Cartas do Mundo

Em tempo de cinema

A maior sensação brasileira em Berlim será a apresentação de "O processo", "The Trial", em inglês, de Maria Augusta Ramos. O filme é um documentário de mais de duas horas sobre a presidenta Dilma Rousseff durante o processo de sua deposição ilegal, inconstitucional e ilegítima

08/02/2018 08:16

 

 

Flavio Aguiar

Berlim começa a entrar em ritmo de cinema. Aproxima-se a 68a. edição do Festival Internacional de Cinema, a Berlinale, cuja programação acaba de sair. Ainda não tive tempo de examina-la por completo. Começam as pré-estreias para a mídia e a imprensa. Berlim ferve cinema, durante o festival, que toma conta da cidade inteira, inclusive dos bairros. É um dos maiores e melhores festivais de cinema do mundo, mobilizando crianças, adolescentes, adultos, a cidade inteira. Ajuda a entender por que em Berlim cinema não vira bingo nem estacionamento. Muito menos igreja.

O Brasil costuma ter uma boa presença no festival. É raro o ano em que algum filme brasileiro não receba algum prêmio. Dois filmes brasileiros ganharam o Urso de Ouro, prêmio para o melhor filme: “Central do Brasil” e “Tropa de Elite I”. Mas muitos outros filmes brasileiros ganharam outros prêmios. Entre eles, “Que horas ela volta”, de Ana Muylaert, que ganhou o prêmio de público, e foi motivo de um fato inédito no festival: foi a primeira vez em que, durante a exibição do filme, a plateia se levantava e aplaudia de pé algumas passagens, como aquela em que a Regina Casé (a doméstica nordestina) afinal entra na piscina dos patrões e molha os pés.

Desta vez detectei pelo menos 15 presenças do cinema brasileiro, entre direções, produções e co-produções muito variadas. Deve haver mais. Sinal dos tempos, a Berlinale nano edita mais o cadernão que editava com a relação e sinopse de tudo o que passava e acontecia na Berlinale, mais de 400 filmes além de worksohops, debates, retrospectivas, etc. Agora tem de procurar tudo na internet o que, ao invés de facilitar, prejudica, porque a visão se torna completamente fragmentária.

A maior sensação brasileira será a apresentação de “O processo”, “The Trial”, em inglês, de Maria Augusta Ramos, em pré-estreia amanhã, quinta, para a imprensa, e estreia oficial marcada para o dia 21. O filme é um documentário de mais de duas horas sobre a presidenta Dilma Rousseff durante o processo de sua deposição ilegal, inconstitucional e ilegítima. A ver.

Por outro lado, a indústria automotiva almeja anda com seu prestígio abaixo de zero, como as temperaturas que ora fazem nesta Berlim, apesar de ensolarada. Nos últimos anos uma série de escândalos a atingiu, desde a falsificação de dados sobre emissão de gases dos motores diesel (caso da VW), até a descoberta da inclusão de gastos com bordeis e assemelhados entre as despesas correntes de alguns de seus CEOs, passando pela formação de cartéis de preços dirigidos aos consumidores. O último escândalo foi a revelação de que a VW, a Daimler e a BMW financiaram experimentos com macacos (nos Estados Unidos) e com seres humanos (na Alemanha), expondo-os a emanações dos gases dos motores diesel para estudar a resposta de seus pulmões e do restante do organismo. Curiosamente, o caso dos macacos despertou mais indignação do que o dos humanos. Pode parecer paradoxal, mas é que os humanos foram voluntários. Já os macacos…

Sobretudo, ou melhor, sob tudo, pairava uma sombra terrível: tanto macacos como seres humanos foram confinados em cubículos fechados e expostos a esta palavra que na história alemã tem uma carga terrível: “gás”. Um trauma que não há escapamento que libere.
 



Conteúdo Relacionado