Cartas do Mundo

Carta de Roma: O Negacionismo como dogma público

Os ''covidiotas'' italianos do 5 de Setembro em Roma

10/09/2020 14:01

(Tek Image/Getty Images)

Créditos da foto: (Tek Image/Getty Images)

 
Existe um limite onde as nossas opiniões deixam de ser meras intervenções de gestão da vida familiar e ultrapassam a porta das nossas casas, não apenas para incomodar o outro, mas para colocá-lo em risco. Em meio à crise do Coronavírus, negar a pandemia tem um custo imenso em termos de vidas humanas. E, se o negacionismo sempre existiu, em um contexto de emergência como o presente, ele se torna particularmente grave e imediato. Temos visto, nos últimos dias na Itália, várias manifestações que tornam o combate ao negacionismo relevante: o protesto dos anti-máscaras e anti-vacinas em relação ao Covid-19, no último 5 de Setembro em Roma, realizado no rastro de outros eventos similares pelo mundo.

Como afirma Keith Kahn-Harris, no livro Denial: the unspeakable truth, o (auto)engano privado se torna prejudicial e perigoso quando se torna dogma público. O momento crucial da passagem entre convicção particular e ação pública tem consequências nefastas, exponenciadas em contextos neoliberais, em que a negação se transforma em negacionismo e atinge diretamente vidas humanas.

A socióloga italiana Francesca Coin, a este respeito, faz um paralelo muito interessante entre os processos de negação/negacionismo e a normalização da morte de sujeitos “sacrificáveis”. Para ela, a negação seria um processo individual que se refere à recusa psicológica em aceitar um fato estabelecido como verdadeiro: um sujeito, ao reprimir um fato, tenta ignorar uma verdade incômoda o máximo possível. O negacionismo, por sua vez, não seria apenas a remoção da realidade, mas a construção de uma alternativa a ela. Nesse sentido, é um processo mais complicado, que põe em movimento as desigualdades e estruturas de poder da nossa sociedade.

No último dia 5 de setembro, cerca de 1.500 pessoas chamadas por parte da imprensa italiana de “Covidiotas” - rigorosamente sem máscaras - protestaram contra o que afirmam ser uma “ditadura da saúde”, na Praça da Boca da Verdade, em Roma. O protesto foi organizado pelo partido de direita Forza Nuova, mas também contava com coletivos como “Popolo delle mamme” e “Madri in rivolta”, que bravejavam direitos em tutelar a saúde e a educação dos próprios filhos, mas refutando a responsabilidade que estes mesmos filhos são agentes propagadores em potencial do vírus, caso não respeitem as regras estabelecidas pelo sistema sanitário nacional.

Sob lemas como “nós somos o povo”, “não somos negacionistas, mas aqueles que despertaram”, os covidiotas exigiam a abolição da lei Lorenzin (que versa sobre a obrigatoriedade de vacinas) e a revisão dos regulamentos anti-contágio Covid-19. Além disso, em meio à multidão, podia-se encontrar indivíduos que se diziam inimigos de Bill Gates, de Beppe Grillo, do Papa Francisco, de Nicola Zingaretti, Sergio Mattarella etc. Ou seja, um discurso confuso e sem um programa estabelecido, porém que reunia, em praça, os jargões da extrema direita, a começar por aquele “vamos salvar as crianças da ditadura da saúde”, slogan recorrente na propaganda forza-novista desde o último abril.

Com um discurso que chama para si a defesa do direito à liberdade, os negacionistas incentivam os outros a infringirem regras de segurança sanitária e pública para colocarem em risco a saúde dos outros. Isso quando o próprio “guru” da direita italiana, Silvio Berlusconi, encontra-se hospitalizado devido ao vírus e a própria negação da pericolosidade da epidemia entra em “xeque”.

Desde que a pandemia de Covid bloqueou a Itália, Forza Nuova, partido neofascista fundado em 1997, tem tido como objetivo conquistar um espaço de visibilidade online, como recorda o jornalista Andrea Paladino, para otimizar as experiências nas praças. Como o negacionismo oferece uma visão distópica do mundo, em que a ciência é negada e poucos são dignos de confiança, se um indivíduo acredita que está sendo constantemente enganado, paradoxalmente ele corre o risco de aceitar as inverdades dos outros. Desse modo, a facilidade com que partidos de extrema direita passam a instrumentalizar medos, paranóias e falta de informação das pessoas, nesta pandemia, é apenas uma das muitas oportunidades de engajar novos seguidores. Quatro anos atrás, por exemplo, Forza Nuova estava nos subúrbios romanos gritando “lares para os italianos” e cantando, na frente do Senado, contra o Jus Solis.

A propósito de Jus Solis, os negacionistas encontram ressonâncias - não raramente - nos discursos racistas, onde se interseccionam o fator da “sacrificabilidade”. Em todo mundo, a maioria dos manifestantes anti-máscaras são brancos, e os pedidos de “reabertura” da economia estão ligados à consciência de que muitas das pessoas mais afetadas pertencem a outros grupos étnicos que foram ou serão forçados a trabalhar. Como lembra Francesca Coin, com os sistemas de saúde públicos em colapso e/ou lotados, a tendência é dar prioridade àqueles indivíduos com maior esperança de vida, uma decisão que transforma os mais vulneráveis em sujeitos dispensáveis.

Em sociedades democráticas, o negacionismo deve ser derrotado por meio do desmascaramento, do descrédito científico de seus proponentes e por um sistema jurídico eficiente. O problema é que, como afirma Kahn-Harris, para os negacionistas, a existência de negação é em si um triunfo. O argumento é de que “a verdade” foi suprimida por inimigos em decorrência de um complô. Desse modo, o próprio fato de existir “resistência” é encarado como algo heróico e já representa em si uma vitória das forças da “verdade”.

A solução para o negacionismo, não apenas na Itália mas no mundo, seria o estabelecimento de uma credibilidade acadêmica alternativa e uma política desprovida de mascaramento moral. Para Kahn-Harris, isso só poderia ser possível, em um contexto onde diferentes visões do que é ser humano pudessem contestar o que é abertamente a verdade, baseado “não nas ilusões do que gostaríamos de ser, mas na prestação de contas do que somos”. E aqui é emblemático, para não dizer trágico, que os “covidiotas” se manifestem em um lugar que se chama “a boca da verdade”. Uma pena que a boca ande em desuso.

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Marcela Magalhães de Paula é doutora em Estudos Ibéricos/ Literatura Pós-colonial pela Universidade de Bolonha, na Itália, tendo ainda estudado com Umberto Eco e com Boaventura Sousa Santos. Fez Mestrado em Literatura Brasileira, pela Universidade Federal do Ceará, e em Direitos Humanos e gestão de conflitos, pela Scuola Superiore Sant'Anna di Pisa. Fez pós-doutorado na Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-brasileira (Unilab). Ganhou diversos prêmios de literatura e de pesquisa em literatura, de governos e instituições de diversos países, como Alemanha, Itália, Egito, Brasil, França, Suiça etc. Tem textos literários publicados em várias antologias e publicou, em 2015, o livro de ensaios “De cafres e de cafajestes: fluxos e refluxos de personagens no Atlântico Sul”. Co-fundou o grupo de ativistas feministas CABE, em 2018. Colabora, como jornalista, para o BlackPost, redação vencedora do prêmio de jornalismo Roberto Scialabba, apoiado pela Associação Nacional de Partigiani d’Italia, pelo empenho antifascista, na Itália



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