Cartas do Mundo

Carta do México: Da esquerda para a direita

 

17/05/2020 14:34

 

 
Querido amigo,

Começo esta carta, no meio desta que, talvez, seja a mais grave crise de saúde que experimentamos em nossas vidas. Gostaria de lembrá-lo que não é a primeira que nós, mexicanos, experimentamos. Onze anos atrás, em março de 2009, a Gripe A, causada pelo vírus H1N1, foi encontrada e relatada aqui pela primeira vez no mundo. Naquele então, como agora, nos deparamos com uma nova doença com risco de vida, para a qual não havia cura. Mas aquele mal não era totalmente desconhecido. Doenças semelhantes já eram conhecidas. Assim, tanto a cura quanto a vacina terminaram sendo desenvolvidas em um pouco tempo.

Lembro com pesar daqueles dias. Já estávamos em um período sombrio, com um crescimento incessante de insegurança e criminalidade que nunca parou desde então. Em outras ocasiões, em outras cartas, vou lhe contar sobre essa história terrível que custou tanto sangue para minha terra e meu povo. Mas, por enquanto, este momento serve para eu poder provar a vigência daquele velho dito popular: “as desgraças nunca chegam sozinhas”.

Por um lado, a epidemia atual não parece que vai terminar em breve. Receio que teremos que nos acostumar com uma nova normalidade e, nela, muitas e muitos desaparecerão, por essa causa e por muitas outras. Entre os ausentes, receio, estará o meu amado professor, Oscar Correas, de quem agora gostaria de lhe contar um pouco, embora o nome dele, especialmente entre os dedicados ao direito, seja bastante conhecido em Nossa América. Não é para menos, porque sua voz, crítica, justa e severa, como a de todo bom marxista como ele era, soou em todo o continente, numa época em que todos eram obrigados a ficar calados.

Ele nasceu na Argentina, em 1943, embora gostasse de dizer que também nasceu no México. Teve que deixar o primeiro de seus dois países nos Anos 70, antes do início, de forma mais clara, de uma das tantas ditaduras militares argentinas, e do assassinato de seu parceiro e amigo Alfredo “Kuky” Curutchet pela chama Triple A (Aliança Anticomunista Argentina). Veio a este país que, como você sabe, é terra de refúgio universal – embora, em tantas ocasiões, ela tenha dado tão pouca segurança aos que aqui vivemos, por nascimento ou convicção. Em Puebla, uma bela cidade e local de sua chegada, encontrou amigos e a possibilidade de aprofundar seu trabalho, como gostava de fazer: coletivamente. Ele desenvolveu suas ideias para uma crítica jurídica latino-americana e foi para a França, onde obteve seu doutorado participando do grupo “Critique de droit”. Mais tarde, mudou-se para a Cidade do México, onde encontrou na Universidade Nacional a nova casa que procurava há muito tempo.

Se devo apresentar seu trabalho de alguma maneira sintética, direi que é uma visão kelseniana do direito, a partir de uma interpretação marxista. Certamente, Kelsen não tem um nome muito bom entre aqueles que afirmam desenvolver uma crítica da lei, mas, para ele, esse autor foi muito mais citado e atacado do que lido e estudado. Em dois de seus trabalhos, agora clássicos – “El Otro Kelsen” e “Kelsen y los Marxistas”, ele desenvolve esta ideia em profundidade, juntamente com outros.

O problema central em seu trabalho, tanto em seu papel como advogado como acadêmico, sempre foi a justiça. Uma justiça que, como ele disse, todos conhecemos perfeitamente. Especialmente quando está sendo violada. Sua voz esteve sempre com aqueles que a necessitavam: estudantes, trabalhadores, mulheres, camponeses, povos indígenas e comunidades. Apesar do que isso poderia lhe custar, ou contra quem poderia confrontá-lo, ele nunca se calou diante do que considerava injusto.

Então, querido amigo, gostaria de lhe dizer que, apesar da tristeza que certamente me seguirá para sempre, meu sentimento principal é uma gratidão total e absoluta. Por tudo o que ele fez por mim, o que ele fez de mim, e aquilo que fizemos juntos. Sem ele, eu não poderia ter feito nada do que consegui. O mundo sempre pareceu grande demais para mim, vazio demais, mundo demais para poder fazer alguma coisa. Eles, que estão sempre à nossa frente, pareceriam fortes demais, poderosos e espertos demais.

Minha vida mudou no dia em que encontrei os exemplares antigos da revista que ele dirigiu, Crítica Jurídica, em uma prateleira meio vazia na Universidade Estadual de Puebla, onde ele e eu estudamos, em momentos diferentes. Algumas se dobradas pelo arranjo, pareciam, como ele sempre dizia, as borboletas amarelas de Mauricio Babilonia. Ele ria. Eu, estimulado pela sorte de cruzar seu caminho, consegui obter, eu mesmo, minhas próprias asas.

Agradeço a você, meu amigo, que seus olhos e seu coração estejam aqui para compartilhar comigo. Agora, nos últimos momentos do dia do professor, vou me servir uma taça de vinho e brindarei em sua memória.

Sergio Martín Tapia Argüello é pesquisador de doutorado no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra e membro do Grupo Latino-Americano de Pesquisa em Direito Crítico da Universidade Nacional Autônoma do México. Seu trabalho gira em torno de uma visão crítica dos direitos humanos e do ensino da lei

*Tradução de Victor Farinelli

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