Cartas do Mundo

Carta de Roma: Um agosto italiano sob a sombra da sinédoque fascista

Da ''solução final'' proposta contra os imigrantes e o museu do fascismo aos manifestos em homenagem a Diabolik

11/08/2020 12:32

(Reprodução/radioradio.it)

Créditos da foto: (Reprodução/radioradio.it)

 
Fornos crematórios

“Servem esquadrões da morte e fornos crematórios” são as palavras, no Facebook, do chefe da Proteção Civil de Grado (Udine - Itália), Giuliano Felluga, ditas no último dia 3 de agosto. A sugestão, inaceitável, seria para conter a revolta que eclodiu dentro do antigo quartel Cavarzerani, onde 400 migrantes, a maioria requerentes de asilo, protestaram contra a prorrogação da quarentena imposta pelo prefeito Pietro Fontanini (Lega Norte).

As palavras de Felluga traduzem um momento de avanço, sem pudor, do neofascismo na Itália: acender fornos crematórios, para que assim “non rompono più” (expressão de baixo calão próxima à brasileira “para que não perturbem mais”) ilustra um ressentimento alimentado por uma paranoia social. De fato, o assessor se lamenta em outro post: “só sabemos atender os estrangeiros, e os nossos não os ajudamos”. Sentimentos privados de conhecimento efetivo que nutrem uma marcha cada vez mais veloz contra os “indesejáveis” do sistema neoliberal, agora acelerada pela crise decorrente da pandemia de Covid-19. Para Marx e Engels, a burguesia perverteria o caráter essencialmente social do ser e, hoje, o retorno do “nacionalismo/soberanismo” cumpre bem esse papel, em que valores como a solidariedade e a empatia se tornam seletivos, circunscritos à nacionalidade, à raça e ao gênero.   

Se o historiador italiano Carlo Greppi, há alguns meses, afirmava que os neofascistas fazem artifício de uma linguagem debochada para cooptar o novo público, temos visto um uso cada vez mais recorrente da “linguagem empobrecida”, na acepção de Rubens Casara, que “antecipa” sentidos vazios “e estruturalmente violentos”. Um arsenal semântico e afetivo deficitário que impossibilita o reconhecimento do outro como “ser humano” e, sim, o vê como uma mercadoria ou - quando muito - como uma subespécie, nas palavras de Boaventura Sousa Santos. Não se tem mais pudor em discriminar abertamente imigrantes, em cutucar feridas ainda abertas como o extermínio de judeus pelos nazifacistas, em uma Roma, onde, no coração do seu centro histórico, tem uma comunidade hebraica ativa desde o século II a.C.

Neste momento, a Itália vive mais um verão dentro de uma crise de migração. De Trieste à Lampedusa, uma perna do país da bota tenta chutar os “intrusos”. Desde o dia 25 de julho,  os desembarques em Lampedusa voltaram a aumentar. Atualmente, 950 pessoas estão no hotspot da Contrada Imbriacola que, no entanto, tem a capacidade para acolher apenas 95 indivíduos. Em Trieste, centenas de seres humanos, que chegam extenuados no país pela rota balcânica, se amontoam em centros de acolhimento e se rebelam, como em Udine.

Infelizmente, nacionalismo, isolacionismo, xenofobia e ataques à democracia têm aumentado há anos e, junto com eles, o fascismo e o seu saudosismo histórico. E esta tendência só será apressada pela pandemia, com uma retórica que recorrerá a uma fabricação ou deturpação de símbolos, como para a criação de um museu, por exemplo.

Em Roma, um museu do fascismo

Quando o fascismo histórico foi derrotado, com a rendição da Alemanha nazista, Bertold Brecht advertiu: “não cantemos vitória muito cedo. O útero do qual nasceu o fascismo ainda é frutífero”. Desde então, apesar dos avisos, ficamos com uma ilusão de controle de “natalidade” de movimentos neofascistas dada pela ampliação mundial de um empenho em relação à defesa dos direitos humanos, pelos processos de descolonização etc. Mesmo com a eclosão de regimes autoritários no mundo, os valores da democracia e a valia da memória nos faziam ter um pouco de esperança e baixar a guarda. Hoje, há um crescimento de esforço, por parte de alguns grupos políticos, em se criar também uma memória seletiva ou lugares potencialmente propícios a idolatrias, sem um programa ideológico “muito claro”.  

A esse propósito, no dia 3 de agosto, a Associação Nacional Partigiani d’Italia (ANPI) - junto com Associação Nacional de ex-deportados de Campos Nazistas (ANED Roma), Associação Nacional de Perseguidos Políticos Italianos Antifascistas (ANPPIA Roma), dentre outros -  fez uma nota contra a abertura de um museu do fascismo, em Roma.  Isso se deu devido à proposta 264/2020 de alguns vereadores do Movimento 5 Stelle, na última semana. Tal projeto visa criar na capital italiana, um Museu do Fascismo, ligado a um centro de estudos e aberto ao grande público. Entretanto, após lerem o texto do projeto, os integrantes da ANPI se disseram alarmados.

A preocupação se fundamenta na inexistência de uma disposição explícita para um museu sobre os crimes do fascismo, a exemplo do que foi feito na Alemanha, mas simplesmente sobre a criação de “um museu do fascismo”: “Vamos imaginar quantos não podem esperar para mostrar que o fascismo também fez coisas boas, (...) e que de forma obscena, una nazistas e comunistas. Tudo isso está previsto para um museu que será construído e administrado pelo próximo conselho (municipal) capitolino, sobre cujos valores antifascistas nada podemos prever, quando em nosso país não temos mais vergonha de falar de Mussolini e onde o fascismo se expressa até mesmo pela formação de partidos que explicitamente o defendem, referem-se a ele e demoram a ser dissolvidos”, relata a nota consultável no próprio site da ANPI.

Após o texto de repúdio da ANPI, diversos políticos se manifestaram. Por exemplo, o senador do Partido Democrático (PD) Bruno Astorre declarou que era difícil acreditar que se pudesse imaginar o avanço de um projeto desse tipo por uma maioria “penta estrelada”. Sobretudo, uma ideia saída do Campidoglio (a prefeitura de Roma), para construir um museu do fascismo na cidade: “Seria um tapa na cara, um insulto à medalha de ouro recebida por Roma, pelo seu papel na Resistência, e às muitas vítimas do regime fascista”.

Diabolik é lembrado como um herói

Apesar do debate acalorado favorável a um freio nas manifestações neofascistas provocado pelas duas polêmicas supracitadas, poucos dias depois, em 7 de agosto, cartazes apareceram colados em toda Roma para homenagear Diabolik, um ano após o seu assassinato, com direito a missas e  ao “saluto romano”, a saudação fascista. (Lembro aqui que fazer a saudação romana é considerado um reato, independentemente das circunstâncias, conforme sentença proferida pela Cassazione (Suprema Corte Italiana), em maio de 2019.)

Até o momento de sua morte - ainda não esclarecida - o nome de Fabrizio Piscitelli, conhecido como Diabolik, era temido em toda a capital por seu envolvimento com a máfia, além de ser famoso entre os ultras de toda a Itália por ser o líder histórico dos “Irriducibili”, a torcida abertamente fascista do time de futebol Lazio. Dentre outras coisas, torcida famosa por levar aos estádios faixas com insultos à Ana Frank e “homenagens” a Mussolini etc. Fez furor também um panfleto, assinado pela “gestão Diabolik Pluto”, que proibia as mulheres de estarem nas primeiras dez filas da Curva Nord do Estádio Olímpico, zona habitualmente ocupada por este time, dentre outros fatos de crônica.

“Somos fascistas, os últimos que sobraram”, comentava orgulhoso Piscitelli depois de uma bomba detonada em frente à sede do Ultras, em Roma. “Se quiserem voltar ao terrorismo dos anos 70, àquele clima, estamos prontos. Na verdade, mal posso esperar e certamente não vamos recuar”, dizia no ano passado, ao jornal La Repubblica. Além disso, em 30 de janeiro de 2000, por ocasião do jogo Lazio-Bari, circularam o mundo as imagens da faixa exibida na Curva Norte em “homenagem ao tigre Arkan”: a referência era a Zeljko Raznatovic, criminoso de guerra sérvio acusado de genocídio e crimes contra a humanidade que havia morrido naqueles dias.

Como lembra o jornalista Luigi Mastrodonato, Piscitelli era um fascista subversivo que se sentia à vontade em contato com o mundo do crime, sendo condenado por associação mafiosa e tráfico de drogas. Já o fato da prefeitura de Roma ter permitido uma homenagem no estádio olímpico, no ano passado, além de motivo de preocupação, deveria gerar uma profunda indignação. Um personagem que convinha não autorizar comemorações públicas em seu nome e que necessitaria cair no esquecimento. No mínimo, Piscitelli deveria ser desmistificado como herói, sob pena de influenciar tanto jovens quanto adultos que, fragilizados por esta pandemia, buscam novos sentidos para suas vidas e representam alvos de cooptação ideais de movimentos fascistas e afins.

Assim, se a palavra “fascismo” tornou-se uma sinédoque para outros movimentos totalitários, como afirmava o professor Umberto Eco, preocupa-me agora saber se, com este crescimento acelerado do neofascismo, nos referiremos no futuro não mais a ele como “a parte pelo todo”, mas “do todo pela parte”. Temos que ficar atentos. E lutar.

Marcela Magalhães de Paula é doutora em Estudos Ibéricos/ Literatura Pós-colonial  pela Universidade de Bolonha, na Itália, tendo ainda estudado com Umberto Eco e com Boaventura Sousa Santos. Fez Mestrado em Literatura Brasileira, pela Universidade Federal do Ceará, e em Direitos Humanos e gestão de conflitos, pela Scuola Superiore Sant'Anna di Pisa. Fez pós-doutorado na Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-brasileira (Unilab).  Ganhou diversos prêmios de literatura e de pesquisa em literatura, de governos e instituições de diversos países, como Alemanha, Itália, Egito, Brasil, França, Suiça etc. Tem textos literários publicados em várias antologias e publicou, em 2015, o livro de ensaios “De cafres e de cafajestes: fluxos e refluxos de personagens no Atlântico Sul”. Co-fundou o grupo de ativistas feministas CABE, em 2018. Colabora, como jornalista, para o BlackPost, redação vencedora do prêmio de jornalismo Roberto Scialabba, apoiado pela Associação Nacional de Partigiani d’Italia,  pelo empenho antifascista, na Itália



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