Cartas do Mundo

Carta de San Juan: governador forçado a renunciar pelos protestos populares

O governador de Porto Rico, Ricardo Rosselló, foi forçado a renunciar depois de 12 dias de grandiosos protestos de rua. A sua demissão representa um momento histórico para Porto Rico na medida em que este foi o primeiro governador a demitir-se

29/07/2019 19:25

Milhares de pessoas festejam a resignação do governador de Porto Rico (Thais Llorca/Epa/Lusa)

Créditos da foto: Milhares de pessoas festejam a resignação do governador de Porto Rico (Thais Llorca/Epa/Lusa)

 
Centenas de milhares de porto-riquenhos ocuparam as ruas, nomeadamente as principais avenidas da capital, a cidade de San Juan, exigindo a demissão de Rosselló após a denúncia de vários casos de corrupção e outros comportamentos inaceitáveis.

As manifestações foram crescendo à medida que as notícias iam divulgando as mensagens trocadas nas redes sociais entre o governador e o seu governo em que estes trocavam piadas sobre as vítimas do Furacão Maria e ridicularizavam os seus adversários políticos, utilizando um discurso de ódio e linguagem homofóbica e sexista.

Dois funcionários do governo que faziam parte destas conversas nas redes sociais, o Secretário de Estado e o responsável do governo pelo acompanhamento das situações de falências, renunciaram aos seus lugares contudo este gesto não foi o suficiente para fazer esquecer a participação do governador nas redes sociais.

Para além da denúncia das mensagens trocadas nas redes sociais o escândalo agravou-se com a detenção pelo FBI de Júlia Keller, antiga Secretária de Estado da Educação e Ángela Ávila-Marrero, responsável pela área da Saúde, ambas membros do governo de Rosselló. Detidas por corrupção ativa e distribuição indevida de cerca de 15,5 milhões de dólares em contratos para a recuperação, após a passagem do furacão, a empresas cujos proprietários eram seus familiares.

A polícia tentou travar os protestos em San Juan utilizando gás lacrimogéneo, mas nem esta violência desmobilizou os manifestantes, cuja resistência e pressão levou um dos maiores doadores de Rosselló, dono do maior centro comercial do Caribe, a pedir ao governador que renunciasse ao seu mandato.

O sofrimento causado pela situação de crise económica e a falta de respostas aos danos causados pelo furacão Maria não permitiram qualquer tolerância com os escândalos que motivaram os maiores protestos na história moderna de Porto Rico, dando voz a décadas de raiva reprimida e controlada quer pelo Partido Novo Progressista de Rosselló quer pelo partido rival, o Partido Democrático Popular. Ambos têm muita responsabilidade pela falência da economia sem nada fazer para aliviar a pobreza generalizada na ilha.

A Secretária da Justiça, Wanda Vázquez, irá assumir o lugar de governadora até às eleições em 2020 dado que, e de acordo com a constituição do território dos EUA, o secretário de Estado que seria o próximo governador, já ter renunciado por causa do seu papel nos escândalos.

O que a renúncia de Rosselló significa para o futuro de Porto Rico ainda não se sabe. Democratas e republicanos em Washington estão atentos, pois os eleitores porto-riquenhos terão um papel fundamental nas primárias presidenciais de 2020 e nas eleições gerais.

*Publicado originalmente em esquerda.net



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