Cartas do Mundo

Cartas de Paris: França - a restauração da 'fraternité'

Os 100 anos de Mandela, a vitória francesa e a morte de um intransigente defensor de Israel

18/07/2018 15:16

nelsonmandela.org

Créditos da foto: nelsonmandela.org

 
 
Leneide Duarte-Plon

Hoje, 18 de julho, comemoram-se os 100 anos de nascimento de Nelson Mandela, que inspirou tantas lutas por igualdade, fraternidade e justiça social, a começar em seu próprio povo sul-africano, esmagado pelo « apartheid » colonial.

O jornal comunista « L’Humanité » não deixou passar a data em branco : fez um caderno especial de 4 páginas para lembrar o símbolo da luta da África do Sul contra o apartheid. Para todos os que lutam por igualdade, Mandela tornou-se um herói. Ele continua inspirando lutas anticoloniais no mundo inteiro, inclusive na Palestina ocupada, onde os palestinos vivem sob uma forma de apartheid, denunciado por intelectuais israelenses e por todos os que combatem o fascismo que se instala pouco a pouco em Israel.

Ontem, véspera do centenário, o ex-presidente Barack Obama fez uma belo discurso em Johannesburg louvando Mandela e alertando para os perigos que ameaçam o mundo, "que está a ponto de retornar a uma ordem antiga, mais brutal '"

"Tenho fé na visão de Mandela, a visão compartilhada por Gandhi, Martin Luther King e Abraham Lincoln. Creio em uma visão da igualdade, da justiça, da liberdade e da democracia multiracial, fundada segundo o princípio de que todos os seres humanos são criados iguais e que são dotados por nosso criador de alguns direitos inalienáveis", disse Obama.

Mas é sempre bom lembrar que antes de se tornar consensual Mandela foi preso e condenado num processo iníquo.

A acusação que pesava contra ele e seus companheiros era de « terrorismo », pois participavam do braço armado do Congresso Nacional Africano (ANC) que lutava contra o apartheid. É preciso também não esquecer que o poder que impunha o apartheid na África do Sul só pôde prender Mandela por informação da CIA.

Hoje, o nome de Nelson Mandela é um dos mais honrados com ruas, praças e avenidas no mundo inteiro.

Macron, presidente dos ricos ?

Menos consensual, o presidente francês Emmanuel Macron estava vivendo uma queda progressiva em sua cota de popularidade. Mas como nasceu sob uma boa estrela, os reis da bola vieram socorrê-lo. Em muito boa hora.

Num momento em que sua popularidade sofre as consequências das reformas impopulares que iniciou (o epíteto "presidente dos ricos" colou nele como um esparadrapo), os jogadores da seleção deram aos franceses motivo de festejar o bleu-blanc-rouge da bandeira e a segunda estrela na camisa oficial.

As imagens dos últimos dias são de vitória e festa.

Macron no desfile militar do 14 juillet, o grande momento anual de união nacional. Macron saltando de alegria no estádio de Moscou. Macron recebendo os jogadores no Eliseu num dia de verão em que o sol iluminou o país de norte a sul.

Resta saber se essa vitória dos  bleus  vai repercutir na popularidade do presidente.

A terça-feira, dia seguinte à chegada dos heróis da bola, marcou a volta à vida real da política.

Emmanuel Macron recebeu os representantes dos sindicatos franceses e do patronato para tratar da reforma do seguro desemprego.

Os sindicatos, assim como o patronato, são interlocutores obrigatórios no que se chama de « dialogue social ». Nenhuma nova reforma é feita sem a negociação com os sindicatos, mesmo quando há uma queda de braços e o governo acaba impondo sua reforma impopular, como a do estatuto dos ferroviários, há poucas semanas. Nem a greve espaçada em três meses conseguiu derrubar a mudança da lei.

Multiculturalismo

Os jogadores da seleção francesa são o retrato da França multicultural, aquela que não querem ver os eleitores de Marine Le Pen. O próprio Obama citou essa realidade em seu discurso de Johannesburg.
Essa questão do multiculturalismo já se colocara há vinte anos.

'A questão da integração, tão discutida em 1998, ficou obsoleta', escreveu Yvan Gastaut, no jornal Libération . 'Um outro mito a substitui, o da fraternidade'.

A fraternidade, aliás, foi revalorizada entre os valores da République.

Na semana passada, o Conselho Constitucional a fez passar de dimensão filosófica-política ao nível de norma jurídica.

Na divisa da République, a fraternité  era o menos citado entre os três pilares que fundam a França moderna, pós-1789 : liberté, égalité, fraternité.

A fraternidade e a solidariedade com os migrantes estavam rendendo processos. Chegou-se a batizar de « delito de solidariedade » o fato de o cidadão ser perseguido na justiça por abrigar migrantes ou ajudá-los a passar a fronteira francesa. Mesmo que essa ajuda fosse meramente humanitária e obviamente desprovida de interesse pecuniário.

O caso de Cédric Herrou ficou famoso. Esse jovem agricultor acolheu migrantes africanos em sua fazenda na fronteira com a Itália e foi condenado em setembro de 2017 a uma pena com sursis.

Agora, ativistas desinteressados que ajudam os migrantes não correrão mais risco de serem julgados.

Venceu a fraternité.

Claude Lanzmann, o sacerdócio por Israel

A morte do cineasta e escritor Claude Lanzmann dia 5 de julho foi noticiada com cadernos especiais, reprises de alguns de seus filmes na televisão e homenagem oficial na cour des Invalides.

Lanzmann era um paradoxo ambulante, como apontou o jornal online Mediapart. Dizia-se anticolonialista e defendia Israel incondicionalmente. Chegou a fazer um filme glorificando o exército israelense, Tsahal , que tem uma história de violência e massacres, como quase todos os exércitos do mundo, mas no qual  ele só via virtudes.

O cineasta não podia suportar críticas a Israel.

Seu engajamento era tão passional que o título de Mediapart era: 'Morte de Claude Lanzmann : um sacerdócio a serviço de Israel ', ressaltando que toda sua carreira e seus filmes foram consagradas à apologia do Estado de Israel.

Mas quando organizou a viagem de Sartre e Beauvoir a Israel, em fevereiro-março de 1967, Lanzmann seguiu à risca a recomendação do filósofo : 'Não quero encontrar militares '.

Sartre foi poupado de ser ver envolvido na propaganda do exército israelense.

Tendo vivido com Simone de Beauvoir por 7 anos, Lanzmann se orgulhava de ser o único homem com quem ela partilhou sua vida sob o mesmo teto, de 1952 a 1959.

No ano passado, ele negociou com a Universidade de Yale a venda de 112 cartas escritas por Beauvoir durante o relacionamento amoroso. Impedido de publicá-las na França pela herdeira de Beauvoir, Sylvie Le Bon de Beauvoir, Lanzmann esperava que um dia elas pudessem ser lidas do outro lado do Atlântico não atingido pela lei francesa, que garante aos herdeiros o direito de autorizar a publicação de cartas pessoais.

Claude Lanzmann ficou mundialmente famoso por seu filme de 9 horas, Shoah. A obra conta a história do projeto nazista de exterminação dos judeus europeus através de sobreviventes dos campos de concentração e de seus carrascos. Depois de seu filme, o holocausto (palavra que ele detestava para designar a  solução final  nazista) passou a ser chamado em francês de « shoah », que em hebraico significa catástrofe.

O filme foi originalmente uma encomenda do governo israelense e a ele o autor consagrou onze anos de trabalho.

'Despertei uma inveja terrível, uma vontade de me exterminar que constato particularmente em alguns judeus', disse ele um dia a um amigo.

Estive duas vezes no apartamento de Lanzmann para entrevistá-lo.  Recentemente republiquei aqui nas Cartas de Paris a última entrevista que me deu, antes de ir ao Brasil participar da Flip de Paraty.

Ele era tão insuportavelmente narcisista quanto surdo. Sem o aparelho de surdez não ouvia praticamente nada. Pude constatar isso ao falar, estando ele de costas, antes da colocação do aparelho. Obviamente, só obtive resposta depois de repetir a pergunta.

Seu amigo Franck Nouchi, do  Le Monde , contou que uma noite em que já estava muito enfraquecido pelo câncer, Mitterrand pediu a Claude Lanzmann para vir conversar no Eliseu.

'Lanzmann, o que é a morte ? ', perguntou o presidente.

'É um escândalo absoluto ', presidente.

Ele deve ter partido aos 92 anos, revoltado, pensando que essa derradeira viagem era prematura.



Conteúdo Relacionado