Cartas do Mundo

Carta do México: A nova (velha) direita mexicana

 

20/10/2020 13:53

O líder nacional da Frente Anti-AMLO, Gilberto Lozano, convocou os mexicanos a se unissem para obrigar López Obrador a deixar a presidência do país (Reprodução)

Créditos da foto: O líder nacional da Frente Anti-AMLO, Gilberto Lozano, convocou os mexicanos a se unissem para obrigar López Obrador a deixar a presidência do país (Reprodução)

 
Estimado amigo:

Estas últimas semanas foram, como podes imaginar, muito difíceis para mim e para os meus. Não é, possivelmente, uma situação excecional, pois é claro que todos estamos passando por momentos complicados; mas o facto que esta situação seja partilhada, não a faz realmente mais fácil. Ao longo destes dias, não obstante, pouco a pouco, existem algumas coisas que vão melhorando. A dor nunca se irá, estou seguro, mas a vida é uma dura lutadora e busca sempre o seu próprio caminho.

Gostava de poder dar-te boas notícias da minha terra. Desafortunadamente não é fácil fazê-lo. Se bem que a taxa de contágios reduziu-se, parece claro que isto se deve mais a um processo natural da própria epidemia do que à efetividade das medidas tomadas. Alguns resultados, neste sentido, são terríveis. O número de pessoal médico que ficou doente e faleceu é alarmante; o número de provas por habitante é ridículo. Se o poder público fracassou nos processos mais elementares que foram requeridos, os poderes fáticos foram inclusivamente mais além. Os barões do dinheiro negam-se a incluir até as indicações mais mínimas e lutam, encarecidamente, contra todas as tentativas de regulá-los.

Neste cenário, a direita decidiu atacar em todas as frentes. Algumas são francamente ridículas. Outras são perigosas, tanto a nível discursivo como ideológico, como até no terreno das ações concretas. A busca sistemática de gerar descontentamento chega a extremos como negar a entrega de medicamento a doentes crónicos, apesar de os governos locais e farmacêuticas possuírem-nos, assim como à repetição de ações, que estou seguro conheces muito bem, como o uso dos Media televisivos para difundir notícias falsas, o ataque contra as indicações médicas e o uso indiscriminado de redes sociais para gerar enganos e difundir mentiras.

Como bem sabes, o governo atual é o primeiro, em muitos anos, que se considera a si mesmo como “de esquerda”. Como sabes todos os governantes progressistas da região possuem problemas enormes que dificultam serem chamados totalmente desta maneira. Os processos de austeridade, uma medida necessária num México acostumado a governos faraónicos, foram sendo lentamente redirecionados. Enquanto os grandes personagens da vida pública mantêm o seu nível de vida com reduções mínimas, os direitos sociais e laborais dos trabalhadores do Estado, principalmente em postos médios e baixos, são atacados. Tal esteve patente, inclusivamente, entre aqueles que defendem as medidas como necessárias e que agora buscam formalismos e exceções para si mesmos, enquanto gozam de privilégios que antes criticavam constantemente.

Mas apesar disso, enquanto em muitos destes elementos nada mudou, existem outros – muitos! – em que as coisas vão muito melhor agora do que iam em governos abertamente neoliberais, como os que propunham a direita nos seus múltiplos partidos. Os programas sociais foram ampliando os seus beneficiários de maneira exponencial e as populações mais desprotegias têm agora um mínimo que deverá aumentar, o que com outros governos teria sido inconcebível. Não é de estranhar pois que o presidente mantenha um amplíssimo apoio popular, inclusive de pessoas que foram prejudicadas de maneira direta por algumas das medidas implementadas.

Neste cenário, o rancor e o desprezo de uma certa minoria nacional incendiou-se. Tu conhece-los bem; são aqueles que não basta estarem bem, senão que também requerem que o resto não poda ter o mesmo que eles. São os que exigem vassalagem e que pedem um trato diferenciado para eles mesmos. São os que se pensam superiores e que creem que igualá-los com o resto, é faltar-lhes ao respeito.

Ao início, este sentimento foi encontrando eco através de ações individuais, tornadas virais muitas das vezes através das redes sociais. Homens e mulheres que, de forma agressiva, exigem privilégios por condições reais ou imaginárias, acostumados a explorar aqueles que insistem em ser tratados como iguais. Todos escutamos em algum momento alguém a dizer algo como “não sabes quem sou” ou “não sabes com quem te estás a meter”, o que se faz acompanhar de insultos indiscriminados, geralmente raciais ou de classe. Popularizaram-se, para descrever aqueles que tomavam estas atitudes, os términos de “lordes” ou “ladies” e o folclore popular converteu-os em objeto de escárnio em cada ocasião que algo assim sucedia.

Este fenómeno, não obstante, não é gratuito em nenhum sentido. Devemos recordar que a sociedade mexicana é uma das mais desiguais do mundo. O Brasil é talvez um dos poucos lugares que pode entender isto em toda a sua magnitude. Em ambos os países, eu bem o sei, vê-se como algo normal que a gente, uma certa gente claro está, seja maltratada por outros, quem se assumem superiores. Não é de estranhar que se neguem serviços a alguém pela sua aparência e que o trato de todos, desde do guarda de segurança até ao gerente de um negócio qualquer, se diferencie sempre segundo como está vestido e segundo as suas características físicas. “Como te veem, é como te tratam” diz o ditado mexicano que, suponho, também terá um equivalente na tua terra. Quando eu era uma criança, muitos lugares proibiam o ingresso de pessoas indígenas e não é raro ainda encontrar aqueles que são expulsos de algum sítio porque alguém considera que a sua aparência não é suficientemente adequada para que possam estar aí.

É compreensível, assim, que a gente que mantém estas formas – devemos recordar que não são formas naturais, senão esforços sociais coordenados para manter uma divisão social estratificada que gera uma situação privilegiada para uns poucos – se dirija em termos despectivos ao presidente e àqueles que por ele votaram. Ridicularizar a sua roupa e a sua família é uma prática comum entre algumas pessoas, que falam também da suposta baixa educação ou pouca inteligência das pessoas que apoiam as suas propostas. Conheces bem os argumentos: o pobre é pobre porque quer, porque é preguiçoso (ou tonto) e a gente rica é rica nada mais devido à sua inteligência e esforço. Toda tentativa de fazer um processo de redistribuição, é oferecer dinheiro para quem não merece e apoiar a mediocridade. Nesta narrativa, o presidente reflete tudo aquilo que desprezam, pois mostra a contradição do seu discurso. Ele é o recordatório que sem importar o muito que alguém se esforce (olha, ate pode chegar a ser presidente de um país), para eles será sempre um reles, um vulgar, um ignorante, por as suas características físicas, étnicas o de raça.

Estas explosões de desprezo são, é claro, um reflexo da mudança em curso a nível do sentido comum da gente. Porque eles, os lordes e as ladies, sempre atuaram da mesma maneira, como se fossem infinitamente superiores aos outros. Mas, nunca haviam necessitado ser violentos. Simplesmente, falavam e as coisas eram feitas, nos seus modos, nas suas formas, cumprindo sua total e completa vontade. As atuais recusas em manter o estado de coisas pela grande maioria, levam-nos a ter uma série de acessos de raiva em que mostram como realmente são. E eles, incapazes de aceitar o seu erro, redirigem o ódio que têm em ser tratados como iguais em direção a quem consideram ser o iniciador de tudo isto: o presidente. Acusam-no de “gerar polarização” e “de criar problemas donde não existiam”. Claro está que a polarização não advém dos seus tratos, nem os problemas advêm das suas atitudes. Surgem sim, assim dizem eles próprios, do facto que o presidente faz que os pobres os reles, os índios, acreditem que todos somos iguais.

Neste sentido, é compreensível que estas pessoas tentassem organizar o seu descontento, contra a sociedade que rejeita a suas formas elitistas, mas também contra o governo que acham culpável da rejeição. Assim, dezenas de pequenos grupos, cada um com as suas próprias e estapafúrdias agendas, começaram a surgir contra Morena. Alguns acusavam, como sempre, o comunismo, outros falavam de Soros, de Gates e de grupos de extremo poder. Uns buscavam que se defendera a religião única e outros criticavam que agora se apoiava o ateísmo. Começámos a escutar discursos contra a ideologia de género e a favor da família natural, em contra do feminismo e a favor dos direitos que eles assumem possuir. As suas manifestações, sempre pequenas, estavam carregadas de frases sem sentido e propostas muitas vezes contraditórias, tendo enfim começado a coordenarem-se sob o nome de FRENAAA (Frente Nacional Anti-AMLO).

A pandemia proporcionou um momento inigualável para eles. Aproveitando-se da dor de algumas pessoas, começaram a tentar culpar o atual governo de tudo o que sucedia. Aparentemente a história da falência do nosso sistema de saúde parece ter sido levada a cabo neste último ano e meio. De alguma maneira, parece que antes do atual governo, nós tivemos um sistema de saúde digno dos países nórdicos e que agora, por uma combinação de incapacidade e de má fé, temos o sistema de México. Sabendo que as pessoas não os ridiculizariam como em outras ocasiões, pois estavam concentradas em outras coisas, eles começaram a sair às ruas. Em automóveis. Tomaram, momentaneamente, as praças. Nunca com bons resultados. Há algumas semanas decidiram manter um “plantão indefinido” no Zocálo da Cidade do México, mas sabendo que não contavam com poder de mobilização, simplesmente compraram centos de tendas de campismo e deixaram-nas aí, como se elas fossem dos manifestantes. Isto levou a noticias humorísticas e a vergonhas alheias. Nos primeiros dias, dezenas de tendas foram retiradas por pessoas sem-abrigo que levaram-nas depois de um conato de briga. A gente passava pelo suposto acampamento e todo tempo mostrava que estava vazio. Os organizadores criaram mecanismos de “segurança” e impediram a passagem de pessoas “alheias ao movimento”, mas a ventania começou a levar as tendas, vazias, tais como as propostas da Frente.

O rancor e o ódio crescem, desta maneira, neste país que tanto amo. Mas não, como dizem os mimados, porque os pobres invejam os ricos e os bem-sucedidos. Acontece porque a gente, pela primeira vez em muito tempo, sente que pode tirar de cima a bota que sempre lhes esmagou o pescoço. E eles, temerosos que a sua suposta superioridade seja vista como é na realidade, então gritam, chateiam-se, são agressivos e ameaçadores. Porque, como dizia Galeano, nada lhes dá mais medo que constatar que aqueles que antes os temiam, já não tem medo deles. O mais grande perigo está agora a começar; porque como bem sabes, eles não gostam de que a gente não tema. E podem fazer qualquer coisa, para que o medo volte.

Sergio Martín Tapia Argüello é pesquisador de doutorado no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra e membro do Grupo Latino-Americano de Pesquisa em Direito Crítico da Universidade Nacional Autônoma do México (Crítica Jurídica Latinoamericana). Seu trabalho gira em torno de uma visão crítica dos direitos humanos e do ensino da lei



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