Cartas do Mundo

Carta do México: Os pontos históricos que explicam o triunfo de López Obrador no México

 

11/07/2018 17:45

 

Por Camila Matrero
 
A vitória de Andrés Manuel López Obrador (também conhecido como AMLO, que é a sigla do seu nome completo) no México, com 53% dos votos, serve para frear (ou ao menos colocar em dúvida) a ideia de uma restauração na região. Desde os tempos da hegemonia indiscutível do Partido Revolucionário Institucional (PRI), um presidente não era eleito com uma votação superior aos 50 pontos percentuais.

Obrador no tabuleiro político mexicano

Nestas eleições, AMLO soube conjugar a esperança de transformação demandada pelo eleitorado num apelo a um futuro sustentado no passado mítico da primeira revolução social bem sucedida do continente, mesclado também ao cardenismo dos Anos 30, o movimento nacional popular que terminou de concretizar as promessas revolucionárias, ao estender a reforma agrária, nacionalizar o petróleo e estabelecer um programa de educação socialista na república.

O uso do legado de Lázaro Cárdenas como fonte de inspiração não é por acaso. Num país que perdeu a soberania alimentar há décadas, e que atualmente depende da importação de milho estadunidense, sendo esta a base da alimentação da sua população, AMLO acerta ao recuperar o ideário do homem que mais compartilhou terras entre os camponeses na história do país, a melhor forma de falar com esse Sul que tanto sofreu com as consequências do Tratado de Livre Comércio da América do Norte (NAFTA, por sua sigla em inglês).

O discurso de Obrador atingiu em cheio esses corações do campo, ao dizer a essas pessoas que o seu trabalho tem valor, que o crescimento econômico não tem que ser alcançado somente através da indústria (que tem seus pólos nas regiões do norte do país) e que seu projeto necessita deles organizados. Tampouco é casual o decidido apoio que recebeu do Movimento Camponês Plano de Ayala Século XXI 2.0, que conta com grande presença indígena.

AMLO foi o primeiro candidato a reivindicar os preceitos do Bom Viver (cruciais nos momentos fundacionais dos processos boliviano e equatoriano) e propôs recuperar os conhecimentos das grandes civilizações pré-hispânicas.

Outro fator preponderante da aliança vencedora das eleições, que recria uma das bases de apoio do projeto cardenista, é o professorado. AMLO obteve o respaldo do Sindicato Nacional de Trabalhadores da Educação (SNTE) e da Coordenadora Nacional de Trabalhadores da Educação (CNTE), organizações que estiveram firmes na luta contra a Reforma Educativa impulsada por Peña Nieto, e que o agora presidente eleito já prometeu que irá desfazer.

O terceiro aspecto que vincula AMLO com o movimento nacional popular dos Anos 30 é o energético. Se Lázaro Cárdenas, ao nacionalizar o petróleo, deu o golpe mais audaz contra as companhias estadunidenses, o grande desafio deste tempo é reverter a reforma energética promulgada nesta atual administração do PRI, e fortemente criticada por López Obrador.

Entre suas propostas de campanha se encontra a revisão das concessões petroleiras, uma baixa nos preços dos combustíveis e a construção de 5 refinarias, para que a produção de hidrocarbonetos volte a ser uma política estatal em termos de desenvolvimento econômico e geração de postos de trabalho.   


Crônica de uma ascensão

Ao entender esses processos históricos mexicanos percebemos que o fenômeno de López Obrador não saiu de um repolho. AMLO não é uma novidade na política do país dos mariachis, como sim foram os líderes dos processos da Venezuela (com Hugo Chávez em 1998), da Bolívia (com Evo Morales em 2005) e do Equador (com Rafael Correa em 2006), onde novas formações partidárias conseguiram canalizar de forma democrática a crise no sistema de partidos, que em alguns casos ameaçou se transformar numa verdadeira crise orgânica.

A liderança de “Andrés Manuel” e a constituição do Movimento de Regeneração Nacional (Morena) como partido político é mais parecido à construção do Partido dos Trabalhadores (PT) e de Luiz Inácio Lula da Silva no Brasil, ou à Frente Ampla (FA) e Tabaré Vázquez no Uruguai, devido a que as contundentes vitórias nas urnas são explicadas (em parte) pela acumulação de capital político realizada durante décadas de militância por esses três líderes e suas agrupações. Também nesses três casos existe uma prevalência da estrutura partidária, diferente do carácter movimentistas dos casos da Venezuela, Bolívia e Equador.

Diferente do PT e da FA, partidos criados nos últimos anos das ditaduras sul-americanas, o Morena emergiu de uma dupla fratura política gestada no seio do partido dominante (o mesmíssimo PRI).

O PRI dos Anos 80, liderado por representantes das tendências burguesas nacionais, é herdeiro do Partido da Revolução Mexicana (1938), outrora guardião do cardenismo e (por sua vez) fruto da outra reformulação, a partir do Partido Nacional Revolucionário, constituído por Plutarco Elías Calles em 1929 para organizar politicamente os caciques vencedores da Revolução Mexicana (1910-1920).

Foi o partido dominante por 70 anos, até que, no ano 2000 se produziu a alternância a favor do histórico partido da direita, o Partido da Ação Nacional (PAN), com Vicente Fox, representante dos novos empresários CEOs da região norte.

O PRI foi verdadeiramente hegemônico até 1988, momento no qual, depois do período de Miguel de la Madrid (1982-1988), deu início ao processo de liberalização, estrangeirização e privatização, que culminaria na assinatura do TLCAN (1994). Nesse então, se desprende uma corrente de esquerda que, apelando aos valores revolucionários, daria vida ao terceiro partido de massas do México, o Partido da Revolução Democrática (PRD), levando Cuauhtémoc Cárdenas (filho do histórico ex-presidente Lázaro, e portanto herdeiro legítimo do cardenismo) como candidato presidencial, nas eleições de 1988, 1994 e 2000.

Nas primeiras disputas que participa, o PRD fica em segundo lugar, mas em meio a denúncias de fraude – fundamentadas no fato de que somente 55 mil atas eleitorais foram oficialmente registradas pela apuração, de um total de 30 mil. Nas duas posteriores, o PRD fica em terceiro lugar.

Em 2006, o PRD se apresenta pela primeira vez como López Obrador como seu candidato presidencial, e obtém 35,3% dos votos, apenas meio ponto percentual abaixo de Felipe Calderón (PAN), num pleito sem segundo turno – e também marcado por fortíssimas suspeitas de fraude. Em 2012, o candidato voltou a se posicionar em segundo lugar, seis pontos atrás de Peña Nieto (PRI), apesar enfrentar uma árdua campanha de desprestígio.

A terceira foi a vencida. Desta vez, ele chega à presidência por um novo partido, criado em 2014, fruto de outra dissidência, após a diretoria do PRD formalizar alianças regionais com o PAN, além de denúncias de conivência de alguns dirigentes com o crime organizado – o caso dos 43 estudantes desaparecidos em Ayotzinapa aconteceu em um município governado por este partido.

A deste ano foi a grande oportunidade de Obrador, e ele não desperdiçou. Nem mesmo a forte campanha midiática e o apelo dos empresários a não votar por ele, chegando ao ponto de ameaçar funcionários de demissão se o fizesses, foi suficiente para desfazer a vontade popular por uma mudança na política.

Se inicia um novo tempo no México. A promessa de uma volta ao mercado interno, ao desenvolvimento econômico com bem-estar e a presença ativa do Estado poderia colocar em xeque a ofensiva neoliberal, que se espalhou pela região com o governo golpista de Temer no Brasil e as direitas “democráticas” na Argentina, na Colômbia, no Peru, no Paraguai, no Chile e até no transformismo equatoriano – que, diferente do resto dos países, não foi eleito por um partido de direita, e se instalou através de um presidente que, uma vez no cargo, revelou seu projeto mais programático).

Se López Obrador tiver sucesso com sua política econômica, social e em matéria de segurança, desmontará os preceitos e explicações da nova direita regional, e poderíamos estar vivenciando o marco fundacional para uma contraofensiva popular na América Latina.
 
Camila Matrero é socióloga, integrante do Observatório Eleitoral da América Latina e colaboradora do Centro Latino-Americano de Análise Estratégica (CLAE)
www.estrategia.la



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