Cartas do Mundo

Carta de Sydney: Mídia retrata a volta do autoritarismo de direita no Brasil

 

07/11/2018 11:15

(Reprodução/Youtube)

Créditos da foto: (Reprodução/Youtube)

 
Um dos principais jornais da Austrália, o Sydney Morning Herald (SMH), não tem dúvida de que a vitória de Jair Bolsonaro significa a chegada da extrema-direita no Brasil.

Em artigo pós-eleição, o SMH atribui o resultado a uma campanha pouco persuasiva da esquerda. O candidato progressista, Fernando Haddad, teria sido a opção insuficiente, embora fosse a única disponível.

O SMH chamou atenção para o fato de o candidato ideal da esquerda e do Partido dos Trabalhadores ser o ex-presidente Lula, preso em decorrência de um kafkaniano processo legal.

Lula tinha aproximadamente 40% das intenções de voto antes da corrida eleitoral, mas seus direitos políticos foram suspensos antes de esgotadas as apelações nos tribunais, uma artimanha jurídico-política condenada até pelo Comitê de Direitos Humanos da ONU.

A ausência de Lula e as dificuldades de Haddad facilitaram o caminho para Bolsonaro, a quem o SMH chama de “curinga que sequer tinha um partido há poucos meses”. O extremista hoje integra o PSL, Partido Social Liberal, e, em poucas semanas, governará um país fraturado.

Bolsonaro normaliza racismo, misoginia, homofobia e violência aberta contra a sociedade, diz a matéria. “Simplesmente, não há potencial para diversidade na concepção de unidade nacional que apareceu em seu discurso de vitória”, conclui.

Recentemente, o jornal atribuiu outra fraude a Bolsonaro, um nacionalista que adotou o discurso liberal por interesse eleitoral. Depois de mais de 27 anos discursando em defesa de monopólios estatais, Bolsonaro adotou o neoliberalismo do economista Paulo Guedes, um Chicago Boy que agrada ao mercado.

Não é de hoje que jornalistas australianos se alarmam com a ameaça da extrema-direita no Brasil. Em 2016, um artigo da News.com.au questionou se Bolsonaro seria o político mais repulsivo do mundo? Chamado de Donald Trump do Brasil, Bolsonaro seria ainda pior do que sua inspiração do norte, concluiu.

O site de esquerda, Crickey, chama o presidente eleito no Brasil de neofascista, mostrando que “seu programa de repressão violenta contra criminosos e oponentes políticos ganhou apoio em todas as divisões étnicas e de classe.”

Mas nem só com a democracia brasileira se preocupa a imprensa da Austrália, que já foi chamada de capital dos golpes do mundo democrático. Desde 2010, quatro primeiros-ministros foram derrubados aqui.

O destaque na imprensa australiana é o ataque de Bolsonaro à Amazônia. Reportagens anteriores à eleição trataram o presidente eleito como um lobista do agronegócio que pretende mesclar Ministério do Meio Ambiente e Ministério da Agricultura, com a instituição resultante sendo dirigida por alguém do setor produtivo.

Outras matérias alertam para o risco de fechamento do Ibama e de o Brasil sair do Acordo de Paris sobre o Clima, seguindo a predatória política ambiental de Donald Trump.

Bolsonaro também é perigo para a economia. Para o jornal de orientação liberal, The Australian Financial Review, Bolsonaro é a mais recente personificação da onda autocrática que vem virando as economias de cabeça para baixo.

O Brasil “mata o sonho dos BRICS com a eleição de um linha-dura”. Em breve, diz o artigo, poderá existir apenas RICS, alijando o mundo de outro amortecedor contra uma eventual crise global.



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