Cartas do Mundo

Carta de Berlim: Diário a Bordo do Cruzeiro Corona-Vírus - 3

Em que se compara Jair Messias a Hermógenes, personagem de Grande Sertão: Veredas e ao Anti-Cristo, do apóstolo João

13/04/2020 12:49

 

 
Sexta-feira Santa, 10/04, 11h30. Alemanha: casos - 118.235; mortes - 2.607; altas - 52.407. Casos graves ou muito graves no momento: 4.895.

O Corona-vírus derrubou pelo menos dois preconceitos.

1 - Pandemia é coisa de pobre.

2 - Pandemia é coisa de país pobre.

É verdade que a presente pandemia castiga mais duramente os mais pobres. Mas o Corona ganhou o mundo nas asas dos ricos e abonados, aqueles que viajam de avião. Existem relatos de diferentes países, inclusive do Brasil, mostrando que entre os principais vetores de disseminação do vírus houve festas, casamentos, e outras aglomerações frequentadas por gente que acabara de chegar de países onde ele já grassava incontrolado, como a Itália, Espanha, França e outros.

O problema começou na China, mas se tornou pandêmico depois de se disseminar pela Itália e Espanha, sobretudo, mas com a “colaboração" de outros países, como a França e o Reino Unido. E hoje o principal foco mundial do problema está nos Estados Unidos, com 469.121 casos e 16.697 fatalidades.

Prosseguem duas guerras contra a racionalidade.

1 - A guerra de Trump agora contra a Organização Mundial da Saúde. Esta é uma guerra diversionista. Trump procura desviar a atenção, afastando-se de seus próprios erros, hesitações e fracassos. Ao mesmo tempo, esta guerra tem raízes mais antigas. Ela data da eleição de seu atual diretor, o etíope Tedros Adhanom Ghebreyesus, em 2017. Com apoio sobretudo dos países asiáticos e africanos, Tedros derrotou o britânico David Nabarro, que tinha o apoio do Reino Unido, dos Estados Unidos e do Canadá. Tedros é acusado pela direita norte-americana de ser demasiadamente próximo da China. Trump ameaça agora cortar a contribuição de seu país para a manutenção da OMS. Esta é uma organização peculiar. Ao contrário da Organização Mundial do Comércio, ela não tem poderes vinculantes em relação a seus membros. Ela pode tão somente aconselhar, sugerir, propor. Assim mesmo, ela tem sido vital, em várias ocasiões, no combate a epidemias e pandemias, bem como no caso de campanhas mundiais de vacinação, pela coleta e disseminação de informação segura e qualificada. Especialistas lembram que, se hoje a varíola é considerada uma doença praticamente extinta, isto seria impossível sem a participação da OMS na campanha mundial de vacinação a partir dos anos 50.

2 - A outra guerra colateral a esta primeiro envolve de novo Trump e seu boneco de ventríloquo, Jair Messias, no Brasil. É a “guerra da cloroquina”, apresentado este produto de maneira irresponsável como um elixir mágico para combater o vírus, sem quaker fundamentação científica. Trump joga balões de ensaio, como quando diz, por exemplo, que os Estados Unidos já atingiram hoje o pico (ele falta em “alto da colina”) dos casos, que eles declinarão daqui para a frente e que a economia do país poderá ser “reativada” ou “reaberta” a partir da próxima semana. Mais tosca, a guerra de Bolsonaro, com o auxílio de médicos irresponsáveis, como Osmar Terra, em busca de um ministério, ou de políticos fanados, como Onyx Lorenzoni, visa, mais modestamente, minar o trabalho de seu próprio ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta e dos governadores, e manter mobilizada sua base mais fanática, bronca e genocida.

Hoje, depois do almoço, vamos tentar fazer um passeio neste dia primaveril que ora faz, embora a temperatura esteja caindo de novo. Darei notícias.

Sábado de Aleluia, 11/04, 12h45. Alemanha: 122.171 casos; mortes: 2.736; altas: 53.913. Casos graves ou muito graves: 4.895.

Um dos piores efeitos destas crises conjugadas, Corona Trump Bolsonaro, é o despertar do “demônio da perversidade” dentro de nós, para tomar de empréstimo uma expressão de Edgar Allan Poe.

Leio:

1 - Pastor que desprezou letalidade do vírus morre do mesmo nos Estados Unidos.

2 - Idem, médica brasileira no interior do Ceará.

3 - Militante de extrema-direita no Brasil, que também desprezou o vírus, pede orações pela avó, internada em estado grave por causa do mesmo.

Impulso: dizer bem-feito e virar as costas.

Segue-se um triplo lamento:

1 - Pelas mortes e perigos, quaisquer que sejam.

2 - Pelo impulso a custo refreado.

3 - Pela certeza de que para os fanáticos de Bolsonaro, ou de Trump, pouco importa. Eles sim virarão as costas e não darão a mínima para as ocorrências, atribuindo-as a outros fatores ou ao inevitável.

Uma tristeza.

Li/ouvi a entrevista de meu amigo José Luís Fiori ao site Tutameia, afirmando que passada a tempestade, tudo continuaria mais ou menos como antes no quartel dos Abrantes.

Não duvido. Sim, haverá deserções no campo da crença popular nas virtudes do neo-liberalismo. Haverá uma certa valorização do SUS no Brasil. Mas a manada das lideranças e arautos neo-liberais continuará neo-liberal. E continuará manada. Assim como grande parte da manada bolsonarista continuará bolsonarista. E manada.

Leio também, estarrecido, que, além de desobedecer os preceitos sanitários pertinentes, fazendo escapadas a locais públicos no Distrito Federal, Bolsonaro meteu a mão no nariz antes de cumprimentar correligionários, inclusive uma senhora idosa.

Sussurra-me o “demônio da perversidade”: “Além de perigo para a saúde física e mental da população, é mal educado e porco!”. Com perdão dos animais: trata-se apenas de uma metáfora.

Nos Estados Unidos está instaurado o caos. Mais de 500 mil casos, quase 20 mil mortos, 27 mil altas. Em Nova Iorque, corpos enterrados em valas comuns.

No mundo, o cenário de guerra cresce. Hoje, a guerra se ocupa de máscaras e outros materiais sanitários. Esta fase da guerra passará. Mas se seguirão outras, porque o tecido da solidariedade internacional está sendo esgarçado ao ponto da ruptura. Acompanha este cenário, apesar das mostras comoventes de solidariedade, o risco crescente de uma desagregação espiritual de grandes proporções. Líderes autoritários pelo mundo reforçam seus poderes: Duterte, Netanyahu, Orban, Erdogan… Bolsonaro bem que queria reforçar o seu. De momento, só consegue cometer perigosas infantilidades, com dano sério para o país, tanto interna quanto externamente. A imagem do Brasil no mundo virou um farrapo motivo de espanto, medo e chacota gerais.

O mundo pós-vírus deverá se tornar mais desgovernado do que antes, pelo menos num primeiro momento. Haverá pandemia de preços altos, de autoritarismos, de fanfarronadas.

Bom, ontem nosso passeio foi um sucesso. Conseguimos, na tarde agradável, caminhando por ruas vazias de gente e de veículos, observando os ónibus e vagões de metrô despovoados, chegar ao Landwehrkanal. Para chegar lá passamos pelo bairro onde morou e trabalhou a princesa russa Marie Vassiltchikov, autora do livro "Diários de Berlim, 1940 - 1945”, que traduzi para o português e saiu pela Boitempo Editorial. Foi um bairro particularmente devastado pelos bombardeios e incêndios durante a Segunda Guerra Mundial, e a gente vê ainda as marcas da hecatombe na descontinuidade de estilos entre os prédios que fazem vizinhança uns aos outros. O conjunto dá a impressão de cicatrizes de feridas mal suturadas.

E agora vamos ver que cicatrizes haverá desta vez.

O livro da princesa, permitam-me o marketing, é o relato contemporâneo mais extenso e completo sobre os bastidores do complô para matar Hitler que resultou no atentado mal sucedido de 20 de julho de 1944. Escrito num estilo contido, aguçado e algo irônico, é um depoimento inestimável sobre como uma jovem mulher, inteligente, culta, anti-nazista, conseguiu sobreviver na Berlim catastrófica dos anos 40. Talvez tenha alguma lição para nós nos dias de hoje.

Ontem à noite re-assistimos “O Evangelho Segundo São Mateus”, de Pasolini. Que grande filme! Prestei atenção em alguns detalhes que me passaram desapercebidos antigamente. Lançado em 1964, o filme foi inteiramente rodado na Itália. O papel de Cristo foi interpretado por um ator catalão exilado da Espanha ditatorial de Francisco Franco. Maria idosa foi interpretada pela mãe do diretor. O filósofo Giorgio Agamben, então jovem, fez o papel do apóstolo Filipe.

Hoje é dia de retiro espiritual dentro de casa.

Domingo de Páscoa, 12/04, 13 horas. Alemanha: 125.452 casos; 2.871 mortos; 57.400 altas. 4.895 casos graves ou muito graves.

Olhando de longe, a impressão que se tem é a de que Jair Messias desistiu de governar. Terceirizou o governo e agora se limita a militar de forma grosseira contra o “isolamento horizontal”. Como sua popularidade está em queda, dedica-se em tempo integral a adular e açular a massa de fanáticos, idiotas e velhacos que o seguem e seguirão até o suicídio coletivo. É verdade que a impressão que também se tem é a de que quase todo o primeiro escalão do governo está parado, com exceção do Mandetta e dos ministros militares que emparedaram o presidente. Moro está sumido, Salles desapareceu, Ernesto Araújo se escondeu atrás de uma suporta guerra verbal com a China, promovida pelo Weintraub, Regina Duarte nada faz (ainda bem!) senão adular seu chefe de gangue, Onyx só promove Terra, Guedes parece um curandeiro de segunda que fica repetindo seus feitiços como mantras auto-protetores, etc.

Por aqui a revista Der Spiegel, em sua edição internacional, em inglês, publicou uma interessante reportagem, citando profusamente Vilas-Boas, o secretário da Saúde da Bahia e o próprio Mandetta, a respeito da “Guerra das Máscaras”. Explica como Trump acionou um “Defense Production Act”, característico de tempos de guerra, que permite confisco e redirecionamento de produtos de todo tipo pelo governo norte-americano. Foi o que aconteceu com os ventiladores encomendados pelo secretário baiano e as máscaras encomendadas pelo ministro da Saúde, Mandetta, na China: ao tocarem o solo norte-americano, em escala, foram simplesmente pirateadas (o termo é meu) pelo governo norte-americano. A reportagem também confirma que agentes de vários países “mais ricos” percorrem o território chinês com malas de dinheiro vivo para “redirecionar” produtos sanitários já encomendados por países considerados “mais pobres”. “Farinha pouca, meu pirão primeiro”, diz o ditado. A revista fala num “Corona capitalismo” que tende a permanecer para além da presente pandemia, alertando que depois que ela passar, haverá um clima de ações e retaliações vingativas que vão dominar a cena comercial futura. E isto poderá levar a consequências mais violentas ainda.

Em suma, iremos de mal a pior.

Aqui em casa a janela continua a nos seduzir com o sol brilhante e a temperatura amena. Felizmente esta noite chove, o tempo vai piorar, a temperatura vai cair, na madrugada de terça espera-se um grau positivo e assim perderemos a torturante vontade de sair.

Segunda-feira, 13/04,11h30. Alemanha: 127.854 casos; 3.022 mortos; 64.300 altas. 4.895 casos considerados graves ou muito graves.

Decididamente o Brasil é o país das originalidades. Senão, vejamos. Ao que parece, de momento, a equipe central que vem se ocupando de governar frente à catástrofe do Corona-Vírus é formada pelos militares que procuram isolar o presidente (missão impossível), mais o Mandetta no ministério da Saúde. E a principal oposição ao governo é liderada pelo próprio presidente da República! Com auxílio do ministro da Cidadania, Onyx Lorenzoni e do candidato a sucessor de Mandetta, Osmar Terra, que se acha um ministro sem pasta e na verdade é alguém que perdeu a cabeça e a razão. O presidente só quer saber de posar para o bando que chefia, formado por fanáticos alucinados, ignorantes e/ou velhacos, o que inclui sua família e a corte mais próxima, um baixo clero militarizado, que inclui os milicianos, mais a banda mais podre do empresariado brasileiro, que não é pequena.

Passei a manhã de hoje procurando uma figura literária comparável a Jair Messias. Encontrei: é o Hermógenes, um dos chefes de jagunços do romance “Grande sertão: veredas”, de Guimarães Rosa. Hermógenes é maligno e não aceita que a história evolua, mudando de patamar político. Assassina o chefe supremo dos jagunços, Joca Ramiro, porque a seu ver este trai a jagunçagem ao esboçar um pacto político com o enviado do governo, Zé Bebelo, depois de derrota-lo militarmente. Isto significaria o fim da rapinagem que sustenta Hermógenes, seu bando, e seu comparsa Ricardão, o jagunço rico e politiqueiro que guerreava por interesses pecuniários. Como o Iago de Shakespeare, embora em outra plataforma, Hermógenes é a maldade em estado puro, aquele que se compraz em fazer o mal aos outros por fazer o mal.

É um homem sem pescoço, na visão do narrador Riobaldo. Seu chapéu, em forma de cabaça, faz uma peça só com sua capa de montaria, um mostrengo atarracado que age à traição. Termina cosido a facadas por Diadorim, que também morre no duelo. Assim como Iago, Hermógenes age por um incontido despeito, inveja e ressentimento contra a vida que flui, simbolizada pela figura solar de Joca Ramiro, aquele que, quando se levantava, parecia que o mundo inteiro se erguia com ele.

Um detalhe muito importante: Hermógenes é tido como pactário. De certo modo, Jair Messias também. Com o Vírus. Como ele abusa da religiosidade, chegando a sugerir veladamente uma comparação absurda, em pleno Domingo de Páscoa, da facada que levou e de sua sobrevivência à ressureição de “outro” Messias, ele lembra a controversa figura bíblica do Anti- ou Pseudo-Cristo, referido nas epístolas de João e em algumas interpretações posteriores apresentado como o “fora-da-lei”. Assim é Jair Messias: não há lei que o segure e ele se enquadra perfeitamente na moldura dos falsos profetas que se apresentam falando em nome de todos mas na verdade criando seitas hostis de fanáticos agressivos e agressores da razão, do bom senso e da vida alheia. Exatamente como Trump, seu Grande Mestre neste sinistro e soturno”anti-cristismo”. No caso de Jair Messias, tem-se a impressão de que ele fez um pacto com o Vírus, em alguma Vereda-Morta do Planalto Central. De certo modo, ele e seus fanatizados seguidores encarnam o Vírus, tornam-se eles mesmos um Vírus complexo, ao mesmo tempo favorecendo a doença e uma pandemia de estupidez universal.

Por seu turno, Trump destravou a sua metralhadora giratória. Faz parte de sua estratégia (e Jair Messias já começa se esforçar para fazer o mesmo) culpar tudo e todos os outros por suas próprias falhas e erros: a China, a mídia, os democratas, a OMS, o mundo inteiro. Ao mesmo tempo, pratica e incentiva a pirataria universal, tomando, manu argentari e confiscari, os aparelhos de saúde dos outros que passem por “seu” território, ou assaltando-os diretamente nas fontes produtoras.

Por vezes, nesta confusão, parece que a estupidez e a grosseria são privilégio brasileiro. Não é verdade. Hoje pela manhã deparei com uma foto macabra: setenta caminhões do Exército Italiano levando, na calada da noite, cadáveres insepultos, por falta de espaço, da cidade de Bergamo em direção a outros municípios. Bergamo foi uma das cidades mais duramente atingidas pelo Vírus, exatamente por ter se entregue, graças à pressão de empresários locais, ao mote do “não pode parar”, assim como a vizinha Milão.

Li relatos da Suécia e da Noruega referindo-se a pessoas que partem para cima de policiais tossindo e cuspindo para afugenta-los. Para as autoridades do Turcomenistão e da Nicarágua, parece que a pandemia não existe. Neste último país houve paróquias que tentaram transformar suas igrejas em abrigos para os doentes, e o governo de Ortega as proibiu.

O New York Times publica reportagem citando auxiliares diretos de Trump que aconselharam o presidente a adotar o isolamento como política de contenção do vírus um mês dele ter concordado, mas ele permaneceu teimoso e recalcitrante durante estes 30 dias de atraso. Deu no que deu.

Em compensação, há vozes de arrependimento. Um dos argumentos mais poderosos em favor do Brexit foi o da detenção do fluxo de imigrantes no continente europeu. E agora cresce a consciência de que faltam imigrantes para cobrir o deficit de trabalhadores na área da saúde e no cuidado de idosos em vários países da Europa, inclusive no Reino Unido e na Alemanha. O próprio Boris Johnson, ao sair do seu internamento no hospital, reconheceu a necessidade.

Para completar os informes sinistros, Trump continua a bloquear o acesso de Cuba, da Venezuela e do Irã a material sanitário indispensável para combater o Vírus. Outro pactário.

Ontem perguntei a uma amiga minha, pelo telefone, se a gente voltaria a trocar abraços e beijos sociais quando a epidemia cedesse. Não soubemos responder. Lembrei-me de que pertenço a uma geração brasileira que, durante minha primeira adolescência, rapazes e moças não trocavam beijos ao se encontrar. Este hábito se espraiou no Brasil a partir de meados dos anos 60, tão somente, partindo do cinema norte-americano e do Rio de Janeiro para o restante do país.

A ver.

A primeira parte deste Diário foi publicada no site Matinal, de Porto Alegre (30/03). A segunda, no site aterraeredonda, de São Paulo (08/04).



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