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Carta de Sydney: Partido na Austrália pediu patrocínio a lobby de armas americano

 

28/03/2019 11:42

(Reprodução/Youtube)

Créditos da foto: (Reprodução/Youtube)

 
A Austrália acordou nesta semana com a notícia de que altos funcionários de um partido político da direita radical pediram doação financeira ao maior lobby de armas americano.

Um vídeo mostra que operadores do One Nation foram a Washington buscar fundos e orientação da Associação Nacional do Rifle (NRA, na sigla em inglês).

O caso veio à tona na terça-feira (26), quando a Al Jazeera divulgou imagens de uma investigação jornalística que durou três anos. Rodger Muller, um repórter australiano, se fez passar por lobista para intermediar o contato entre o One Nation e a NRA no ano passado.

Uma das pessoas filmadas foi Steve Dickson, líder do partido em Queensland, estado da principal base eleitoral do One Nation. Dickson atribuiu suas falas a uma bebedeira e disse que “jamais pensou que Muller fosse contratado por um país árabe para interferir na política australiana”. A Al Jazeera é uma rede de comunicação sediada no Catar.

Os representantes do partido esperavam conseguir até US$ 20 milhões para uma campanha pró-armas na Austrália, valor que teria sido recusado pela NRA.

O vídeo também mostra Dickson explicando a pessoas ligadas aos irmãos Koch que as verbas poderiam mudar o sistema de votação na Austrália. Charles e David Koch são milionários americanos que lançaram o movimento Tea Party e cuja rede de influência é conhecida por formular políticas públicas para os republicanos mais conservadores.

Mas os encontros renderam frutos didáticos para o One Nation. Os lobistas americanos sugeriram técnicas de promoção, como vídeos curtos nas redes sociais apresentando os benefícios das armas para defesa pessoal. Em relação a como falar com a imprensa em caso de um massacre, a associação recomendou não dizer nada ou tomar as perguntas como “ofensas”.

Pauline Hanson, líder do One Nation, não comentou o vídeo nem se sabia do plano. A senadora ajudou a aprovar a lei que proíbe doações estrangeiras acima de AUD 250 para partidos nacionais. A votação no Parlamento aconteceu semanas antes do encontro com a NRA.

No mesmo dia em que estourou o escândalo, seu partido procurou a polícia federal para denunciar interferência estrangeira na política doméstica, referindo-se à Al Jazeera. Hanson é conhecida por seu posicionamento contra muçulmanos.

Outra agenda do One Nation é relaxar a bem-sucedida política de armas na Austrália. No entanto, 85% da população são a favor de aumentar ou, pelo menos, manter o controle.

Em 1996, o país praticamente baniu armas automáticas, semiautomáticas e outros tipos. A posse não é totalmente proibida, mas depende de avaliação rigorosa e justificativa forte. Não basta dizer que é para proteção pessoal. Quem tiver armas deve também se submeter a inspeções aleatórias da polícia para garantir que estejam guardadas com segurança.

Não houve ataques em massa no país daquele ano até maio de 2018, quando um homem se suicidou depois de matar seis familiares. Antes da legislação, 18 casos haviam sido registrados.

Scott Morrison, primeiro-ministro da Austrália, disse que o One Nation tentou leiloar a política de controle de armas a grandes pagadores no exterior.

O assunto deverá aumentar a dúvida da Coalizão no governo a respeito de associar-se ou não ao One Nation nas eleições federais de maio.

Morrison assumiu o governo em agosto do ano passado, depois de uma controversa votação intrapartidária que levou à queda do então primeiro-ministro, Malcolm Turnbull.

Mas sua popularidade não parece ser suficiente para garantir a vitória da Coalizão sem alianças com outros partidos conservadores. Por outro lado, a união com o One Nation ficou mais problemática depois do recente atentado terrorista cometido por um australiano contra fiéis em duas mesquitas na Nova Zelândia.



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