Cartas do Mundo

Carta de Sidney: O dia a dia em Sidney, a cidade que parece um grande sábado

 

30/09/2018 12:30

 

 

Em roda de brasileiros em Sidney, tornou-se comum ouvir que a cidade é o Rio de Janeiro que deu certo. Noves fora o complexo de vira-lata, há um tanto de verdade e outro de exagero nessa visão.

Ainda que a tentação de comparar as duas beldades seja grande, a carta fala sobre esta que é a maior cidade australiana. Bastante frequente no imaginário, mas pouco conhecida pelos brasileiros, Sidney é uma deliciosa aldeia ensolarada e multicultural.

Por aqui não faltam belas praias, gente bonita e o sol que bate ponto. Um dia sem céu de brigadeiro em Sidney é tão incomum como um verão sem chuva para os cariocas.

A paixão pelo esporte é inegável. Até os espaços públicos são muito utilizados para rugby, futebol australiano, críquete, golfe, natação e, naturalmente, surf. De todos os gêneros, nacionalidades, idades e classes sociais, surfistas apaixonados caem nas águas frias do Pacífico Sul em busca de uma onda boa.

Se o surf é o rei da praia, a vela domina as baías. Favorecidas por um vento assíduo - geladíssimo no inverno -, dezenas de veleiros embelezam as baías diariamente.

Os veleiros disputam o espaço com caiaques e barcas que integram um eficiente sistema de transporte público multimodal integrado. Sem qualquer glamour, as velhas ferries verde-amarelo levam moradores e turistas pelas veias aquáticas de Sidney.

Esse trânsito marítimo é religiosamente respeitado pelos cruzeiros diários, que chegam com o nascer do sol e saem no crepúsculo, levando embora as hordas de turistas que lotam o Opera House e o Jardim Botânico Real.

Distinguir o residente local do turista torna-se cada vez mais aleatório. Sidney recebe quase quatro milhões de visitantes estrangeiros por ano, o equivalente a quase vinte por cento da população australiana.

Asiáticos, principalmente chineses, abarrotam os pontos turísticos, pois Sidney está para a classe emergente chinesa um pouco como Miami para a brasileira.

Mas os orientais também ficam do outro lado do balcão de incontáveis cafés, em canteiros de obra, no mercado imobiliário alucinadamente inflacionado. Sem a mão de obra estrangeira, a cidade e o país talvez entrassem em colapso.

Investimentos chineses em imóveis, educação e saúde ajudam a Austrália a bater o recorde mundial de crescimento econômico contínuo. São quase 27 anos sem recessão, com os mais recentes fazendo de Pequim seu principal parceiro comercial. A proximidade econômica com a China atrita a relação com os Estados Unidos, o aliado incondicional. Outras cartas tratarão deste tema central de política externa.

Com o preconceito à espreita, os limites à imigração dividem a população e o debate político. Afinal, quatro em cada dez residentes nasceram no exterior. Há tensão nesse quesito e muito que passar a limpo no racismo passado e presente. A dura política para os refugiados que chegam pelo mar, e o envio destes às ilhas de Nauru e Manus, refletem o sentimento dos conservadores por uma Austrália em Primeiro Lugar.

Apesar da concorrência dura, o inglês segue impávido como idioma nacional. É raro andar pelas ruas e não ouvir os mais diversos idiomas, incluindo português, este refúgio emocional para aqueles brasileiros cuja pátria virou a língua. E aquele sotaque carioca? Vai bem, obrigada, mas já não faz nenhuma diferença.

Comparar Rio e Sidney é inevitável para os brasileiros que vivem aqui, mas não deixa de ser injusto. As duas cidades não são irmãs; não são a Ruth e a Raquel das metrópoles praianas. Cada uma reflete a história e a cultura de seus países, com as mazelas e os prazeres que lhe cabem.

Sidney é imperfeita, mas não ferve em um caldeirão de desigualdade, nem tem os nervos à flor da pele com a crise da segurança pública. É a quinta melhor do mundo para se viver, três posições atrás de Melbourne, sua maior rival na Austrália.

Menor do que o Rio nuclear, Sidney tem 5 milhões de habitantes e um fluxo contínuo de imigrantes - mais de cem mil novos só no ano passado. Tinha tudo para vivenciar os dramas das grandes metrópoles.

No entanto, como diz um amigo, a cidade é um grande sábado. Tem trânsito, mas não tem. Tem trabalho, mas não tem. Tem correria, mas não tem. Gênio da publicidade no Brasil, ele constata ainda que em nenhuma outra cidade do mundo pode-se pegar um ônibus em Manhattan e, quinze minutos depois, descer em Maresias.

Nada a dizer contra isso, só a acrescentar. As próximas Cartas de Sidney pretendem cumprir o objetivo de trazer outras curiosidades culturais, sociais e políticas desta terra distante chamada Austrália, ou The Lucky Country.

*Solange Reis é professora de Ciência Política e pesquisadora do OPEU - Observatório Político dos Estados Unidos

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