Cartas do Mundo

Carta de Paris: Triar pacientes: pesadelo dos médicos franceses

«É tempo de o executivo assumir claramente as consequências sanitárias de suas decisões políticas», escreveram especialistas no Le Monde

06/04/2021 11:39

Unidade de terapia intensiva do hospital Henri-Mondor, em Créteil, em 22 de março (Julie Balagué/Le Monde)

Créditos da foto: Unidade de terapia intensiva do hospital Henri-Mondor, em Créteil, em 22 de março (Julie Balagué/Le Monde)

 
Dois dias antes da última fala de Emmanuel Macron à nação, em 31 de março, anunciando novas restrições de confinamento (lockdown, em bom português do Brasil), dez chefes de serviço de CTIs de hospitais públicos, todos professores de medicina – posto mais elevado da carreira na França – assinaram um texto publicado no jornal « Le Monde ». O título era contundente : « O governo deve assumir diante da sociedade sua estratégia de ‘triagem’ de pacientes com Covid-19 ».

O manifesto tinha um tom grave e resumia a situação calamitosa que a França vive com a terceira onda de Covid-19. Chamava a atenção para a ameaça de colapso da maioria dos hospitais franceses e dizia claramente que o executivo « se desresponsabiliza de maneira hipócrita da gravidade da situação, deixando aos médicos o papel de escolher quem vai viver e quem vai morrer ».

Os profissionais que assinavam o texto representam parte da nata da carreira médica na França. Eles alertavam que os hospitais estão chegando perto da saturação e pediam um terceiro confinamento nacional estrito.

Desde o início da pandemia, ao decidir confinar ou não confinar o país, fechar escolas ou incentivar o teletrabalho (« home office » em bom português) o presidente Macron interfere direta e ativamente no funcionamento e no atendimento da rede de hospitais públicos franceses, onde se tratam os casos de Covid-19.

Quase todo o sistema de saúde francês é público e foi atingido pelas políticas de austeridade dos últimos 20 anos. Houve milhares de cortes de postos de trabalho e fechamento de leitos em todo o país. Na atual crise, a consequência dessas políticas se revelam de maneira dramática.

O texto assinado pelos chefes de CTIs esclarece :

« A situação atual consiste em triar pacientes : quando só há um leito de CTI disponível e existem dois pacientes que necessitam dele cabe aos médicos decidir quem terá o leito (e sobreviverá possivelmente) e quem não pode ser atendido (e morrerá muito provavelmente). É para este tipo de escolha que estamos caminhando. »

Antes da fala oficial de 31 de março na qual o presidente anunciou novas medidas de confinamento, incluindo fechamento das escolas por um mês, proibição de viagens entre as diversas regiões e redução do perímetro de deslocamento dentro de cidades como Paris, os médicos repetiam que o governo devia assumir diante da sociedade suas responsabilidades. Eles denunciavam uma inércia que os levaria a « triar » pacientes de Covid-19.

E isso sabendo-se que uma parte da França já estava fechada desde outubro.

Novo confinamento

Desde janeiro, nos debates na TV e nos jornais, médicos e cientistas vinham alertando para a gravidade da terceira onda de contaminações e pediam unanimemente ao executivo medidas mais restritivas do que as que já estavam em vigor para tentar baixar a progressão do novo variante inglês.

Desde fins de janeiro, médicos e cientistas alertavam incessantemente para a necessidade de um confinamento mais estrito do que aquele que o país já vive desde final de outubro.

No fim de outubro foram fechados em todo o país cafés, restaurantes, bares, museus, cinemas e teatros, além de salas de esporte. E o teletrabalho foi intensificado.

Inúmeros hotéis de Paris – cidade mais visitada da França, país mais visitado do mundo – fecharam as portas em outubro. Quem vem fazer turismo na cidade-luz com museus, restaurantes, cinemas e teatros fechados ? Escolas e comércio haviam reaberto e o governo tentava adiar o novo fechamento.

Nem as restrições já em prática, nem as máscaras obrigatórias, nem o distanciamento físico foram capazes de frear as contaminações com o novo variante inglês, mais contagioso e mais letal. Os casos graves continuaram a encher e ameaçar de colapso os serviços de atendimento intensivo dos hospitais (réanimation, em francês).

O texto dos médicos é categórico :

« Impondo aos médicos a decisão de escolher que paciente deve viver e qual paciente deve morrer, sem fazer isso de uma maneira clara, o governo se desresponsabiliza de uma maneira hipócrita. Há um ano, Emmanuel Macron dizia : « Estamos em guerra ». Sabemos que não existe guerra limpa e que os estragos colaterais desta crise ultrapassam a dimensão sanitária, pois seu impacto é econômico, psicológico e filosófico. Não é somente a estratégia sanitária que está em jogo ; O que está em jogo é a ausência de transparência e suas consequências. O governo escolheu uma estratégia. E deve assumir suas escolhas diante da sociedade. E deve assumir a responsabilidade das consequências de sua estratégia.

Em relação aos cidadãos, todo governo que se diz democrático tem um dever de lealdade. É tempo de o executivo assumir claramente e publicamente as consequências sanitárias de suas decisões políticas ».

Macron assumiu. Estamos confinados por mais um mês.

Com o aceleramento da campanha das vacinas feitas agora até em estádios de futebol, como em Paris, Lyon e Marseille, numa espécie de mutirão nacional para vencer o coronavírus, a França espera chegar ao verão com museus abertos e festivais de teatro e música em nova fase pós-covid, ainda que com protocolos de distanciamento e, quem sabe, máscaras.

Ninguém mais suporta a overdose de restrições à liberdade, gráficos de contaminações e mortes onipresentes em jornais diários.

Vai chegar a hora de rever os amigos e refazer planos de futuro com menos consumo, mais sobriedade e mais respeito à natureza, que nos lembrou que não pode mais ser explorada como provedora de recursos ilimitados, mas como a nossa casa comum.

Leneide Duarte-Plon é co-autora, com Clarisse Meireles, de « Um homem torturado, nos passos de frei Tito de Alencar » (Editora Civilização Brasileira, 2014). Em 2016, pela mesma editora, a autora lançou « A tortura como arma de guerra-Da Argélia ao Brasil : Como os militares franceses exportaram os esquadrões da morte e o terrorismo de Estado ». Ambos foram finalistas do Prêmio Jabuti. O segundo foi também finalista do Prêmio Biblioteca Nacional.



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