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Carta de Sydney: Direita pentecostal assume governo na Austrália

 

07/10/2018 11:25

O ex-primeiro-ministro Malcolm Turnbull e o atual primeiro-ministro Scott Morrison (Alex Ellighausen)

Créditos da foto: O ex-primeiro-ministro Malcolm Turnbull e o atual primeiro-ministro Scott Morrison (Alex Ellighausen)

 
Uns falam em golpe intrapartidário; outros dizem que faz parte do jogo no parlamentarismo. Talvez um misto de ambas as coisas, mas o fato relevante é que a Austrália passou a ser governada por um primeiro-ministro pentecostal pela primeira vez em sua jovem história de democracia parlamentar.

Scott Morrison foi nomeado em 24 de agosto, na segunda votação de desconfiança contra o então primeiro-ministro Malcolm Turnbull. Quatro dias antes, Turnbull sobrevivera ao desafio de outro ainda mais linha-dura, o ministro de Assuntos Internos, Peter Dutton. Todos três são membros do Partido Liberal.

O novo primeiro-ministro é devoto da Horizon Church, igreja pentecostal na qual faz-se cultos de exaltação e ritos de cura. Conservador, votou contra a união civil entre homossexuais, acredita em terapia gay e apoia dar prioridade aos cristãos na concessão de asilo. Em 2016, em uma conferência do Australian Christian Lobby (ACL), defendeu o direito do radialista americano, Eric Metaxas, de comparar o movimento LGBT a nazismo.

Com boa circulação no espectro político, o novo líder australiano também conta com a simpatia de Pauline Hanson, do partido de extrema-direita, One Nation. Hanson é uma versão feminina de Jair Bolsonaro.

A ascensão de Morrison, que era ministro das Finanças no governo Turnbull, põe conservadorismo político, liberalismo econômico e fundamentalismo religioso em uma única cesta.

Pastores pentecostais consideram a nomeação um “milagre de Deus”, enquanto outros temem um período de “trevas” e “de perseguição aos cristãos” caso Morrison não seja eleito em 2019.

No que depender de grupos de interesse como a ACL, o líder pentecostal veio para ficar. O foco da organização no momento é transformar em leis as conclusões do Relatório Ruddock, elaborado por um painel governamental sobre liberdade de religião.

Para a direita religiosa, o secularismo na Austrália limita a expressão de outras liberdades. Embora o Relatório Ruddock não tenha sido divulgado, mesmo sendo resultado de consulta popular, secularistas acreditam que o documento recomenda mais poder e recursos para organizações religiosas, principalmente cristãs.

Morrison já começou aprovando um pacote de US$ 2,8 bilhões em fundos para escolas católicas e independentes. O benefício generoso foi uma forma de compensar a ira do setor com a dotação de US$ 14 bilhões para o ensino público e secular em 2017.

Ao deixar o governo, Turnbull atribui sua desgraça política à insurgência no Partido Liberal. Pelo menos oficialmente, a revolta partidária não foi motivada por religião. Os conservadores rejeitaram o plano de energia do governo, conhecido como NEG, que propõe garantir o fornecimento de energia e o cumprimento das metas de redução de emissões acordadas pela Austrália no Acordo de Paris para o Clima.

Turnbull também vê influências de “forças externas da mídia” em sua queda. Segundo o ex-líder, a polêmica em torno da NEG foi estimulada pelo magnata australiano-americano, Rupert Murdoch, presidente da News Corporation.

“Murdoch quer transformar a Austrália em uma nação conservadora e colocá-la nos trilhos de Trump”, disse ao The Guardian o professor David McKnight, da Universidade de New South Wales, autor do livro “Rupert Murdoch: An investigation of political power”.

A influência de Murdoch e a interferência de seus veículos de comunicação na política australiana serão tópicos da próxima Carta de Sidney.



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