas de diversas cidades e foi decisiva na eleição de Joe Biden.

Mayerfeld desconstrói a falsa imagem de um povo mestiço, descontraído por natureza, associado ao carnaval, ao samba e ao futebol. Nada, segundo ele, é mais falso do que a imagem de um país festivo.

« O Brasil é, antes de tudo, um país violento », escreve.

Ele informa que, em 2017, um estudo da organização Small Arms Survey calculava em 70 mil os mortos no Brasil de forma violente a cada ano. O número de mortes anuais no país do carnaval ultrapassava o da Índia, seis vezes mais populosa, e da Síria, em plena guerra civil.

O Brasil é campeão mundial de mortes por bala, violência policial, feminicídios, ataques contra minorias indígenas e minorias sexuais.

« Os brasileiros se habituaram à litania de chacinas, às crianças negras mortas pela polícia, aos indígenas assassinados, às mulheres estranguladas por maridos ciumentos ».

Tristes trópicos

“Habituado a dialogar com a morte, o brasileiro vive no modo sobrevivência, no qual ele integrou a Covid-19 », escreve o correspondente. Segundo ele, epidemia mergulhou o país um pouco mais na indiferença, no cada um por si, no individualismo.

“Tenho mais medo de morrer de fome se perder meu comércio ou por uma bala durante uma saída à noite do que da Covid-19 » disseram alguns brasileiros ouvidos pelo correspondente, que termina citando uma série de declarações estapafúrdias, totalmente desprovidas de empatia feitas pelo presidente do Brasil.

O sociólogo Boaventura de Sousa Santos está convencido, como muitos brasileiros, que « sem luta popular nas ruas não vai haver mudança. O povo tem que sair à rua para apoiar a CPI. As milícias querem tornar impossível a eleição de 2022. Não é um acaso a visita de Bolsonaro ao governador 12 horas antes da chacina. Meu apelo é que o Brasil acorde e vá para a rua. Vejam o que está se passando na Colômbia. Há violência, há mortes, mas é uma violência politizada. Esta violência no Brasil, como a chacina, visa a assegurar a continuidade deste presidente assassino. »

Boaventura, que trabalhou como sociólogo no Jacarezinho diz:« Foi esta comunidade que me ensinou a ser a pessoa digna que procuro ser ». E conclui em uma mensagem a amigos brasileiros : « Ainda não entendi por que o Brasil está a dormir ».

A professora de filosofia e escritora Márcia Tiburi tem uma explicação para o que muitos veem como passividade e resignação :

« É muito complicado pedir aos brasileiros que vão às ruas nesse momento, em funcão de dois aspectos. O primeiro é o altíssimo nível de contaminação. Isso é uma preocupação de muita gente no Brasil. Ninguém quer ficar com a culpa de ter favorecido a contaminação, considerando-se a instrumentalização do vírus, que vem sendo feita pelo governo. Outro aspecto é que estamos vivendo sob um Estado violento, bárbaro, e as pessoas têm medo da morte violenta. As pessoas das mais diversas classes, dos mais diversos territórios têm este medo. E nesse sentido, fica muito difícil irmos para as ruas. Seria necessário, seria o único caminho, mas não vejo como fazê-lo nesse momento. Eu mesma tentei organizar coisas nessa direção mas tudo foi freado devido a esses dois fatores: o vírus e o medo da morte violenta.”

Leneide Duarte-Plon é co-autora, com Clarisse Meireles, de « Um homem torturado, nos passos de frei Tito de Alencar » (Editora Civilização Brasileira, 2014). Em 2016, pela mesma editora, a autora lançou «A tortura como arma de guerra-Da Argélia ao Brasil : Como os militares franceses exportaram os esquadrões da morte e o terrorismo de Estado». Ambos foram finalistas do Prêmio Jabuti. O segundo foi também finalista do Prêmio Biblioteca Nacional



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