Cartas do Mundo

Carta de Paris (via Rio de Janeiro): Cada macaco no seu galho

Por que o executivo brasileiro não lembra ao general seu lugar, como Macron fez com o general Pierre de Villiers?

13/09/2018 21:01

 

 
Como o Brasil parece uma republiqueta de bananas quando vemos generais falando a jornalistas, deixando planar ameaças veladas! 

Por muito menos, Emmanuel Macron (que não é minha “tasse de thé”) colocou o general Pierre de Villiers, Chefe do Estado Maior das Forças Armadas, no seu devido lugar declarando, em julho do ano passado, que “não era digno expor um desacordo com o plano de economia orçamentária do governo em praça pública”.

O general de Villiers criticara cortes no orçamento da Defesa diante de deputados membros da Comissão de Defesa.

“Eu tomei decisões, eu sou seu chefe, tomo decisões diante dos cidadãos, diante das Forças Armadas, sei cumpri-las e não tenho necessidade de nenhuma pressão, de nenhum comentário”, lançou Macron numa recepção das Forças Armadas. Três dias depois, o general pediu demissão a “seu chefe”, o jovem presidente de 39 anos, recém-eleito.

O pedido de demissão foi aceito e quatro meses depois – desimpedido do «devoir de réserve», que proíbe militares da ativa de participar do debate político, reservado aos civis – o general de Villiers lançou o livro «Servir».

Quando vejo generais brasileiros fazendo declarações anti-democráticas, ameaçando as instituições com julgamentos que sugerem intervenções militares ou defendendo a tortura e o legado da ditadura, me pergunto se não há um presidente para lembrar a função constitucional das Forças Armadas e dizer como Macron: “Eu sou seu chefe”.

Essas tiradas dos fardados elogiando a tortura me fizeram lembrar, mesmo que em contexto diferente, do general Paul Aussaresses, cujas entrevistas feitas por mim na Alsácia, além de seus livros, estão na origem do meu livro “A tortura como arma de guerra, da Argélia ao Brasil”, que tem como subtítulo: “Como os militares franceses exportaram os esquadrões da morte e o terrorismo de Estado”.

Ele também falou, e muito, mas não para dar palpites na vida do país. Falou para revelar “segredos de família”, como disse um general ao criticá-lo.

Em 2001, já na reserva, o general Aussaresses revelou em seu livro ,”Services Spéciaux – Algérie-1954-1957”, segredos que seus pares gostariam que ficassem para sempre enterrados, juntos com os desaparecidos da Guerra da Argélia. Ele quebrou a omertà. Seus ex-companheiros não o perdoaram nem a ele nem a jornalistas e intelectuais que acusavam o exército francês de crimes contra a humanidade na guerra da Argélia. O que ele revelou fora guardado cuidadosamente por quase meio século. Aussaresses sofreu dois atentados e viu sua reputação manchada no livro “Le livre blanc de l’Armée française en Algérie”, publicado por militares que defendiam a honorabilidade do Exército francês. Eles negavam tudo. Nunca imaginaram que os segredos das torturas viriam à tona contados por um general, o chefe dos esquadrões da morte da Argélia.

No “país dos Direitos Humanos” – como os franceses se referem à Franca, para louvá-la ou para criticá-la com uma ponta de ironia – o Exército é chamado de “o Grande Mudo”. Os militares não intervêm no debate político-partidário. Se as Forças Armadas são mudas é porque os militares da ativa são proibidos de se expressar publicamente.

Assumindo os horrores da tortura

Por que Aussaresses resolveu subitamente sair de seu silêncio e revelar segredos do Grande Mudo?

Depois de ler “Services Spéciaux-Algérie 1955-1957”, o leitor se pergunta o que teria levado o militar a assumir todos os horrores que descreve: tortura, execuções sumárias e outros atentados aos direitos humanos dos prisioneiros. Para ter a palavra final, uma versão sem retoques dos “acontecimentos” da Argélia, que a França só foi assumir como uma guerra no governo Chirac? Por simples narcisismo? Por que se expôs dessa forma, assumindo o papel de carrasco, mesmo que sua confissão seja acompanhada do álibi de mero executante de ordens, como os chefes nazistas o fizeram no fim da guerra?

Sem dúvida, porque do seu ponto de vista seus atos foram justificados e legítimos: ele diz que defendia os interesses de seu país. Fez tudo ”pela França”. No livro, ele dá aos fatos a interpretação que o engrandece: além de ter torturado para defender a França, o fez obedecendo ordens, não por prazer, por perversão. E ordens dos governantes civis, emanadas de Paris.

No fim do livro escreve: “Não tenho remorsos mas faço votos de que nunca nenhum desses jovens militares tenha de fazer o que, por meu país, tive de fazer na Argélia”.  

No final de nossas conversas, ele relativizou suas ações ao dizer: “Mas atenção, não estou de acordo com tudo o que fiz”. Paradoxalmente, no início da entrevista, tentou justificar a tortura, declarando, ao mesmo tempo, não apreciá-la, ao repetir enfaticamente: “Então, penso que se a tortura pode evitar a morte de inocentes ela é justificada. Esse é meu ponto de vista. Eu não gosto dela, não gosto dela, não gosto dela”.

Apesar de em nenhum momento de nossas entrevistas eu ter manifestado minhas ideias, o general Aussaresses deve ter percebido que não concordava com suas teses, ainda que mantivesse a neutralidade profissional, sem tentar debater com ele.

Talvez por isso, ele tenha querido encerrar nossa conversa com uma profissão de fé, como quem faz questão de mostrar que não está preocupado com a unanimidade: “Sou um homem de direita, pró-americano e decididamente anticomunista. Não lhe peço para concordar comigo. Tanto faz”.

Tratamos de todos os assuntos sem nenhum tabu ou censura. No final de nossos encontros, ele assinou um texto autorizando a publicação das conversas em um livro e me cedeu documentos e fotos. Em nenhum momento pediu para ler o que eu escreveria.

Por que Paul Aussaresses aceitou dar entrevistas para um livro a ser lançado no Brasil? Desejo de ajustar contas com seu passado? Vontade de contribuir para a reconstituição histórica do passado recente? Apreço pela verdade dos fatos? Ou simples narcisismo, para se colocar no centro da história contada pelos vencedores?

Suas motivações são insondáveis. Seja qual for o real motivo, ele não se cansava de repetir seu amor pelo Brasil, onde foi adido militar de 1973 a 1975 e onde voltou diversas vezes como representante da empresa Thomson-Brandt, fabricante de armas, depois de deixar o posto de adido militar em Brasília. E confirmou a venda de armas francesas com pagamento de comissões aos militares que autorizavam no Brasil a compra. Mas há quem pense que na ditadura não havia corrupção...

Ao escrever seus livros e dar entrevistas sem recusar nenhuma pergunta, talvez o general obedecesse a um imperativo de consciência. Ele, que se dizia católico, queria, quem sabe, aliviar o peso da culpa de ter transmitido a tantos homens – inclusive no CIGS (Centro de Instrução de Guerra na Selva), em Manaus – lições de como quebrar física e moralmente a resistência dos prisioneiros. Aussaresses assumia ter executado pessoalmente duas dezenas de resistentes argelinos presos.

Isso tem um nome: execuções sumárias.

Segundo documento americano revelado recentemente, o general Geisel autorizou execuções sumárias de resistentes brasileiros, como todos os presidentes da ditadura, que alguns ainda pensam que foi “branda”.



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