Cartas do Mundo

Carta do México: O populismo em México

 

12/02/2021 11:14

(Kevin Lamarque/Reuters)

Créditos da foto: (Kevin Lamarque/Reuters)

 

Um espectro ronda os discursos da direita mexicana; o espectro do “populismo”. Entre os políticos atuais destas correntes, não existe nenhum que não acuse a outro ser populista. Toda a política popular torna-se, aos olhos dos seus detratores, “populista”. Porque não importam os efeitos, positivos ou negativos, que essa política em particular possa ter. Não importa os problemas que solucione ou que produz. Importa que as políticas “não sejam populistas”. E populista é, claro, tudo o que eles não gostam.

Num dos seus textos mais conhecidos, Pierre Bourdieu falava do “poder de nomear”, a faculdade que certas pessoas possuem para poder chamar a algo de uma maneira e exigir que esse nome seja socialmente aceitado. Quando alguém diz que existem “medidas sensatas” e “medidas populistas” para um problema, não está a dizer que umas medidas são adequadas e outras não; o que está a dizer é que aquelas medidas que são atrativas para ele são as únicas possíveis. Quem tem o poder de nomear medidas sensatas esta a dizer de antemão, quais são as respostas que devem ser estudadas. Se ele não gosta de alguma medida, não precisa de confrontá-la. Só tem que chamar de populista e dizer que ninguém sensato pode em verdade gostar dela.

Usado como ferramenta simbólica, o poder de nomear é também esgrimido em contra dos oponentes, que contaminaram absolutamente tudo o que façam com o seu “populismo”. A mesma decisão, tomada por pessoas diferentes, será então populista ou sensata, dependendo da pessoa e não da decisão ela própria. Vemos assim um desdobramento de personalidade. Uma medida pode ser defendida ate o momento em que é apoiada “pelos populistas”. Então, ainda que seja a mesma medida, será qualificada como inaceitável, terrível e contraproducente.

Durante as últimas semanas, existiram dois momentos em que esta visão fantasmagórica foi utilizada no meu país. A primeira deveu-se aos processos de compra, aplicação e distribuição das vacinas contra a COVID-19 pelo governo mexicano. A segunda refere-se a resposta dada pela esquerda ao período de transição nos Estados Unidos. Ambas são parte de uma tentativa mais da direita para ocultar os seus próprios postulados e ideias. Não é que sejam de direita, e que “não são populistas”.

O México é um dos poucos países no mundo, que atualmente tem, por meio de contratos de compra garantidos, toda a sua população coberta pelas vacinas correspondentes. O primeiro lugar nesse sentido é o Canadá, quem comprou e assegurou vacinas suficientes um número de pessoas três vezes superior à sua população. Qual o motivo? Não sei. Mas isso tem impedido que outros países do continente, como Uruguai ou Bolívia, tenham acesso direto às vacinas (que já estão esgotadas nos fornecedores) e talvez, que amanhã, tenham que comprá-las com encargos adicionais às distribuidoras do Canadá. Da mesma forma, muitos outros países foram colocados em lista de espera até 2022, pois primeiro deve ser atendida a demanda excessiva de vacinas feita pelo governo do nosso vizinho do Norte. Da mesma forma, o México foi o primeiro país da América Latina a receber as vacinas e já foi anunciado que a sua produção começará, em nosso país, para uma distribuição focalizada no continente.

Apesar disso, vários atores de direita mentiram descaradamente sobre o acesso às vacinas noutros países. Aprovadas com decretos de emergência, estas não se encontram para venda privada em nenhum lugar. Caberá aos governos distribuí-las, pressupondo-se também uma entrega escalonada baseada em princípios de utilidade segundo as condições e contraindicações da vacina, mas que, em termos gerais, se inicia com a vacinação do pessoal de saúde de primeira linha para depois continuar com os grupos mais vulneráveis. Não obstante, figuras públicas da direita têm tentado enganar as pessoas, dizendo que, nos Estados Unidos, a vacina é comprada em supermercados ou em grandes superfícies, que pode ser colocada em qualquer farmácia ou que, simplesmente, não existe nenhum tipo de controlo sobre quem pode administrá-la. Além disso, indicaram que o mercado é tão, mas tão perfeito, que as vacinas naquele país estão sendo vendidas por 4 dólares, que equivale ao custo de produção.

Muitas pessoas já denunciaram a falsidade destas declarações. Paco Calderón, um cartunista, conhecido pelas suas posições conservadoras e, em certas ocasiões, abertamente racistas e machistas, indicou nas redes sociais que a sua família vacinou-se em Houston depois de pagar 4 dólares e com um tempo de espera de 15 minutos. Ao ter sido desmentido, simplesmente disse que a sua mentira foi necessária para ganhar uma discussão, mas que assim é como será no futuro. A diferença, disse ele, é que MORENA (o partido de esquerda no governo atualmente) pretende acaparar o mercado de vacinas no México, impedir que particulares tenham acesso a elas e controlar desta maneira a população.

Seguindo esta linha de argumentação, Fernando Belaunzarán, do Partido da Revolução Democrática - grupo político originalmente de esquerda que virou à direita diante o alor de outras forças políticas que ameaçavam fazê-lo desaparecer - exigiu junto com outros políticos da oposição que Andrés Manuel “permitisse que particulares comprassem a vacina”. Quando o presidente indicou que não havia proibição explícita do governo e que se conseguissem fazer com que os laboratórios lhes vendessem as vacinas, eles poderiam comprá-la, eles responderam que que AMLO sabia perfeitamente que não era possível comprar a vacina.

Creio que todos os mexicanos temos já algum conhecido que coloca a sua opinião política no cata-vento dos seus ódios pessoais. Não existe nenhuma medida, que não seja populista, se é realizada por pessoas que qualificaram-na desta maneira. Permitir a interrupção do gravidez é populista, porque é pedido pelas feministas. A sua proibição é populista, porque parece ser o que deseja certa esquerda presa ao passado. Consultar a população é populista, porque para isso escolhemos os nossos governantes, mas tomar uma decisão sem fazê-lo, também é igualmente populista. A única opção válida é que governe a direita, que poderá tomar a decisão sensata que lhe corresponda.

Só por esta forma de ver o mundo, é possível compreender a relação contraditória de rejeição e atração que a direita, no México, nutre pelos princípios e pela figura de Donald Trump. Até o mais obtuso dos observadores deve agora aceitar que o ovo da serpente está no ninho prestes a quebrar-se em mil pedaços. A carga realizada pelos partidários de Trump no Capitólio dos Estados Unidos, que interrompeu o ato formal que tornaria Joe Biden presidente eleito daquele país, claramente contou com a conivência de forças estatais num nível apenas observável no início dos regimes fascistas do passado.

Perante este monstro que se gesta no país vizinho, alguns pretendem encontrar semelhanças com o governo mexicano. Forçando comparações que seriam ridículas se não mostrassem muito bem as suas intenções de desinformação, alguns pretendem, por meio de um passo mágico, colocar-se tanto quanto possível distantes dos seus semelhantes; a direita mexicana insiste em que o que vimos nos EUA não é a direita entregue ao seu livre-arbítrio, senão os populistas. Que podem ser, insistem, de direita o de esquerda.

Se os limites conceituais com que a direita tenta construir esta categoria são nebulosos, os seus princípios éticos presentam-se claramente. A naturalização do discurso de ódio que ocorreu durante a administração de Trump parece fantástica para eles; os elementos-chave das políticas fiscais do presidente republicano, são defendidas como positivos, até mesmo necessários. Sonham com um sistema de saúde e educação norteado pelos mesmos princípios e anseiam por uma política migratória ainda mais dura do que a desenvolvida por aquele país. Seu ódio por Trump não é dirigido a nada do que torna Trump possível, mas a outra coisa: o fato de mostrar abertamente o que eles têm aprendido a calar. A direita mexicana sabe perfeitamente que o confronto aberto seria prejudicial para eles neste momento histórico. É por isso que podem vestir t-shirts do “Black Lives Matter” enquanto exigem que os manifestantes mexicanos sejam “colocados no seu lugar” pela policia. Não vem contradição alguma, porque para eles são coisas totalmente distintas.

Sabe-se que os gigantes das redes sociais decidiram fechar a comunicação de Donald Trump em seus canais oficiais citando o perigo potencial de violência que poderia advir de seu uso. Também o fizeram, de forma unidireccional, sem qualquer possibilidade de defesa e com base, segundo eles, no contrato adesivo de condições de utilização que todos aceitamos na entrada nas redes. A direita está extremamente feliz, porque assim encontra um bom reflexo de seu comportamento hipócrita; Não é que tenha sido decidido deixar de tolerar discurso de ódio, nem que tenha sido decidido remover conteúdo ilegal ou potencialmente perigoso por uma questão de princípio. É simplesmente uma decisão de negócios: Trump é uma marca acabada e insinuar-se com a nova administração exige um sacrifício.

Por tudo isto, resulta chocante que exista alguém que veja as declarações de Andrés Manuel sobre este facto e sobre a necessidade de regular estas condições de uso das redes sociais como uma defesa do discurso de Trump. Não se trata, em última instância, de que as redes sociais magicamente voltaram a um lugar livre de discurso de ódio ou falsas notícias. Se isto fosse assim, estou seguro que a direita estaria a chamar a defesa da liberdade de expressão abstrata e liberal que sempre se usa nestes casos. Trata-se de perguntar pelo papel das redes sociais e pelo poder que os gigantes da informática têm nas sociedades modernas; de falar sobre o estado e a regulação que este deve ter sobre as empresas. Mas questionar isto, que é algo profundamente de esquerda, não é, para eles, nada mais nada menos… que populismo.

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