Cartas do Mundo

Carta de Sydney: Política australiana vasculha casa de jornalista para saber nome da fonte

 

05/06/2019 18:32

 

 
A polícia federal da Austrália entrou na residência de uma jornalista, na terça-feira (4), à procura de nomes de possíveis fontes e de informações sigilosas.

Annika Smethurst (32), editora de política nacional da News Corp Australia, teve a casa, o computador e o celular vasculhados. Amparados por um mandado judicial, os policiais alegaram procurar dados considerados potencialmente perturbadores para a segurança nacional.

Smethurst vive em Canberra, capital do país, e já recebeu prêmios por jornalismo investigativo. Em abril do ano passado, publicou uma reportagem sobre conversas entre autoridades dos Ministérios da Defesa e do Interior a respeito de medidas para aumentar a capacidade do governo de espionar cidadãos.

De acordo com a apuração de Smethurst, a agência de ciberinteligência, Australian Signals Directorate (ASD), passaria a ter amplos poderes para acessar e-mails, mensagens de texto e contas bancárias de qualquer pessoa na Austrália. A ASD, que tem sua competência limitada ao exterior, não precisaria da autorização de um juiz para atuar em casa. Bastaria a permissão dos ministros da Defesa e do Interior.

Segundo a legislação vigente, somente policiais federais e agentes da ASIO, agência de espionagem doméstica, podem espionar australianos. Ainda assim, é imprescindível uma ordem judicial.

Na época da reportagem, representantes da ASD e dos ministérios negaram a existência de qualquer plano do tipo revelado pela jornalista, que mostrou ter cópia de um documento oficial.

A ASD integra os Five Eyes (Cinco Olhos), espécie de consórcio de inteligência que inclui Austrália, Estados Unidos, Reino Unido, Canadá e Nova Zelândia.

Outro jornalista teve sua casa e dispositivos revistados pela polícia federal na terça-feira. Ben Fordham, radialista da 2GB, disse que as autoridades queriam saber como ele obteve informações sobre seis barcos com refugiados que teriam tentado chegar à Austrália.

O governo australiano mantém uma política dura contra imigração pelo mar, que é praticamente a única forma de se entrar ilegalmente no país, tendo em conta a não existência de fronteiras terrestres. No ano passado, a ONU criticou a Austrália pela detenção ilegal de imigrantes nas ilhas de Manus (pequeno país na Micronésia) e Nauru (parte da Papua-Nova Guiné), no que se tornou uma mancha na reputação australiana.

A ação dos policiais na casa da jornalista causou indignação e preocupação na imprensa. Para a News Corp Australia, a investida foi “ultrajante e pesada”, “um ato de intimidação.

Na opinião de Tim Singleton Norton, diretor da Digital Rights Watch, a busca e a captura das pegadas digitais de Smethurst representam um risco considerável para os australianos que decidam expor uma transgressão nos serviços públicos”.

A Aliança de Arte, Entretenimento e Mídia (MEAA), maior sindicato desses setores, considera que houve uma tentativa de punir uma jornalista por uma história legítima e de interesse da população. Marcus Strom, representante da MEAA, estranhou que tudo isso tenha ocorrido um ano após a publicação da matéria e poucos dias depois da eleição inesperada de um governo muito conservador.



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