Cartas do Mundo

Carta de Roma: Por que livros incomodam tanto a direita?

Do Brasil à Itália, uma reflexão sobre literatura e direitos humanos, a partir da lista de ''livros inadequados'' da Lega Nord

11/11/2020 10:37

Recorte da capa do livro 'Fahrenheit 451', de Ray Bradbury (Pixabay)

Créditos da foto: Recorte da capa do livro 'Fahrenheit 451', de Ray Bradbury (Pixabay)

 
No século XIX, um artigo de Louis de Bonald, publicado no Mercure de France, lançou ao mundo a frase “a literatura é a expressão da sociedade”. Uma afirmação que trouxe no seu ventre a polêmica, um tanto determinista, de que cada nação possuía a literatura que merecia, sem levar em conta as especificidades que influenciam o sistema literário, como a censura ou as narrativas unilaterais de certas elites.

Em particular, neste momento de ascensão do conservadorismo (e, entenda-se, de direita e de fundamentalismo religioso), vemos agressões e boicotes cada vez mais frequentes a livros e a escritores, encarados de per se como “indesejáveis”. Mas, se textos de escritores progressistas desaparecessem, seria justo num futuro encarar a literatura como um retrato da nossa sociedade atual?

No Brasil, nas últimas semanas, vimos a perseguição sofrida pelo escritor João Paulo Cuenca por parte de pastores da Igreja Universal: exemplo prático de uma lamentável cruzada, fruto nada mais da continuação de políticas de aversão ao livro, do obscurantismo como ideologia, promovidas pela gestão atual do governo brasileiro. Lembrando que, em janeiro deste ano, o presidente Jair Bolsonaro defendeu mudanças em livros didáticos, afirmando que atualmente eles têm “muita coisa escrita” e que era preciso “suavizar”. Vimos ainda o absurdo projeto de taxação do livro sugerido pelo ministro Guedes para dificultar mais o acesso à cultura por comunidades pobres. Medidas assim, além de agravar a crise do mercado editorial, são capazes de aprofundar desigualdades, uma vez que a leitura representa uma plataforma de transformação social.

E na Itália?

No último 7 de outubro, na cidade italiana de Ferrara, o vereador da Lega Nord, Alcide Mosso, fez um pedido dirigido à “câmara de vereadores” para “checar” os livros comprados pelas bibliotecas, em uma tentativa de censura inaudita. Segundo Mosso, depois de ter pego emprestado uma obra literária voltada para o público infantil em uma biblioteca local, ele teria sentido a necessidade de averiguar se os livros, presentes naquele território, seriam adequados para as expectativas dos cidadãos: “os nossos, no sentido de quem votou em nós e nos pede que os representemos, por isso peço a todos os vereadores que aceitem este pedido”. O “leguista” teria considerado o conteúdo inadequado para as crianças e para os “bons costumes”.

 Em uma nota, a Associação Italiana das Bibliotecas (AIB) repudiou o pedido de Mosso, recordando o respeito devido à autonomia das bibliotecas, entendidas como serviço público e como instituições promotoras de democracia, fiadoras da inviolabilidade da liberdade pessoal e de pensamento. Tal prerrogativa se dá no entendimento de que literatura não é apenas uma arte. Ela é uma arma para agir e compreender e não uma atitude intelectual meramente abstrata.

Antes do episódio de Mosso, a Lega Nord teria redigido um ofício pedindo ao diretor territorial responsável pelas escolas de Ferrara de fornecer uma lista dos textos usados nas escolas maternais, escolas primárias e secundárias, indicando o título e a editora. Novamente o pedido era em base a convicção de que era preciso averiguar “moralmente” o conteúdo para “salvaguardar as crianças”.

Intervenções do partido de Matteo Salvini, em anos passados, também já se tinha visto no maior evento do mercado literário da Itália: o Salão Internacional do Livro de Turim. Salvini teria pedido o retiro de certos autores do evento. Contraditoriamente, em 2019, Francesco Polacchi, da editora Altaforte ligada à CasaPound, afirmou aos microfones, no evento supracitado, que era “fascista no único sentido possível” e que “o antifascismo é o verdadeiro mal deste país”. Criticado pelas suas declarações, Polacchi e Salvini alegaram o direito à liberdade de expressão e se colocaram como vítimas da “censura do politicamente correto”, quase na linha tupiniquim do fantasma do “marxismo cultural”. Vale sublinhar que a editora declaradamente neofascista, fundada em setembro de 2019, já publicou vários volumes, entre eles, A doutrina do fascismo, de Benito Mussolini. No catálogo, podemos ver ainda títulos como o Cinema alemão do Terceiro Reich - De Weimar aos anos de Goebbels etc.

            Ano passado, também causou grande inquietação, em setores progressistas, os ataques a livrarias autodeclaradas antifascistas. O caso mais famoso foram os dois incêndios dolosos à Pecora Elettrica, em Roma. A livraria tornou-se uma referência para todos os moradores pelo trabalho realizado na requalificação do parque em frente e por ser um espaço de coworking gratuito. Além disso, organizava centenas de eventos por ano, de apresentações de livros infantis a espetáculos teatrais dedicados à Resistência, encontros dedicados às questões de gênero e antifascismo. Tanto é que, após o primeiro incêndio criminoso, ocorrido na noite de 24 a 25 de abril de 2019, foi iniciado um verdadeiro mutirão para ajudar os proprietários na reconstrução do local. Infelizmente um outro incêndio, em novembro, fez com que os donos desistissem de reabrir o espaço. Assim, além de livros e autores, espaços de distribuição de livros tem sido retaliados.

E por que odeiam tanto os livros?

Como já lembrava Madame de Stäel, a literatura, como instituição social, é modificada por causas morais e políticas. Desse modo, a literatura não pode ser apreciada apenas por sua beleza, mas deve ser vista também pelo seu caráter de militância. Entretanto, por ser um produto intelectual marcado pelo subjetivismo para além do conhecimento gerado e da quebra de dogmas, pode parecer difícil encontrar uma função atrelada a uma materialidade imediata para o sistema literário. Mas... considerações assim são inadequadas.

A literatura explora as fraturas dolorosas do sistema social, evidenciando problemas estruturais e promovendo mudanças que podem ser, ao mesmo tempo, criativas e pacíficas, mas também revolucionárias, o que incomoda os detentores do poder. O caráter funcional dela reside na capacidade de recriar situações e de reforçar uma série de valores humanos, expondo e colocando em discussão papéis individuais e coletivos. Eis o motivo do acesso a livros e da própria figura do intelectual incomodar tanto, pois eles são agentes ativos de construção e consolidação de direitos.

A este propósito, Lynn Hunt, em Inventing Human Rights, afirma existir uma ligação direta entre literatura e direitos humanos. Hunt crê que não pode ser uma coincidência que os três grandes romances de identificação psicológica do séc. XVIII - Pamela (1740) e Clarissa (1747-1748), de Samuel Richardson, e Julie (1761), de Jean-Jacques Rousseau - foram todos publicados no período que foi imediatamente precedente ao aparecimento da noção dos “direitos humanos”. Para a estudiosa, os direitos humanos só puderam florescer quando as pessoas aprenderam a pensar nos outros como seus iguais. Desse modo, a origem do conceito de empatia seria fundamentalmente literário, pois derivaria de uma uma consequência direta da identificação promovida pelos livros, incorporada pelo imaginário coletivo, a partir da ascensão do gênero literário romance[1].

Em particular, Hunt sublinha como foi importante os romances epistolares nas lutas para promover a autonomia feminina. Isso se deu, pois, além dos personagens se mostrarem como sujeitos autônomos, o leitor passou a ter acesso “direto”, através da literatura, do funcionamento interno daqueles indivíduos. Esta identificação com a individualidade fez emergir um espaço abstrato de humanidade que antecipou a ideia de universalidade, em que a doutrina revolucionária deixou de ser apenas teórica.

O acesso ao livro funciona também como peacemaking agency. O italiano Guglielmo Schininà assevera que, em situações de forte polarização, comunidades frequentemente se identificam apenas com um tipo de narração, com valores que não deixam espaço para um diálogo, onde o único comportamento aceitável é a adesão de um sistema nacionalista de (anti) valores, em que não é consentido o contato com a cultura do “inimigo”. Este fenômeno é relevante pois se refere não apenas à perspectiva intercultural, mas também, em geral, a liberdade de expressão de cada indivíduo ao interno de um grupo, considerando que as diferenças e a liberdade de expressão são subjugadas muitas vezes pela censura.

Entretanto, quando examinamos o caso particular da literatura, vemos que mesmo em uma situação de conflito, ela pode tornar possível o contato entre a cultura de “inimigos”, por ser considerada uma experiência artística desenvolvida intimamente entre duas instâncias individuais: o indivíduo-autor e o indivíduo-leitor e não propriamente do indivíduo à coletividade. Um exemplo prático é a recente guerra do Afeganistão e o sucesso do livro O caçador de Pipas, do afegão Khaled Hosseini, nos Estados Unidos. Mesmo depois do 11 de Setembro, tal obra permitiu um diálogo silencioso entre as duas culturas.

Um outro princípio dos estudos literários aplicados às ciências e aos direitos humanos é que a narração é (e foi) essencial para o modo em que nos tornamos quem somos. Adquirimos um sentido para nós mesmos e para a nossa vida, seja individual ou coletivamente, quando contamos histórias e lemos livros. Trabalhos de base da psicologia social defendem a ideia de que o altruísmo esteja relacionado às nossas escolhas de como “ajudar ou não o outro” em determinadas circunstâncias, a partir de modelos já vivenciados mesmo que de forma lúdica.

 Desse modo, nossa capacidade de ajuda depende do “conceito do eu e do tu (identidade/alteridade)” que desenvolvemos em base às histórias que aprendemos a contar para nós mesmos com objetivo de compreender as nossas próprias ações e a dos outros. Quando se consideram as questões relativas ao “si” que são fundamentais para o trabalho dos direitos humanos e de humanitarismo – a empatia, a construção da comunidade e o ativismo – temos a necessidade de estarmos muito atentos à estrutura da história e ao papel da narração do “ti”, do “tu”. Neste sentido, a literatura é a grande matriz dessa compreensão.

Antonio Candido, no célebre texto o “direito à literatura” de 1988, já enfatizava o poder emancipatório da leitura e do conhecimento para a promoção dos Direitos Humanos, bem como a necessidade de democratizar a oferta de bens culturais e as potencialidades políticas da função formativa da literatura. Candido defendia que o acesso aos livros é um fator fundamental para a humanização, assim como a alimentação, moradia, educação e outras necessidades básicas para a dignidade da pessoa humana.

Dessa maneira, em um mundo cada vez mais obnubilado, onde o obscurantismo é uma máquina que trabalha a favor da manutenção de privilégios por parte de certos grupos, devemos ter em mente o poder pragmático e imediato da cultura para a paz e o diálogo. Devemos, portanto, rechaçar atentados ao sistema literário como um todo: sejam eles direcionados a agentes de produção e de consumo, bem como a todos aqueles que trabalham para manter a cadeia do livro ativa, como editores, bibliotecários e livreiros. São eles também, em última instância, ativistas em prol dos Direitos Humanos e devem ser defendidos.

Marcela Magalhães de Paula é doutora em Estudos Ibéricos/ Literatura Pós-colonial pela Universidade de Bolonha, na Itália, tendo ainda estudado com Umberto Eco e com Boaventura Sousa Santos. Fez Mestrado em Literatura Brasileira, pela Universidade Federal do Ceará, e em Direitos Humanos e gestão de conflitos, pela Scuola Superiore Sant'Anna di Pisa. Fez pós-doutorado na Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-brasileira (Unilab). Ganhou diversos prêmios de literatura e de pesquisa em literatura, de governos e instituições de diversos países, como Alemanha, Itália, Egito, Brasil, França, Suiça etc. Tem textos literários publicados em várias antologias e publicou, em 2015, o livro de ensaios “De cafres e de cafajestes: fluxos e refluxos de personagens no Atlântico Sul”. Co-fundou o grupo de ativistas feministas CABE, em 2018. Colabora, como jornalista, para o BlackPost, redação vencedora do prêmio de jornalismo Roberto Scialabba, apoiado pela Associação Nacional de Partigiani d’Italia, pelo empenho antifascista, na Itália.

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[1] Vale lembrar que, em linhas gerais, anteriormente havia uma maior preocupação com a retórica das epopeias, a imitação e até com a questão das próprias línguas latinas em suas consolidações modernas. Os problemas levantados pela literatura eram ligados às questões estéticas e de conveniências, não ainda arroladas a uma ideologia nacional e social. Mesmo a discussão da literatura como instituição e articulada à História era difícil, pois, além de não existir verdadeiramente o ensino da literatura nas escolas e universidades, ela não era vista a partir de uma metodologia interpretativa com chave sociológica. Isso só foi ocorrer a partir do Romantismo.






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