Cartas do Mundo

Carta de Roma: Mario Draghi e a Crise Política Italiana

Mario Draghi, ex-presidente do Banco Central Europeu, aceita com reserva a atribuição de formar o próximo governo italiano

09/02/2021 13:26

Mario Draghi (Ufficio Stampa Quirinale)

Créditos da foto: Mario Draghi (Ufficio Stampa Quirinale)

 
A bagunça da crise política italiana, terceira economia da União Europeia em termos de PIB, sofreu uma reviravolta inesperada na noite de terça-feira, 2 de fevereiro. Após uma série de consultas para verificar a maioria no parlamento, o Presidente da República Sergio Mattarella decidiu convocar Mario Draghi. Na última década, a Itália tem tido uma sucessão de governos técnicos, que, repetidamente, são paralisados: tanto por incompetência de coalizões quanto por “cismas ideológicos”. Então, desde as primeiras horas da manhã de ontem, uma espécie de messianismo irrompeu na Itália.

A queda do segundo governo de Giuseppe Conte, em meio à pandemia da Covid-19, foi provocada por Matteo Renzi (do partido Itália Viva) que, na metade do último janeiro, retirou dois ministros do governo para que o Premier não houvesse mais maioria para governar.

Renzi acusava o governo de “não ter visão” nem programas específicos para auxiliar o povo. Porém, nunca foi segredo as suas intenções de voltar a ser primeiro-ministro e, nos últimos anos, o político toscano tem feito praticamente oposição a todas as configurações de formação política no parlamento. Matteo Renzi e Matteo Salvini, em supostos pólos opostos, acabam completando um ao outro: egos inoportunos e crises de governo, em que vale mais a satisfação mesquinha de derrubar legislaturas do que tutelar os interesses do povo. Até semana passada, ambos bradavam que “ideias contam e não pessoas". Hoje, no entanto, se mostram conformados com a “pessoa” de Draghi.

Aliás, uma das consequências da ação de Renzi foi ter ressuscitado a figura de Salvini, que havia perdido seu peso efetivo nas decisões da cena política italiana, no último ano. Também o sonho de reconstruir um centro-esquerda, mesmo enfraquecido, foi destruído. O segundo governo técnico de Conte tinha sido resultado de um acordo entre Movimento 5 Estrelas (M5S) e o Partido Democratico (PD) para afastar Salvini, depois que este, por sua vez, havia fracassado na sua tentativa de subir ao poder como Primeiro Ministro, em 2019. Neste ínterim, Matteo Renzi deixou o Partido Democratico (PD) e fundou um novo partido de centro, Italia Viva (IV), aprofundando ainda mais a crise vivida pela esquerda italiana.

Nesse contexto, Draghi, “o homem que salvou o euro” ou o “Super Mario”, como tem sido chamado, parece ser a pessoa “adequada” neste momento para gerir a crise, de acordo com parte da opinião pública. Todavia, um governo Draghi servirá, sobretudo, para assegurar ações em prol de forças (neo)liberais de uma elite financeira que sempre repartiu os lucros às custas de um verdadeiro açougue social. Como lembra o jornalista Giulio Cavalli, mais uma vez se testemunha a "genuflexão” de uma mesma classe dominante a um líder, confiando-lhe “todos os vícios e fobias como se ele fosse um psicoterapeuta”, quando ele representa um alinhamento com banqueiros. Desse modo, a classe política, na ânsia atávica de aniquilar adversários, entrega o país a populismos que afirma combater.

 Na Itália, quase 90.000 pessoas perderam suas vidas devido à pandemia, até agora. Enquanto isso, a economia italiana enfrenta a pior crise desde a Segunda Guerra Mundial, acumulando uma das maiores dívidas externas do bloco. Como se não bastasse, Roma está atrasada na elaboração do plano para gastar os mais de 200 bilhões de euros de recursos que virão com o Fundo de Recuperação, prometido por Bruxelas. Além disso, o país está entre os maiores beneficiários do programa “Next Generation EU”, aprovado pela União Europeia para relançar as economias dos países membros, após longos meses de bloqueio e recessão.

O ex-presidente do Banco Central Europeu (BCE), figura destacada nos círculos internacionais, aceitou o cargo com reserva e em poucos minutos a notícia foi relançada pelos principais sites de notícias italianos e estrangeiros. Segundo o The New York Times, o novo primeiro-ministro representaria uma “quimera” para muitos italianos, ressaltando o caráter quase messianico de Draghi. Também para o Global Times, uma organização de imprensa próxima ao Partido Comunista Chinês, "Draghi fortaleceria a posição internacional da Itália em um momento em que o país detém a presidência do G20”.

Bruxelas aplaudiu a hipótese de um governo Draghi: "Cabe ao governo italiano e às instituições democráticas decidir o futuro da Itália" - disse a vice-presidente da Comissão Europeia Margaritis Schinas - “mas não é surpresa se eu disser que Mario Draghi é respeitado e admirado no Banco Central Europeu e não só”.

Quanto aos partidos italianos, a recepção da notícia foi como esperada. O Partido Democratico se declarou “disponível” para formar o novo governo. Forza Italia reagiu positivamente. Vale lembrar que Silvio Berlusconi tem uma longa história de estima em relação a Mario Draghi, o que nos diz bastante sobre a figura do novo primeiro-ministro.

A Lega Nord, de Matteo Salvini, que anteriormente forçava e insistia para convocar eleições antecipadas, disse não ter nada contra a formação do novo governo. Fratelli d’Italia, apesar de apoiar também a ideia de uma nova votação, assegura que não fará uma oposição perversa.

Quanto à posição do M5S, muitos expoentes têm mostrado opiniões diferentes. Por exemplo, Vito Crimi, postou, no Facebook, que “o único governo possível seria um governo político”, e que o Movimento, portanto, não iria “votar pelo nascimento de um governo técnico chefiado por Mario Draghi”. Entretanto, Luigi Di Maio insiste que o partido deva escutar o novo premier.

Enquanto isso, o povo assiste passivamente a criação de mais um governo técnico, como se a política nos palácios fosse um programa de TV e não o resultado de escolha nas urnas. Desde a demissão de Silvio Berlusconi, em 2011, nenhum primeiro-ministro permaneceu no cargo por via de eleição popular. Todos foram escolhidos diretamente pelo Presidente da república, após quedas de governo orquestradas por líderes de um ou outro partido de direita ou esquerda.

A Itália é um dos exemplos mais evidentes de Estado Pós-Democrático, com uma “democracia” que subsiste do ponto de vista formal, mas onde o poder econômico e o poder político se aproximam e se identificam. Draghi pode ser a face mais evidente desta tendência neoliberal, colocado, nesta posição, por políticos que se diziam adversários. Em suma, parafraseando o escritor Giulio Cavalli, precisamos exigir a coerência de políticos que pedem "seriedade" aos adversários e depois tratam infantilmente a política como se fosse um reality show.

Não apenas na Itália, mas também no Brasil.

Marcela Magalhães de Paula é doutora em Estudos Ibéricos/ Literatura Pós-colonial pela Universidade de Bolonha, na Itália, tendo ainda estudado com Umberto Eco e com Boaventura Sousa Santos. Fez Mestrado em Literatura Brasileira, pela Universidade Federal do Ceará, e em Direitos Humanos e gestão de conflitos, pela Scuola Superiore Sant'Anna di Pisa. Fez pós-doutorado na Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-brasileira (Unilab). Ganhou diversos prêmios de literatura e de pesquisa em literatura, de governos e instituições de diversos países, como Alemanha, Itália, Egito, Brasil, França, Suiça etc. Tem textos literários publicados em várias antologias e publicou, em 2015, o livro de ensaios “De cafres e de cafajestes: fluxos e refluxos de personagens no Atlântico Sul”. Co-fundou o grupo de ativistas feministas CABE, em 2018. Colabora, como jornalista, para o BlackPost, redação vencedora do prêmio de jornalismo Roberto Scialabba, apoiado pela Associação Nacional de Partigiani d’Italia, pelo empenho antifascista, na Itália

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