Cartas do Mundo

Carta de Paris: Sartre e a luta armada no Brasil

Em discurso histórico, o filósofo apontou a miragem de uma burguesia nacionalista brasileira pré-1964. «Só existe uma burguesia, cuja atitude varia em função de seus interesses do momento»

20/05/2020 15:33

 

Naquele dia 15 de janeiro de 1970, cerca de dois mil brasileiros exilados se reuniram na Salle Mutualité, em Paris, ao lado de centenas de franceses.

O nome oficial do encontro era Meeting de solidarité avec le peuple brésilien en lutte (Comício de solidariedade na luta do povo brasileiro) e na tribuna encontravam-se os filósofos Jean-Paul Sartre e Michel de Certeau. Miguel Arraes e o dominicano Paul Blanquart, um dos mais ardentes defensores da revolução brasileira, também estavam na tribuna. Foi o dominicano quem revisou o discurso de Arraes. Além deles, falaram George Casalis, Jean Talpe, Pierre Jalée, Jean-Jacques de Félice e Luigi Maccario, representando o Comité Italiano Europa-América Latina.

No encontro, foi feito o lançamento oficial da Frente Brasileira de Informação-FBI, que passou a editar um jornal com denúncias de prisões políticas e tortura. No primeiro número foram publicados os discursos feitos na Mutualité.

A Frente fora criada em outubro de 1969 pelo ex-governador pernambucano Miguel Arraes, por sua irmã, Violeta, e pelo ex-deputado Márcio Moreira Alves e tinha duas sedes: Argel, onde Arraes morava, e Paris, onde moravam Marcio Moreira Alves e Violeta Arraes. A sigla FBI para um órgão que tinha como objetivo denunciar ao mundo os crimes do regime militar soava como uma perfeita ironia.

Naquele início de 1970, os exilados brasileiros em Paris estavam ainda sob o choque da execução recente de Carlos Marighella, em São Paulo, em 4 de novembro de 1969. O encontro acontecia setenta dias depois da morte do líder da ALN : uma grande foto de Marighella, eleito « inimigo público número 1 » pela ditadura, ocupava grande parte do palco.

Duas frases se destacavam em grandes faixas. A do padre colombiano Camilo Torres: “O dever de todo cristão é ser revolucionário”. E a de Che Guevara: “O dever de todo revolucionário é fazer a revolução”.

Naquele mês de janeiro, quando Jean-Paul Sartre fazia seu discurso na Mutualité defendendo a revolução brasileira e denunciando a dominação norte-americana na América do Sul, frei Tito de Alencar Lima e seus confrades estavam atrás das grades do Presídio Tiradentes, em São Paulo. Ao local, não paravam de chegar novos presos políticos, resultado da repressão contra os grupos de resistência à ditadura, intensificada depois do sequestro do embaixador americano, em setembro do ano anterior.

Sartre leu seu discurso intitulado « Sous le feu croisé des bourgeois » (Sob o fogo cruzado dos burgueses) no qual analisa a história dos golpes brasileiros depois da Segunda Guerra, a ilusão da existência de uma burguesia nacionalista e a resistência armada ao regime militar.

A seguir, a íntegra do discurso, que traduzi para revisitar a realidade daquele momento dramático da nossa História:

« Näo vamos lamentar os presos barbaramente torturados no Brasil ; säo combatentes e, o que devemos fazer é nos associar ao combate deles. No caso brasileiro, costuma-se pensar que se trata de um simples acidente de percurso da democracia ; na verdade, o problema é outro e o que se passa atualmente no Brasil é uma imagem de um destino possível e mesmo provável de muitos países europeus.

Durante anos, o Partido Comunista Brasileiro jogou o jogo como se houvesse um patronato nacionalista ; ele disse : « É preciso que os burgueses nacionalistas que querem, no fundo, ter uma economia totalmente autônoma sejam apoiados no esforço para se opor ao imperialismo e, depois, veremos quando retonaremos às questões da luta de classes ».

A derrota da burguesia nacionalista em 1964 é uma resposta a esta técnica e a esta política. Explico : não devemos conceber que existe, no caso do Brasil por exemplo, uma boa burguesia que seria nacionalista e uma outra que seria cúmplice do imperialismo. Só existe uma burguesia cuja atitude varia em função de seus interesses do momento.

O engodo da burguesia nacionalista

O setor nacionalista da burguesia brasileira havia tentado ganhar o mercado interno substituindo os bens de consumo importados pelos bens produzidos por suas empresas. Os resultados desta política foram que esta burguesia só poderia viver da pauperisaçäo crescente do Brasil e, neste sentido, ela preparou a invasão imperialista do Brasil de hoje. É preciso saber que ela era obrigada a se ligar com os grandes proprietários feudais do Nordeste que mantêm os camponeses numa miséria atroz mas que eram os grandes responsáveis pela entrada de divisas e, por isso, era preciso aliar-se a eles. Por isso, a burguesia nacionalista nunca realizou a reforma agrária ainda que afirmasse de vez em quando sua intenção de fazê-la.

Por outro lado, é preciso se dar conta que a prosperidade da burguesia nacionalista sempre coincidiu com grandes crises econômicas pois o povo, com poder aquisitivo reduzido, tinha que comprar produtos brasileiros.

Enfim, é preciso não esquecer que esta burguesia só se constituiu se apoiando numa enorme massa de desempregados, praticamente estimulando o desemprego, o que lhe permitia reduzir ao mínimo seus custos de produção, aumentando os lucros que só beneficiavam a ela mesma ; para continuar competitiva, ela não tinha, pois, necessidade de melhorar seus produtos, sua tecnologia, de promover a economia brasileira no seu conjunto.

Uma só burguesia

Esta política da burguesia nacionalista, da qual relembramos as condições de existência, levou o país ao empobrecimento e a economia brasileira a à condição de presa fácil do imperialismo norte-americano. E quando uma crise econômica inevitável surgiu em 1961, a outra parte da burguesia brasileira, a que era intimamente ligada ao imperialismo, começou a levantar a cabeça e a crer de novo em sua oportunidade. Não esqueçamos que esta luta entre as duas partes da burguesia brasileira data de 1945 e que o golpe de Estado de 1964 é o ápice desta luta que tinha visto, em 1945, a deposição de Vargas seguida de seu retorno em 1951 e seu suicídio em 1954 e que tinha visto também, em 1955, a tentativa frustrada de impedir Kubitschek de assumir e, enfim, em 1961, a demissão forçada de Quadros. Esta luta, ainda que terminando frequentemente com vantagem para a burguesia nacionalista, não impedira que os investimentos estrangeiros se expandissem no Brasil : 220 milhões de dólares em 1946-1950 et 743 milhões em 1960-1964. Em 1961, entre 66 empresas com capital superior a um milhão de cruzeiros, havia 32 empresas estrangeiras que detinham 34% do capital e as empresas nacionais detinham apenas 11% do capital. Nessa situação, em 1964, os militares não tiveram dificuldade em fazer um golpe de Estado com a bênção – e mesmo, talvez, mais que isso – dos Estados-Unidos, para se livrar, de uma vez por todas, da burguesia nacionalista. E, o que é notável é que esta burguesia desapareceu. De fato, uma das primeiras medidas do governo militar foi a redução do crédito e as empresas nacionais foram obrigadas a se vender ou se associar ao capitalismo estrangeiro. Houve, pois, uma reconciliação dos dois ramos da burguesia, o que prova perfeitamente que, no fundo, sempre houve apenas uma mas que seus interesses são flutuantes. Em seguida, o governo promulgou um decreto de garantia dos investimentos esterangeiros autorizando as empresas estrangeiras a fixar elas próprias, após greves ou perturbações sociais, qual o montante dos prejuízos e pedir ao governo brasileiro o reembolso deles, prejuízos que serão pagos com o dinheiro dos brasileiros, claro. Só resta, aos imperialistas e à burguesia, efetuar a pilhagem completa do Brasil e, para o governo, só resta manter o povo em situação de resistência mínima a esta pilhagem, através de uma repressão constante.

Em 1969, Nelson Rockfeller foi encarregado por Nixon de visitar diferentes países da América Latina e, no seu relatório, declarou, entre outras coisas : « Há regimes democráticos e regimes militares ; mas não se deve examinar os regimes militares segundo uma ideologia qualquer, mas apenas segundo sua atitude para com os Estados Unidos ». Ele ressaltou, por outro lado, que essas ditaduras militares não tinham, muitas vezes, senão armamentos ultrapassados ; que, é verdade, eles compravam armas americanas mas seria preciso comprar mais, para que pudessem defender melhor seus países. Aqui pode-se perguntar : « Contra quem ? Contra quem treinam os soldados brasileiros no Panamá ou nos Estoados Unidos? Contra os soviéticos? Contra os chineses? Ninguém pode imaginar uma invasão do Brasil por soviéticos ou chineses. Na verdade, os brasileiros estão confiando seus soldados aos americanos para que os americanos lhes ensinem a atirar no povo brasileiro. O exército serve cada vez menos para preparar a defesa contra um eventual agressor externo. Ele se prepara para reforçar a repressão interna”.

Uma escolha inelutável

Desta forma, a esquerda brasileira deve ser um exemplo duplo para nós. Exemplo antes de 1964, porque naquele momento ela contou com uma aliança do nacionalismo burguês com as forças populares para combater o imperialismo e vimos a que ponto ela foi traída e se enganou. Exemplo depois de 1964, porque a partir daquela data a esquerda compreendeu que o único meio de combater o imperialismo e seus aliados internos era a luta armada.

O que é surpreendente é que esta luta armada é uma escolha inelutável. De fato, em qualquer manifestação, o resultado é imediato : os soldados impedem ou atiram; logo, a luta de massa através das grandes manifestações, como se fazia ainda há poucos anos no Brasil, tornou-se impossível e ineficaz. Chegou-se agora a um momento em que a esquerda está acuada e não tem outra escolha senão a luta armada : resistência, grupos de ação clandestina, guerrilha urbana e guerrilha rural.

O inimigo é uno, a resposta deve ser unificada

Durante algum tempo, os grupos que se formaram estavam divididos e foram se enfraquecendo. Houve a Ação Popular que, num primeiro momento, quis agir através de grandes manifestações e que, reconhecendo seu erro, passou à luta clandestina ; houve o Partido Comunist do Brasil – que não é o Partido Comunista Brasileiro – de inspiração maoísta, que também escolheu a luta armada ; há ainda outras organizações, que não é preciso citar. Depois de algum tempo, a unificação desses grupos foi realizada pela luta armada, unificação da qual Carlos Marighella compreendera a necessidade. Foi por isso que ele pediu que os 15 prisioneiros libertados depois do sequestro de Charles Burke Elbrick, embaixador dos Estados Unidos no Brasil, pertencessem a diferentes tendências. Para Marighella, a unificação não deveria ser realizada somente no Brasil; para ele, “era preciso responder ao imperialismo americano no plano global por um plano global latino-americano”.

O inimigo é uno, por conseguinte, a resposta deve ser unificada. Havia um certo Monroe que dizia: ‘A América para os americanos’, mas agora esta doutrina é interpretada como ‘a América do Sul para os americanos do Norte’. É preciso, pois, realizar a unidade da luta de uma América oprimida, a do Sul, contra a outra América, opressora, a do Norte”.

O combate heróico travado pelos brasileiros deve nos fazer refletir sobre nossa própria situação. Aqui na França também existe uma burguesia nacionalista e há investimentos americanos também. Todos os dias, nas informações econômicas lemos que uma empresa francesa se internacionaliza, o que, de fato, quer dizer que ela se financia por um banco americano ; pode-se ler, também, que uma sociedade americana escolheu a França no campo da informática, por exemplo, o que se reveste de um tom um tanto « galanteador ». O poder gaullista de um lado e o poder pompidouliano, de outro, se assemelham aos dois setores da burguesia brasileira : um defensor de um nacionalismo um tanto vão, outro favorável à entrada dos capitais americanos. E pode-se continuar a comparação : vocês pensam que não encontraríamos aqui coronéis e comandantes prontos a apoiar os que querem jogar o « jogo internacional » ?

Nosso dever não é, portanto, somente apoiar os revolucionários brasileiros em sua luta, trata-se também de nosso interesse e de nossa liberdade.

Jean-Paul Sartre

Leneide Duarte-Plon é co-autora, com Clarisse Meireles, de « Um homem torturado, nos passos de frei Tito de Alencar » (Editora Civilização Brasileira, 2014). Em 2016, pela mesma editora, a autora lançou « A tortura como arma de guerra-Da Argélia ao Brasil : Como os militares franceses exportaram os esquadrões da morte e o terrorismo de Estado ». Ambos foram finalistas do Prêmio Jabuti. O segundo foi também finalista do Prêmio Biblioteca Nacional

Conteúdo Relacionado