Cartas do Mundo

Carta de Paris: Ecocídio: um crime e muitos criminosos

Na França, há jornalistas que acrescentam o neologismo «ecocida» para definir o capitão-presidente do Brasil

08/05/2019 10:05

(Alex de Jesus)

Créditos da foto: (Alex de Jesus)

 
Ecocídio pode, em breve, deixar de ser um neologismo ao ser caracterizado como crime.

O grupo socialista do Senado francês pretende transformar a destruição da natureza em crime definido como «uma ação que tende à destruição ou degradação total ou parcial de um ecosistema, em tempos de paz ou de guerra, que prejudica de forma grave e durável o meio ambiente e as condições de existência de uma população».

Mesmo que não seja aprovada a nova Proposta de Lei, o debate da urgência climática e os alertas sobre a perda acelerada de centenas milhares de espécies animais vai amadurecendo e a população francesa (e europeia) se engajando cada dia mais no combate ao consumismo sem limites e ao crescimento desenfreado, baseados na exploração infinita de recursos naturais finitos.

Na França, já há jornalistas que acrescentaram o neologismo «ecocida» para définir o capitão-presidente do Brasil.

Em matéria do Le Monde de 3 de maio, com chamada em primeira página, a correspondente do jornal, Claire Gatinois, prova com fatos o que ela chama de «política anti-ecologia de Bolsonaro». A jornalista relata uma a uma todas as ações do ministro do meio ambiente, Ricardo Salles, para «desmontar os órgãos estatais de meio ambiente».

Marina Silva, ex-ministra do meio ambiente do presidente Lula (2003-2008), foi ouvida pelo jornal e classificou de «vergonhosa e catastrófica» a política do governo Bolsonaro tanto para o clima e como para as espécies animais.

«O Brasil criou uma das melhores legislações da América Latina para o meio ambiente. O atual governo está desmontando tudo de maneira radical e vai pagar um alto preço em desastres ecológicos, mas também sociais e econômicos. É uma vergonha, uma catástrofe» diz a ex-ministra.

O capitão-presidente reagiu como sempre: aplaudindo o atraso. Saudou euforicamente a «limpeza» feita por seu ministro nos órgãos governamentais encarregados de fiscalizar e punir as agressões ao meio ambiente.

No dia 25 de abril, na revista Science, mais de 600 cientistas europeus aliados a 300 indígenas exortaram a União Europeia à ação. O manifesto pede que a União Europeia, parceiro comercial estratégico do Brasil, não seja «cúmplice dos crimes cometidos em nome da produção agrícola». No texto, os signatários sugerem à União Europeia que condicione as importações de produtos brasileiros ao respeito dos acordos e leis relativas ao meio ambiente assinados pelo Brasil.

O cineasta português João Salaviza, co-autor com a brasileira Renée Nader Messora, do filme «Chuva é cantoria na aldeia dos mortos,» (Le chant de la forêt), que recebeu em Cannes em 2018 o prêmio especial do juri "Un certain regard", e estreou quarta-feira, dia 8 de maio em Paris com críticas excelentes, disse ao jornal Le Monde:

A vontade de transformar o Brasil em um campo de soja e de pasto existe há muito tempo. Hoje, com Bolsonaro, a novidade é ter um governo abertamente anti-índios, como se os povos autóctones fossem os grandes inimigos do Brasil. É um Estado que tem um discurso de ódio contra os indígenas e que legitima a violência da qual eles são vítimas. O que se passa no Brasil é terrível no plano humano e ecológico e isso deve ser uma preocupação para toda a humanidade».

Só mudando o modelo econômico se salva a biodiversidade

Na França, um dos países europeus mais preocupados com a ecologia e o meio ambiente, jornalistas e políticos costumam citar a frase do presidente Jacques Chirac na Cúpula Mundial da Terra, de Johannesburg, em 2002: «Nossa casa está em chamas e fingimos não ver».

Quanto a Emmanuel Macron, ele ousou dizer esta semana que o projeto de exploração de ouro na Guiana francesa, chamado Montagne d’or, não era compatível com as ambições ecológicas em matéria de biodiversidade. Ele pediu uma nova avaliação completa para que «uma decisão formal e definitiva seja tomada».

Quem sabe, as tragédias de Mariana e Brumadinho serviram de contra-exemplo para a decisão do presidente francês ?

Reunido em Paris por cinco dias, no dia 6 de maio, o grupo internacional de experts chamado Plataforma Intergovernamental Científica e Política sobre a Biodiversidade e os Serviços Ecosistêmicos (IPBES, em francês), criado em 2012 sob os auspícios da ONU, com 132 países, divulgou o documento elaborado por 150 pesquisadores de cinquenta países e constribuições de 250 especialistas de ciências naturais, economistas e cientistas sociais.

O estado do planeta é alarmante. Só não abre os olhos quem não quer ver a Terra, nossa casa comum, em chamas.

O documento é um alerta sobre o estado da biodiversidade no mundo. Ele enfatiza que a Terra já entrou na sexta extinção de massa das espécies. A novidade em relação ao desaparecimento dos dinossauros há 65 milhões de anos é que essa extinção está se produzindo rapidamente em algumas décadas e que é o homem – com seu modelo de super-exploração dos recursos do planeta – o responsável por ela.

Mais de um milhão de espécies vão desaparecer em breve se continuarmos a fechar os olhos e a usar a Terra como um depósito infinito de recursos naturais exploráveis, com o desmatamento a um ritmo acelerado, poluição dos rios, dos oceanos e do ar.

O documento do IPBES lembra os «serviços ecossistêmicos» isto é, os recursos fornecidos pela natureza ao homem. Eles vão desde o fornecimento de matérias-primas naturais até a polinização feita pelos insetos, da qual dependem 75% das culturas mundiais, passando pelas fontes de água e pela qualidade do ar que respiramos.

Esse grito de alarme do documento do IPBES será ouvido ?

O porta-voz do WWF (World Wide Fund) na França, Arnaud Gauffier, disse ao Le Monde que a próxima e decisiva etapa será a Convenção sobre a Diversidade Biológica, que acontecerá na China, em dezembro de 2020.      

 Precisamos adotar um acordo internacional que imponha sanções a fim de chegarmos a um «new deal» para a natureza e para o homem. Não poderemos salvar a biodiversidade sem mudar o modelo econômico».







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