Cartas do Mundo

Carta de Roma: Migração, raça e ''solidariedade seletiva''

Um debate italiano necessário a partir do assassinato do jovem cabo-verdiano Willy Monteiro, medalha de ouro por mérito civil

08/10/2020 16:42

 

 
“Afinal, o que eles fizeram? Nada. Mataram apenas um imigrante”.

Assim os pais de dois dos quatro assassinos de Willy Monteiro justificaram o ato dos filhos, em um crime que chocou a Itália nas últimas semanas. Ontem o presidente italiano, Sergio Mattarella, concedeu a medalha de ouro ao mérito civil à memória do jovem, de origem cabo-verdiana, brutalmente assassinado.

A morte de Willy suscitou um debate midiático sobre a legitimidade de se falar em cultura fascista, apologia à violência e racismo. A dinâmica de linchamento, a desproporção física entre a vítima e os acusados, a cor da pele dos envolvidos e um passado de militância neofascista também colocaram holofotes sobre uma tendência inquietante, otimizado pelas redes sociais nestes tempos: tentativas de humanizar o agressor em detrimento à vítima. Em uma Itália (leia-se “mundo”) cada vez mais polarizada, temos que fazer um esforço para entender a variante magnânima desse processo.

Willy Monteiro era um jovem de 21 anos, morto entre a noite de 5 e 6 de setembro nos arredores de Roma, depois de vinte minutos de socos e chutes por parte dos irmãos Gabriele e Marco Bianchi e alguns companheiros. Willy teria intervido em uma discussão, em defesa de um amigo, e o grupo dos “Bianchi” teria se lançado sobre ele até trucidá-lo. Após o assassinato, os Bianchi postaram vídeos de deboche nas redes sociais como se nada tivesse acontecido.

Mas o elemento racial entra como agravante do crime?

Como discute o historiador italiano Gabriele Proglio, há uma limitação quase dogmática na concepção de alguns especialistas que afirmam que, para que o componente racial seja considerado criminalmente, é preciso existir motivações ideológicas declaradas: quem cometeu a violência deve reivindicar sua matriz. Porém, a complexidade sociológica desse tipo de crime é muitas vezes ignorada dentro de leituras semióticas evidentes (que ora ignoram ora evidenciam cores de pele) quando o escopo é de fundo político.

O fato é que existem muitos tipos de discursos racistas. Porém, as práticas que os fundamentam possuem os mesmos propósitos: extrair, desenvolver e compartilhar ações e ideias para oprimir os outros. A “retórica da raça”, como subproduto comum entre colonialismo e fascismo, está sempre alinhada com um discurso de poder, de privilégio e de vantagem desproporcional sobre figuras vulneráveis reconhecíveis. Esta vantagem artificial, baseada na desigualdade e estruturada para fazê-la perpetuar, alimenta a proliferação e a montagem de um retorno às “soberanias nacionais graduais”. Vale lembrar que uma sociedade estruturada a partir de uma hierarquia racial forja a desagregação do conceito de cidadania universal no seu limiar de base.

O conceito esvaziado de cidadania de base neofascista inculca, nos espaços simbólicos de um povo, uma hierarquia excludente com base na nacionalidade e na raça, semelhante à antiga distinção colonial entre cidadão e sujeito. Como lembra Rubens Casara, o racismo serviria para fabricar “inimigos”, ou “produzir monstros” como diria Antonio Gramsci e Edouard Glissant. Nesta linha de raciocínio, os imigrantes se tornam bodes expiatórios preferenciais dos neofascistas e a solidariedade deixa de ser “universal” para se tornar “seletiva”, passando a ignorar intencionalmente a subjetividade dos corpos racializados.

 O conceito de “solidariedade seletiva”, segundo Edward Koning, é o sentimento de que o estado de bem-estar deve primeiro e principalmente proteger os cidadãos nativos de um determinado país, dizendo respeito não apenas à sustentabilidade econômica do estado de bem-estar social em si, mas também às atitudes que regem os direitos dos imigrantes. Dessa forma, mais importante do que os custos reais da imigração para o Estado é entender a maneira como esses custos se traduzem em discurso político e são interiorizados na construção das identidades dos movimentos neofascistas. O que se tem observado são diretrizes que visam um crescimento de movimentos nacionalistas que restringem a aplicação dos direitos humanos à noção de cidadania nacional.

Segundo algumas vertentes teóricas e políticas ligadas especialmente a partidos e concepções de direita, existe uma relação negativa entre a diversidade induzida pela imigração e o apoio público a programas sociais. Todavia, diversas pesquisas recentes negam a ideia de que a imigração enfraquece de fato a base social redistributiva de um Estado de bem-estar social, como afirma Koning.

Em alguns países, o poder público tornou-se menos disposto a compartilhar benefícios com os recém-chegados de outras nações e vemos isso desde países com tradição de acolhimento como o Brasil (nos casos da entrada, por exemplo, de haitianos depois do grande terremoto de 2011 e recentemente de venezuelanos) a países com um superávit de ingressos de pessoas requerentes de status de asilo político ou refugiados, como Espanha e, sobretudo, Itália.

Devido a esta “solidariedade seletiva”, os formuladores de políticas públicas tem agido de acordo com a manipulação da empatia, implementando limites e restrições sobre o acesso ao bem-estar dos imigrantes ou mesmo fechando fronteiras nacionais, suspendendo temporariamente tratados como o Schengen, ou se recusando a prestar assistência humanitária, como no caso da recusa italiana de atracamento do navio Acquarius e a política de separação de famílias do governo americano de Trump, entre outros. O racismo, nestes sistemas, é capitalizado e vai embutido em discursos de “Itália para Italianos”, “Make American Great Again”, onde a morte de Willy pode ser interpretada como um sintoma, uma consequência dessa promoção ao ódio, promovida por essa agenda.

Na itália, muitas personalidades se manifestaram em relação ao crime. A influenciadora Chiara Ferragni, conhecida por não falar quase nunca de fatos políticos, responsabilizou a “cultura fascista” como uma das causas da morte do jovem, em um post de Instagram. Foi polêmica por dias. O primeiro ministro Giuseppe Conte, presente ao funeral do rapaz, disse ter ficado em choque e que se perguntava que mensagem estava sendo passada à juventude, aos “nossos filhos”. Matteo Salvini, depois de uma série de postagens de propaganda eleitoral e muito depois do início de controvérsias sobre seu silêncio, se pronunciou lamentando a morte do garoto. Logo em seguida, o líder da Lega preferiu culpar a esquerda por “querer fechar academias” ao invés de falar sobre a formação cultural dos quatro acusados %u20B%u20Bdo assassinato.

Neste momento, enquanto se tenta esclarecer o máximo possível sobre o assassinato de Willy, além das palavras dos pais de um dos quatro jovens, vários comentários claramente racistas, escritos ao longo dos anos, podem ser lidos nas contas sociais de Gabriele Bianchi. Os textos de Gabriele evidenciam, de fato, uma formação xenófoba e um culto extremo à violência. Assim, ao fazer seu post, a instagramer Ferragni se aproxima de Umberto Eco, no texto clássico sobre Ur-fascismo: “embora os regimes políticos possam ser derrubados e as ideologias criticadas e destituídas de sua legitimidade, por trás de um regime e de sua ideologia há sempre um modo de pensar e de sentir, uma série de hábitos culturais, uma nebulosa de instintos obscuros e de pulsões insondáveis”. Pulsões que levam, muitas vezes, ao ato de matar.

Marcela Magalhães de Paula é doutora em Estudos Ibéricos/ Literatura Pós-colonial pela Universidade de Bolonha, na Itália, tendo ainda estudado com Umberto Eco e com Boaventura Sousa Santos. Fez Mestrado em Literatura Brasileira, pela Universidade Federal do Ceará, e em Direitos Humanos e gestão de conflitos, pela Scuola Superiore Sant'Anna di Pisa. Fez pós-doutorado na Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-brasileira (Unilab). Ganhou diversos prêmios de literatura e de pesquisa em literatura, de governos e instituições de diversos países, como Alemanha, Itália, Egito, Brasil, França, Suiça etc. Tem textos literários publicados em várias antologias e publicou, em 2015, o livro de ensaios “De cafres e de cafajestes: fluxos e refluxos de personagens no Atlântico Sul”. Co-fundou o grupo de ativistas feministas CABE, em 2018. Colabora, como jornalista, para o BlackPost, redação vencedora do prêmio de jornalismo Roberto Scialabba, apoiado pela Associação Nacional de Partigiani d’Italia, pelo empenho antifascista, na Itália.






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