Cartas do Mundo

Carta de Genebra: Desemprego a nível mundial - dissimulação institucional diante da dura realidade social

 

10/08/2018 08:44

 

 

O verão europeu registra uma onda de calor sufocante, além de algumas incertezas sobre o futuro dos fenômenos migratórios e dúvidas trabalhistas. Mas é inútil tentar compreender, a partir da simplificação, situações que são intrinsecamente complexas. Isso pode ser um desafio quiçá insuperável para a economia a qual estamos acostumados, mas não por isso deixa de ser um desafio essencial ao conhecimento realista do futuro.

Talvez seja imprescindível que a realidade do trabalho se contemple numa dimensão que necessariamente vai mais além da relação de mercado e, mais concretamente, de sua expressão monetária. Significa, entre outras cosas, que é preciso avançar a um registro muito mais realista do trabalho, do emprego e do desemprego para não se apelar à ficção de se referir a registros estadísticos que de nenhuma forma refletem a realidade das coisas.

Por isso nos perguntamos se tem sentido que a economia, quando abordo o problema do desemprego, se afaste do problema do bem-estar efetivo dos trabalhadores ou da sociedade em geral.

Quando a Organização Internacional do Trabalho (OIT) mostra em seus informes a realidade do nível de desemprego, nos perguntamos como pode alguém aceitar como razoável a ideia de que essa situação se produz simplesmente porque tais trabalhadores decidiram não investir o suficiente neles mesmos ou que estão voluntariamente parados, porque se empenham em não aceitar salários mais baixos.

Em resumidas contas, a avaliação de conjunto do saber da análise econômica no campo do trabalho mostra que há poucas certezas e muitas dúvidas.

Mais de 190 milhões de pessoas desempregadas

Os acontecimentos mais recentes do desemprego mundial são variados. Segundo a estimativa recente da OIT, baseada em conjuntos de dados e metodologias melhoradas, a taxa de desemprego mundial experimentaria uma leve queda até 5,5% em 2018 (em comparação ao 5,6% de 2017), marcando uma mudança, após três anos consecutivos de crescimento.

Contudo, devido ao aumento do número de novas incorporações ao mercado de trabalho em busca de emprego, se prevê que o número total de pessoas desempregadas permanecerá estável em 2018, com uma cifra estimada em mais de 192 milhões. Para 2019, a taxa de desemprego mundial seguiria praticamente sem mudanças, e se projeta que o número de desempregados aumente em 1,3 milhão.

Cresce a quantidade de empregos vulneráveis

É provável que, nos próximos anos, aumente o número de trabalhadores em postos de trabalho vulneráveis (trabalhadores por conta própria e trabalhadores familiares auxiliares, ou o que no Brasil se chama “pejotização”). A nível mundial, o avanço significativo que se conseguiu no passado para reduzir esse tipo de emprego agora se vê praticamente estagnado desde 2012.

Em 2017, se calculou que cerca de 42% dos trabalhadores do mundo (ou seja, 1,4 milhão de pessoas) se encontra em modalidades de emprego vulneráveis. A previsão é de que esta porcentagem permaneça especialmente elevada nos países em desenvolvimento e nos emergentes, onde superaria os 76% e os 46%, respectivamente.

É preocupante que a projeção atual indique uma reversão da tendência, com um aumento anual de 17 milhões de pessoas em empregos vulneráveis em 2018 e 2019. A realidade é mais prosaica, já que desde a própria OIT nos indicam que 2 bilhões de pessoas – 61% da população ativa – ganha a vida na economia informal, o que significa, entre outras coisas, a falta de proteção social, de direitos trabalhistas e de condições de trabalho decente.

Diminui o ritmo da redução da pobreza no mundo do trabalho

Em 2017, a pobreza extrema no mundo do trabalho foi generalizada: as rendas e o consumo per capita dos lares de mais de 300 milhões de trabalhadores de países emergentes e em desenvolvimento foi inferior a 1,90 dólares estadunidenses por dia.

Em geral, a marcha da redução da pobreza dos trabalhadores não consegue compensar a crescente força de trabalho nos países em desenvolvimento, onde se prevê que o número de pessoas em extrema pobreza em trabalho ativo superará os 114 milhões em 2018, o equivalente a 40% de todas as pessoas empregadas.

Perspectivas sociais e do emprego no mundo – Tendências 2018

Por sua parte, os países emergentes conseguiram um avanço considerável em termos de redução da extrema pobreza no trabalho, e se espera que esse problema passe a afetar menos de 8% dos trabalhadores desses países (cerca de 190 milhões), em 2019.

A incidência da extrema pobreza deveria seguir caindo, e isso se traduziria numa redução do número de trabalhadores em situação de pobreza extrema, a partir dos 10 milhões anuais em 2018 e 2019. Entretanto, a pobreza moderada, segundo a qual os trabalhadores vivem com rendas entre 1,90 e 3,10 dólares por dia, continua sendo generalizada, e em 2017 passou a afetar cerca de 430 milhões de trabalhadores de países emergentes e em desenvolvimento.

Variações entre regiões e países em matéria de emprego

Os resultados em matéria de emprego continuam registrando tendências distintas no mundo. Os países desenvolvidos entrariam no seu sexto ano consecutivo com taxas de desemprego descendentes, que ao final deste ano, cairiam a 5,5%, o número mais baixo registrado desde 2007.

No entanto, muitos países continuam mostrando taxas elevadas de subutilização da mão de obra, uma ampla porcentagem de trabalhadores desanimados e uma crescente incidência de empregos de meia jornada ou involuntários.

Em compensação, entre 2014 e 2017 as taxas de desemprego nos países emergentes registraram um aumento importante, devido à uma forte desaceleração de algumas economias – em parte, causada pela queda do preço de algumas matérias primas e produtos básicos em muitas grandes economias, com o Brasil e a Rússia.

O ano de 2018 marca um ponto de inflexão, pois a taxa de desemprego cairia a 5,5% (com relação ao 5,6 de 2017), o que, nos países emergentes, se traduziria em aumento do número de desempregados de ao redor de 0,4 milhão em 2018 e de 1,2 milhões em 2019.

Nos países em desenvolvimento, o desemprego afetaria mais meio milhão de pessoas no final de 2018, e outros tantos no final de 2019, e fazendo com que a correspondente taxa se mantenha em 5,3%. Todavia, em muitos países em desenvolvimento e emergentes, e inclusive em alguns países desenvolvidos, o principal problema é o aumento do emprego de má qualidade e da pobreza no mundo do trabalho.

O envelhecimento da população pressiona o mercado de trabalho

O aumento da esperança de vida e a queda das taxas de natalidade desaceleraram consideravelmente o crescimento da população mundial. A previsão é de que esta trajetória continue nos próximos decênios. Como consequência imediata desta desaceleração, o crescimento da força de trabalho mundial não servirá para compensar uma reserva de aposentados em rápido aumento, e pressionará os sistemas previdenciários e os mercados de trabalho em seu conjunto.

Nos países desenvolvidos, onde o envelhecimento da população é consideravelmente mais veloz, se estima que até 2030 haverá cerca de cinco pessoas de 65 anos ou más para cada dez pessoas na força de trabalho, um aumento com respeito à cifra de 3,5 registrada em 2017.

Enquanto isso, o envelhecimento da população tende a provocar, inevitavelmente, um aumento da idade média dos trabalhadores ativos, o que colocará em xeque a capacidade dos trabalhadores de se manter no ritmo das inovações e das mudanças estruturais no mercado de trabalho.

A nível mundial, a previsão é de que a idade média da força de trabalho aumente a quase 40 anos em 2017 e a 41 até 2030, com um crescimento consideravelmente mais rápido na Europa e na Ásia Oriental, sobretudo na China.

Analisadas em conjunto, essas tendências apresentam vários desafios, sendo o principal deles o de manter a população aposentada fora da linha da pobreza, promover resultados em matéria de trabalho decente para uma força de trabalho em crescente envelhecimento, e ajudar os trabalhadores de idade a se adaptar às transformações do mundo do trabalho.

Cabe aqui afirmar que a pobreza na velhice está intrinsecamente ligada às desigualdades existentes no mercado de trabalho, pois embora os trabalhadores com renda e condições de trabalho inferiores tenham acesso aos sistemas de poupança para a aposentadoria, também sofrem com uma menor capacidade de contribuir, o que se reflete em menores valores ao final da vida ativa.

Portanto, assegurar suficientes oportunidades para todos, ao mesmo tempo em que se melhoram os resultados do mercado de trabalho é pedra fundamental do objetivo de mitigar a pobreza na terceira idade. Enquanto isso, devemos recordar outro dado da própria OIT: 4 bilhões de pessoas carecem de proteção social, 55% da população ativa.

Além disso, destacamos que outro importante problema mundial é a falta de oportunidades de emprego para os jovens (menores de 25 anos). Os jovens têm muito menos possibilidades de conseguir empregos que os adultos, sendo que sua taxa mundial de desemprego (13%) é três vezes mais elevada que a dos adultos (4,3%).

O problema é particularmente grave no norte da África, onde quase 30% dos jovens no mercado de trabalho não têm oportunidades. Ademais, as desigualdades de gênero também estão estabelecidas entre os trabalhadores jovens e complicam ainda mais a tarefa de reduzir as brechas entre os gêneros.

Em meio ao insuportável calor do verão, o astro-rei se perde no horizonte, deixando este imenso mar de silêncio no qual nos perguntamos: é possível seguir sendo dissimulado diante desta dura realidade social que supostamente se tenta analisar?

Eduardo Camín é jornalista, ex-diretor do semanário Siete Sobre Siete, membro da Associação de Correspondentes de Imprensa da ONU, redator-chefe internacional do Hebdolatino e analista associado ao Centro Latino-Americano de Análise Estratégica (CLAE)

www.estrategia.la




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