Cartas do Mundo

Carta de Paris: Ser palestino na Cisjordânia e judeu de esquerda na França

Dois filmes tratam do conflito Israel-Palestina: no cotidiano de um palestino da Cisjordânia e na visão crítica de judeus franceses

23/06/2021 11:19

Cena de '200 mètres', do cineasta palestino Ameen Nayfeh (Reprodução/Metafora Productions)

Créditos da foto: Cena de '200 mètres', do cineasta palestino Ameen Nayfeh (Reprodução/Metafora Productions)

 
«200 mètres» e «Pas en mon nom!» têm em comum apenas a região do mundo a que se referem: Israel-Palestina.

Ambos falam do longo e insuperável problema do Oriente Médio. No primeiro, «200 mètres», um palestino vive a realidade da ocupação, a humilhação e a violência do dia a dia. No outro, «Pas en mon nom!», oito franceses judeus explicam por que criticam a política colonialista de Israel em vez de assumirem a defesa incondicional do país, como a maioria dos judeus franceses.

«200 mètres» é um road movie realizado pelo cineasta palestino Ameen Nayfeh, que em seu primeiro longa metragem conta a história de um pai que precisa atravessar com urgência o muro que separa Israel da Cisjordânia para ver seu filho hospitalizado em Israel, onde mora com a mãe e os dois irmãos. Apesar de estarem separados por apenas 200 metros, a fronteira intransponível do muro é uma realidade que torna a vida quotidiana do personagem do filme totalmente kafkiana, como a de milhares de palestinos que vivem na Cisjordânia e trabalham em Israel.

Todas as noites, o pai de família, que mora em Tulkarem, diz boa noite aos filhos e à sua esposa através de sinais luminosos que acendem e apagam de um lado e do outro do muro. Salwa, a mulher de Mustafa (vivido pelo ator Ali Suliman), tem a nacionalidade israelense para poder morar e trabalhar do outro lado do muro, em Israel. O marido se recusa a pedir a nacionalidade do ocupante para morar do outro lado do monstro de concreto de 8 metros de altura, presença material do apartheid real que reina em Israel e nos territórios ocupados.



Com seu documento de trabalho vencido e com a urgência de ver o filho, Mustafá entra num esquema alternativo de passagem clandestina que o leva a viver momentos de angústia e muito risco para atravessar os diversos check-points controlados por soldados de Israel. A chegada ao hospital é o fim de uma aventura arriscada e estressante que faz o pai de família percorrer 200 quilômetros para encontrar a família que vive a 200 metros.

O cineasta Ameen Nayfeh foi separado de toda a família materna – avós, tios, tias, além de amigos de infância – quando o muro foi construído e conhece as dificuldades e humilhações que os palestinos vivem no cotidiano para trabalhar e simplesmente rever os parentes. Muitas mulheres palestinas têm filhos nos «currais» dos check-points onde a fila de espera pode durar horas.


200 mètres (Reprodução/Metafora Productions)

Extremamente bem realizado, «200 mètres» foi apresentado em diversos festivais e recebeu vários prêmios, entre eles o do público da Jornada dos Autores do Festival de Veneza de 2020.

Pas en mon nom!

O segundo filme, realizado pelo cineasta Daniel Kupferstein, é um documentário que relata em entrevistas a recusa de alguns judeus franceses – dois deles muito conhecidos, o ex-presidente da ONG Médecins sans frontières, Rony Brauman, e a historiadora e senadora Esther Benbassa – de apoiar incondicionalmente o Estado de Israel.

Esther Benbassa escreveu, entre outros, o livro «Être juif après Gaza» (Ser judeu depois de Gaza), publicado em 2009, depois que Israel bombardeou Gaza na «primeira guerra de Gaza». Depois dessa, vieram mais três, inclusive a deste ano, a «quarta guerra de Gaza», que matou centenas de civis além de 66 crianças palestinas do território que é conhecido como a «maior prisão a céu aberto do mundo».

Cena de 'Pas en mon nom!', de Daniel Kupferstein (Reprodução/Télérama)

«A verdadeira religiosidade dos judeus hoje consiste na sacralização de Israel e no fervor que o país lhes inspira», escreve Esther Benbassa no livro. «Essa sacralização pressupõe que Israel está, a priori, ao abrigo de todo erro, de toda falta, de todo desvio moral ou político».

Rony Brauman costuma falar do conflito Israel-Palestina como de uma «guerra» totalmente assimétrica que envolve um dos exércitos mais bem armados do mundo e um povo que fabrica armas artesanalmente. Ele considera Israel um «guetto superarmado» como escreveu no seu artigo do livro “Antissemitismo, a intolerável chantagem- Israel-Palestina, um affaire francês?”.

O título do filme retoma o nome de um grupo de judeus americanos, “Not in my name”, que desaprovam a ocupação da Cisjordânia e de Jerusalém Leste por Israel e condenam a política colonialista do Estado judaico. Eles não admitem que “os crimes de Israel contra o povo palestino, inclusive ignorando diversas de resoluções da ONU, sejam imputados a todos os judeus do mundo.”

Kupferstein justifica seu documentário dizendo que, frequentemente, na França «quando o conflito do Oriente Médio volta ao noticiário, as pessoas de origem judaica são convidadas a apoiar incondicionalmente o Estado de Israel. No entanto, um certo número deles, como eu, se recusam a ser colocados nessa bolha identitária, mesmo se temem o desenvolvimento do antissemitismo. Foi por isso que fiz o documentário”.

Esther Benbassa escreveu, entre outros, o livro «Être juif après Gaza» (Ser judeu depois de Gaza), publicado em 2009, depois que Israel bombardeou Gaza na «primeira guerra de Gaza». Depois dessa, vieram mais três, inclusive a deste ano, a «quarta guerra de Gaza», que matou centenas de civis além de 66 crianças palestinas do território que é conhecido como a «maior prisão a céu aberto do mundo».

Cena de 'Pas en mon nom!', de Daniel Kupferstein (Reprodução/Télérama)

Os entrevistados pelo cineasta são Bernard Bloch, Emmeline Fagot, Andrée Bensoussan, Maurice Rasjfus, Karen Akoka, Rony Brauman, Robert Kissous e Esther Benbassa.

Para ter uma diversidade de origens, os judeus franceses entrevistados vêm do Egito, da Argélia, do Marrocos e da Europa central como a Polônia e a região da Alsácia.

Em geral, os entrevistados falam de sua relação com Israel e de sua história familiar ou profissional que os leva a se afastar de uma postura comunitarista, que prevê uma solidariedade cega com todos os atos de Israel.



Todos os entrevistados defendem um Estado palestino ou, como é mais provável atualmente, um Estado binacional com igualdade de direitos para todos os cidadãos, o que é longe da realidade atual na qual os cidadãos israelenses de origem palestina, isto é não-judeus, são cidadãos de segunda classe de um país que se define como «Estado-Nação do povo judeu».

Em 2011, o filósofo Alain Badiou e o escritor e editor Eric Hazan já trataram do tema do filme «Pas en mon nom!» no livro “L’antisémitisme partout-Aujourd’hui en France” para denunciar os “propagandistas” de Israel, intelectuais franceses judeus, que usam essa falsa acusação de antissemitismo para calar críticos do governo israelense, como Hazan (filho de judeus) e Badiou.

Alguns anos antes, fora publicado o livro “ L’antisémitisme, l’intolérable chantage ” em que nove intelectuais judeus – como o filósofo marxista Etienne Balibar, a filósofa americana Judith Butler, o jornalista israelense Michel Warschawski e o médico Rony Brauman – denunciavam a chantagem da acusação de antissemitismo para calar vozes que denunciam a ocupação por Israel de territórios palestinos e o Estado de apartheid em que o país se transformou. “Antissemitismo, a intolerável chantagem-Israel-Palestina, um affaire francês?” foi traduzido por mim para a editora Anima em 2004.

Leneide Duarte-Plon é co-autora, com Clarisse Meireles, de «Um homem torturado, nos passos de frei Tito de Alencar» (Editora Civilização Brasileira, 2014). Em 2016, pela mesma editora, a autora lançou «A tortura como arma de guerra-Da Argélia ao Brasil: Como os militares franceses exportaram os esquadrões da morte e o terrorismo de Estado». Ambos foram finalistas do Prêmio Jabuti. O segundo foi também finalista do Prêmio Biblioteca Nacional

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