Cartas do Mundo

Carta de Paris: União Européia: líderes indígenas brasileiros pedem socorro

 

01/12/2019 13:15

 

 
«O homem quer sempre matar o índio, escravizar a mulher, tocar fogo no mato». Numa entrevista de 1987 pelos seus 60 anos, Tom Jobim resumiu o Brasil dos «homens civilizados».

O massacre quase diário de índios de diversas etnias, o feminicídio denunciado como um dos mais elevados do mundo e o fogo na Amazônia e no cerrado provam que o Brasil não avançou nada de 1987 a 2019.

Pelo contrário, fez um retrocesso no processo civilizatório desde a época do Marechal Cândido Rondon – que criou o SPI-Serviço de Proteção ao Índio, precursor da FUNAI (Fundação Nacional do Índio) – à do capitão Bolsonaro, que garante a impunidade dos invasores das terras demarcadas dos povos indígenas.



"Sonho que todos os bens naturais, terra, florestas, biodiversidade, água, riachos e rios deixem de ser tratados como mercadoria". O sonho de frei Henri Burin des Roziers, o «advogado dos sem-terra» morto em 2017, é também o nosso. Mas parece uma utopia cada dia mais distante na nova realidade política do Brasil.

O gênio da música brasileira e o dominicano francês – que dedicou grande parte de sua vida à defesa dos trabalhadores rurais sem terra no Norte do Brasil e à denúncia do trabalho escravo – foram ecologistas avant la lettre. Ambos entenderam que são os indígenas que protegem a biodiversidade e vivem uma relação de respeito à natureza porque se veem como parte dela. Não querem dominá-la nem extrair dela riquezas para acumular, finalidade do capitalismo predador do homem branco.

«Nós não somos diferentes de nada que tem dentro da floresta. Nós somos como a água, as árvores, a fauna e o território e nós não nos identificamos com as políticas dos europeus», disse em Paris Kretan Kaingang, um dos sete representantes de diversas etnias, que vieram à Europa para denunciar em organismos nacionais e internacionais de 12 países e 18 cidades o massacre dos povos indígenas do Brasil, a invasão de suas terras por madeireiros ilegais e garimpeiros. Sonia Guajajara, Alberto Terena, Angela Kaxuyana, Célia Xakriabá, Dinaman Tuxá, Elizeu Guarani Kaiowá e Kretã Kaingang formavam um grupo coeso e decidido a encontrar apoio para manter suas terras e preservar a floresta.



«Hoje, todos os povos indígenas estão ameaçados.» Essa informação e o slogan «Sangue indígena, nenhuma gota a mais» foi o grito de socorro do grupo de indígenas brasileiros em jornada pela Europa de 17 de outubro a 20 de novembro, em viagem organizada pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) e por diversas ONGs e associações internacionais.

Avidez do homem branco

Os índios brasileiros eram cerca de 5 milhões de indivíduos quando os portugueses desembarcaram em suas terras. Hoje são apenas cerca de um milhão. E cada vez são mais vulneráveis à predação e à avidez do homem branco.

Quem compreendeu tudo o que o homem branco pode fazer de mal à natureza e aos povos autóctones foi o cacique kaiapó Raoni, de 89 anos. No documentário «La deuxième rencontre», da franco-brasileira Véronique Ballot, ele faz um discurso lúcido sobre o homem branco que quer as terras dos índios para tirar dela as riquezas da floresta e do subsolo, depois de dizimar as populações dos primeiros habitantes do Brasil.

Um mês antes da Jornada dos líderes indígenas, Raoni veio à Europa, onde foi recebido no Palácio do Eliseu pelo presidente Macron.

«Faz muito tempo que eu alerto para as consequências do desmatamento. Já estamos vendo o desastre do aquecimento global. Precisamos da ajuda da Europa para proteger os territórios demarcados, impedir que sejam vendidos. O presidente Bolsonaro estimula a destruir a Amazônia porque apoia o extrativismo dos minérios, a expansão das plantações de soja e do comércio da madeira. Os brancos invadem e ocupam nossas terras. Teria sido melhor nunca tê-los encontrado», disse Raoni ao jornal Libération.



Na entrevista que deram à imprensa em Paris, os líderes indígenas informaram que o Banco Nacional de Paris-BNP investe bilhôes de dólares na soja brasileira. E que a França é um dos maiores vendedores de armas para o Brasil. Segundo os representantes indígenas, a França tem como fazer pressão sobre o governo brasileiro para parar com o massacre de índios. Apenas em um ano, foram mortos 136 índios, sendo o último o líder Paulo Paulino Guajajara.

Nenhuma gota a mais

O balanço da viagem foi mais que positivo. Foram criadas parcerias institucionais com a União Européia e a Noruega para fazer circular informações e denúncias contra o agronegócio, além de mecanismos para proibir a entrada na UE de madeira e minérios oriundos de zonas ilegais.

Depois da eleição de Bolsonaro, já houve diversas invasões de terras indígenas em Altamira e em Rondônia e nesses dois territórios há povos em isolamento voluntário. «As maiores queimadas recentes foram no cerrado, 55% (14 milhões de hectares queimados) e o governo brasileiro nada faz», denunciaram.

De janeiro a setembro deste ano houve 90% de aumento de queimadas comparado ao ano anterior com perda da biodiversidade, da cultura indígena.

Como fruto da viagem, os indígenas deixaram protocolado no Tribunal de Haia uma lista de todas as violências feitas contra os povos autóctones.

«O governo Bolsonaro está liberando a exploração de minerais dentro de terras indígenas», denunciou um dos líderes indígenas munido de dados concretos: no Congresso Nacional há 12.769 processos em curso para extração mineral. Com essas licenças, mais de 160 povos serão atingidos. O continente sul-americano está sendo atacado. O continente sul-americano abriga diversos biomas e nazismo, fascismo, catecismo e comunismo só vêm nos atacar».

Enganam-se os que pensam que o fogo ateado na Amazônia é somente para fazer pasto ou plantar soja. As mineradoras, Bolsonaro à frente, cobiçam o subsolo, já devidamente mapeado.

Eles sabem onde há urânio, ouro, diamante e... nióbio. Quem não lembra do capitão em Osaka fazendo propaganda de bijuteria de nióbio com a arte dos camelôs mais experientes?

“Não há mais regras. Antes o governo agia, agora nada acontece para deter os garimpeiros. A Funai não tem nem mais gasolina para ir visitar os índios. Imensos territórios parecem paisagens lunares”, desola-se em entrevista ao jornal Le Monde, o padre italiano Carlo Zacquini, presente nas terras Yanomami desde 1965 e co-fundador, com o antropólogo francês Bruce Albert e a fotógrafa Claudia Andujar, da “Comissão pro-Yanomami”.

No Parlamento Europeu, parte da delegação se reuniu com parlamentares apoiadores do movimento indígena, que acompanham a situação brasileira com preocupação e lutam internamente para que os acordos internacionais, principalmente do Mercosul com a União Europeia, não seja ratificado no formato que está hoje, sem a garantia da defesa dos direitos.



«O velho continente nunca foi maduro, só pensou nas guerras, no capital na expoloração. Agora com as greves dos jovens pelo planeta, a juventude européia está dando uma lição de maturidade», disse esperançoso Kretan Kaingang.

É lamentável que no final da segunda década do século XXI o Brasil esteja se afastando cada vez mais da política indigenista criada pelo Marechal Rondon que tinha como divisa: «Morrer, se preciso for, matar um índio nunca» !

O slogan que resumiu a luta dos povos indígenas na visita a Europa mostrava que eles estão dispostos a dar um basta:

«Sangue indígena, nenhuma gota a mais»



Leneide Duarte-Plon é co-autora, com Clarisse Meireles, do livro «Um homem torturado-Nos passos de frei Tito de Alencar» (Ed. Civilização Brasileira, 2014) e autora de «A tortura como arma de guerrra, da Argélia ao Brasil-Como os militares franceses exportaram os esquadrões da morte e o terrorismo de Estado» (Ed. Civilização Brasileira, 2016)








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