Cartas do Mundo

Carta de Paris: A caixa de Pandora e as lições de 2002 na França

A direita brasileira vai querer repetir o slogan francês ''Antes Hitler que a Frente Popular''?

08/10/2018 16:11

(Arte: Carta Maior)

Créditos da foto: (Arte: Carta Maior)

 
Escrevo esta carta sob forte emoção e muita apreensão com o futuro do povo brasileiro.  Ao mesmo tempo, o mito de Pandora não me sai da cabeça.

O Brasil dos ricos está exultante, imagino. Eles e seus porta-vozes já escolheram o fascismo pregando, através de seus jornais e redes de TV, o ódio e o medo.

Queria falar da caixa de Pandora. Mas antes de ir ao mito grego gostaria de transcrever este parágrafo do livro de Alexis de Tocqueville ''De la démocratie en Amérique'', de 1835.


Arquivo: Leneide Duarte-Plon

''Sempre acreditei que esta espécie de servidão, regulada, doce e sem guerras (…) poderia se combinar melhor do que imaginamos com algumas formas exteriores da liberdade, e que não seria impossível de ser estabelecida até mesmo sob a sombra da soberania do povo. Nossos contemporâneos são frequentemente perturbados por duas paixões contraditórias: sentem necessidade de ser conduzidos e desejo de continuar livres. Não podendo destruir nem um nem outro desses instintos contrários, eles se esforçam por satisfazê-los ao mesmo tempo. Imaginam um poder único, tutelar, todo-poderoso, mas eleito pelos cidadãos. Combinam, assim, a centralização e a soberania do povo. Isto lhes satisfaz. Eles se consolam de estar tutelados, pensando que escolheram eles mesmos seus tutores''.

Este texto escrito no século XIX é perfeito para o que estamos vendo se desenhar no Brasil de hoje. Um povo indo para o abismo, festejando-o como uma vitória, pois ele mesmo está escolhendo seus tutores e a servidão que se instalará, sobretudo para os mais frágeis.


Arquivo: Leneide Duarte-Plon

Franceses contra o fascismo em 2002

O resultado do primeiro turno das eleições gerais no Brasil me fez pensar no grande trauma francês de 21 de abril de 2002. Pela primeira vez, a extrema-direita francesa chegava ao segundo turno das eleições diretas para presidente.

Naquele dia, Jean-Marie Le Pen, do partido de extrema-direita Front National, contrariando todas as previsões dos institutos de pesquisa, superou por um pouco o percentual de Lionel Jospin, do Partido Socialista (16,86% e 16,18%). Jacques Chirac, do partido de direita UMP, teve 19,88% dos votos.

O que fizeram os jornais franceses em bloco? Capas dizendo ''Não'' ao perigo fascista. Editoriais conclamando a um grande esforço democrático e à união nacional contra o Front National, fundado por Le Pen. Este homem fora sargento na Guerra da Argélia, onde torturou pessoalmente combatentes da Frente de Libertação Nacional argelina. Além disso, é um antissemita notório que disse que os fornos crematórios eram ''um detalhe'' da história da Segunda Guerra Mundial.


Arquivo: Leneide Duarte-Plon

Em Paris, a manifestão histórica na Place da Bastille para dizer ''Não'' a Le Pen levou mais de um milhão de pessoas a desfilar por horas e horas, num clima de fraternidade e frente ampla de todas as nuances de esquerda e de direita contra a extrema-direita lepenista.

Durante a guerra, o povo francês – subjugado pela ocupação alemã e pelo fascismo francês de 1940 a 1945 (governo de Vichy) – lutara pela libertação do país ao lado do general De Gaulle, que uniu na Resistência comunistas e gaullistas.

Muitos foram mortos para que a democracia fosse restaurada. Muitos foram torturados pela Gestapo e pelos cúmplices franceses do nazismo. Milhares de comunistas, socialistas, resistentes gaullistas e judeus foram deportados da França para os campos nazistas de onde poucos voltaram.

Arquivo: Leneide Duarte-Plon

Antes da Segunda Guerra Mundial, bem antes da Ocupação alemã, muitos industriais franceses de diversos setores colaboraram maciçamente para o rearmamento da Alemanha de Hitler. Entre maio de 1936 e abril de 1938 a França foi governada pelo Front populaire (Frente Popular) uma coalizão de partidos de esquerda, comunistas e socialistas. Nesse período, o jornal de extrema-direita francês ''L’Aurore'' deu uma manchete que ficou célebre e é citada frequentemente por historiadores : ''Plutôt Hitler que le Front Populaire'' (Antes Hitler que a Frente Popular).

Essa manchete nos faz lembrar a diabolização do PT no Brasil – trabalho sistemático de mentiras e apagamento da memória de conquistas importantes – que leva parte da direita a preferir o fascismo a um governo petista.

Em 2002, o resultado do segundo turno que deu uma monumental vitória a Chirac não surpreendeu ninguém.

Herdeiros de um passado de consequências trágicas, no segundo turno todos os democratas foram às urnas votar no candidato da direita republicana, Jacques Chirac. Ele teve 82,21% dos votos ! Jean-Marie Le Pen ganhou apenas um por cento de eleitores no segundo turno, passando de 16,8% a 17,8%.

Arquivo: Leneide Duarte-Plon

Foi uma bela lição de defesa da democracia e do Estado de direito que os franceses deram ao mundo em 2002.

Nos falta uma história como a francesa, com a ocupação nazista. Não nos falta uma ditadura cruel. Mas ela foi abafada pelo memoricídio programado, que começou com a Lei de Anistia.

Por isso esse monstro pôde emergir em 2018.

Vamos abrir a caixa de Pandora?

Com a possível eleição de um notório fascista à presidência, o Brasil estará correndo o risco de abrir a caixa de Pandora.

Mas o que de tão terrível conteria essa caixa e quem foi Pandora?

Arquivo: Leneide Duarte-Plon

Voltemos à mitologia grega. Pandora foi a primeira mulher, a Eva da mitologia, esculpida na argila por Hefaístos. A deusa Atena deu-lhe vida e Afrodite, a deusa do amor, a beleza. Apolo lhe deu o talento musical. Outros deuses a cobriram de virtudes.

Mas Hermes lhe inspirou a arte da mentira e o caráter pérfido, além da curiosidade sem limites.

Eis que Zeus, o deus supremo, dá a mão de Pandora a Epimeteu, irmão de Prometeu, que roubara o fogo sagrado do Olimpo para dá-lo aos homens. Ao se despedir, Zeus entregou a Pandora uma caixa (um vaso, numa versão do mito original) que nunca deveria ser aberta. A caixa continha todos os males da humanidade : a velhice, a doença, a guerra, a fome, a miséria, a loucura, a morte, o vício, o engano, a paixão, o orgulho.

Arquivo: Leneide Duarte-Plon

Epimeteu recebe a esposa dotada de uma beleza extraordinária. Tentada pela curiosidade, Pandora abre a caixa, liberando todos os males que continha.

Quando tenta fechá-la, era tarde demais.

Desde então, esses males povoam a terra.

Resta torcer para que nós, que adivinhamos o abismo que se desenha, nos multipliquemos.

E que, no dia 28 de outubro, sejamos uma grande maioria para afastar do Brasil o perigo do fascismo.

Arquivo: Leneide Duarte-Plon





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